Qual seu bolo preferido?

  • Ana Holanda
  • FOTOGRAFIA: Alexxandre Bonato (IStock)

Nossos gostos são construídos por um conjunto de experiências que vão moldando quem somos hoje.

Essa pergunta me foi feita dias desses. E fiquei surpresa ao perceber o quão difícil foi responder. O bolo de chocolate da minha mãe é um clássico na família. Ele precisa estar presente em todas as comemorações. Caso contrário, é como se algo faltasse. Mas, apesar de adora-lo não posso dizer que é o meu bolo preferido. O que torna, então, algo nosso prato predileto? Atentei-me a pensar nisso.

Quando ouço as pessoas falarem sobre seus bolos mais queridos, percebo que isso está ligado a uma série de questões: a história que ele carrega, o sabor e um terceiro elemento que, nesse caso, foi definitivo para a minha escolha preferida. E ele tem a ver com o quanto aquele bolo tem relação com a pessoa que somos. É uma construção cheia de meandros e que nos leva a perceber e a diferenciar aquilo que gostamos daquilo que não nos agrada – na cozinha e na vida.

Bolo de laranja

Cheguei então a dois sabores: o de laranja e o de fubá com goiabada. E mergulhei profundamente para entender o motivo pelo qual eles me agradam tanto. O de laranja me lembra frescor. Leva-me para o quintal do sítio dos meus pais, quando meu pai pegava as folhas da laranjeira, as picotava com os dedos e dizia para que as cheirasse. Tem o aroma da fruta. E isso ficou guardado na minha memória. Esse interesse que meu pai tinha em despertar em mim o apreço pelas coisas simples, delicadas, próximas. Bolo de laranja é bolo simples. Desses que quando a gente prepara, enchem a casa de um perfume cítrico muito bom. E ter a casa inundada por isso me remete também para o meu lar de infância. Minha mãe preparava bolo quase toda semana. Era fácil saber quando um estava no forno, porque impregnava a casa com o cheiro adocicado. Minha mãe nunca foi de muito afetos, de abraçar, beijar ou dizer que amava. Mas ela fazia aquilo que gostávamos e bolo fresco era uma dessas demonstrações de amor em formato de comida. Então, comer bolo de laranja não é só uma questão de paladar. Envolve tudo isso numa única fatia. Além de ser ótimo para acompanhar um café fresco, recém-coado. Sentar, conversar, pensar.

bolo preferido

Alisa Anton (Unsplash)

Fubá com goiabada

Já o de fubá com goiabada é uma viagem direto para a goiabeira, os quintais compridos da minha meninice e a tentativa de colher uma goiaba que não tivesse bicho dentro – algo muito raro. É sobre brincadeira de infância, mas também diz muito sobre meu momento atual. Nunca fui fã de fubá, até descobrir essa versão. Um dia, me deparei com a receita e decidi preparar. Comê-lo quente é passe direto para o céu, com a goiabada ainda derretida por dentro. No final das contas, fui eu quem passou a receita para a minha mãe. E isso diz muito sobre a relação que estamos construindo hoje. De troca, de aproximação, de saber amar a partir de quem somos e não de uma versão idealizada de cada uma de nós. Eu não segui o caminho que minha mãe desejava para mim. E ela não foi a mãe carinhosa que eu gostaria de ter tido. Mas já entendemos que tudo bem. Cada uma é o que é. E então pudemos nos abrir para uma parceria mãe e filha sem idealismos e, ainda assim, costurada pelo respeito e pelo amor. Quando faço o bolo de fubá com goiabada, adoro comer uma fatia com ela. Sentamos e conversamos sobre nós. Um bolo preferido carrega, então, tudo isso. Qual é o seu? Isso é algo que somente você pode definir.


Ana Holanda é diretora de conteúdo da Vida Simples, autora dos livros Minha Mãe Fazia e Como se Encontrar na Escrita, ambos da Rocco. Gosta de cozinhar e de escrever, sua maneira de estar no mundo e de lidar com seus sentimentos mais profundos. Escreve mensalmente nesta coluna.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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