Qual é o lugar seguro?

  • Beto Pandiani
  • FOTOGRAFIA: Lazarescu Alexandra | Unsplash

O lugar seguro é onde o nosso racional explica tudo, e nos dá ilusão de que controlamos tudo. Porém, ele também é um lugar muito perigoso, pois é todo construído em cima de medo e ilusões.

E se este mundo que está sendo apresentado para nós daqui para frente continuar assim? Ou melhor, se ele for mais parecido com o que estamos passando do que como era antes? Será que dá para sentir saudades de como ele era? Ou sentimos saudades do que é conhecido? Ou ainda, é melhor um ruim conhecido do que um novo incerto?

A mente é muito acomodada e ela gosta de lugares quentinhos. O que é um lugar quentinho? É um lugar “seguro”, com poucas mudanças e baseado em tradições, fórmulas e métodos. O quentinho é um lugar onde o nosso racional explica tudo, e nos dá ilusão de que controlamos tudo.

Mas o lugar quentinho é um lugar muito perigoso, pois ele é todo construído em cima de medo e ilusões. E temos muito medo de nos desiludirmos. Entretanto, essa é a melhor coisa que pode nos acontecer. Agora estamos todos “presos” e desiludidos. Mas vamos olhar por outro aspecto. Onde a experiência da desilusão nos leva? Para um lugar melhor, onde não há ilusão.

Nesse lugar de desiludidos começamos a construir relações mais estáveis, e com recursos inesgotáveis.

Recursos dentro de nós

Dentro desse cenário onde o imponderável se tornou uma constante a atitude mais segura é buscarmos o que podemos contar em qualquer situação. Os recursos estão cada vez mais raros, mas os recursos inesgotáveis estão dentro de nós. Que tipos de recursos são estes? Criatividade, resiliência, pensamento cooperativo, humildade, aceitação e entusiasmo. São eles que vão nos ajudar a voltar para casa.

As relações nas tempestades ou em ambientes de imponderabilidade precisam ser fortes e resistentes. Como construir relações fortes? Tirando o foco de si e colocando no outro.

A ideia é simples. Preste a atenção nas necessidades das pessoas ao seu redor. Se todos fizerem esse movimento juntos, cria-se relações de confiança e autoestima. Quando você recebe suporte você passa a confiar, quando é a sua vez de colaborar você aumenta a sua autoestima e reconhece em si seu valor. Essa é a fórmula da cumplicidade. É assim que procedemos em nosso barco.

lugar seguro

Crédito: Gui von Schmidt

Não esperar

Antes olhávamos para o mundo pensando em como satisfazer os nossos desejos. Agora vamos prestar a atenção nas necessidades da sociedade. Essa é outra atitude segura.  Com o que podemos contar? Será que devemos esperar que o imponderável se amolde as nossas expectativas? Devemos esperar ventos favoráveis para nos sentirmos seguros? A tempestade passou, e eu tenho uma única certeza, outra virá.

Conclusão: No meio do mar, com o barco sendo atingido por fortes vendavais no ambiente mais hostil que se possa imaginar, e mergulhando no imponderável, eu vejo que a atitude mais segura é contar com os nossos recursos. Não importa o tamanho da onde, a força do vento, os nossos recursos sempre estarão lá esperando para serem acessados.

Preparo para o bom e o meu tempo

Em se tratando da equipe como citei antes, as relações fortes baseadas em cumplicidade e confiança foram fundamentais para cruzarmos vários mares em pequenos barcos abertos. Mas somente isso não seria suficiente. Em nosso barco o que foi decisivo foi saber que nós dois tínhamos plena consciência que só conseguiríamos chegar do outro lado se nos superássemos, e usássemos todo o nosso potencial e conhecimento.

Outro dia li uma frase que me deixou intrigado: “O porto é a utopia de uma embarcação” Refleti e entendi que a natureza do barco é navegar. Ele parado e atracado não é um barco naquele momento. Ele foi feito para enfrentar todas as situações de imponderabilidade, para mostrar as suas qualidades na navegação.

A nossa vida é igual. Estamos aqui para viver, para sentir, para nos expormos as intempéries dos oceanos, pois essa é a nossa natureza. O nosso destino é a prosperidade, mas ela não é, e nem se encontra em um porto seguro, ela acontece durante a nossa jornada.

Um bom barco se adapta bem ao mau tempo, assim como o velejador, pois ele entende que as suas habilidades só podem serem aprimoradas em condições adversas. A adversidade pode ser vista como uma oportunidade de desenvolvimento. Foi assim que chegamos tão longe a bordo de barcos tão pequenos e abertos.   

O que é seguro dá trabalho, o que é ilusório é sedutor.


BETO PANDIANI  é velejador, palestrante e escritor. Velejou da Antártica à Groenlândia, cruzou dois oceanos (Pacífico e Atlântico), sempre em pequenos veleiros sem cabine. Tem sete livros publicados.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 238, dezembro de 2021 COMPRAR

TAMBÉM QUERO COMENTAR

 

Campos obrigatórios*