PROFESSOR POLVO, de Pippa Ehrlich e James Reed

  • Suzana Vidigal

Floresta de Algas

Ano passado, na semana do dia dos professores, meu garimpo me levou até um documentário chamado Professor Polvo (My Octopus Teacher), da Netflix. Achei o nome brega, pretensioso, olhei torto – julguei o livro pela capa, por assim dizer. Mas tinha um atrativo que era a locação: se passava no litoral da África do Sul, mais especificamente no Cabo das Tormentas, onde as florestas de algas subaquáticas chamadas kelp forest são algo fascinante – lembro de ter lido sobre elas quando visitei Cape Town. Sem falar da beleza da paisagem – aquela que a gente não precisa mergulhar pra ver.

Embarquei no documentário. Fui me envolvendo com a história daquele sujeito chamado Craig Foster, um cineasta que chegou no seu limite de esgotamento de trabalho, no limite da pressão, a ponto de não conseguir mais viver assim. Sentia-se desconectado da natureza, dele mesmo, da família. A forma de resgatar essa essência foi voltando para o mar, naquela casa no Cabo das Tormentas, onde tinha passado sua infância mergulhando na floresta de algas. Ali o mar é gelado e raivoso, o litoral, rochoso, mas é lá que Foster foi buscar sua conexão com ele mesmo.

Conexão-Polvo

Foster mergulha e a gente mergulha junto. Mergulho livre, sem cilindro, no peito. Mergulho sem roupa de neoprene, para não ter barreiras com o meio ambiente. As imagens são impressionantes por si só e já merecem o passeio, mesmo antes de o polvo aparecer. Quando Foster avista o protagonista, o documentário vai focar no contato entre o mergulhador e o animal, num processo de observação, sensibilidade, intuição de que ali havia uma experiência a ser vivida. E que ela teria, sim, o poder de regenerar e transformar. Algo pra se aprender.

Tudo isso pra dizer que Professor Polvo chamou atenção, não só porque está sendo cotado pra concorrer ao Oscar na categoria documentário longa metragem, mas principalmente porque traz essa mensagem do resgate do que realmente somos e queremos. Em linguagens tão diferentes, tem sintonia com Soul, filme que comentei na coluna anterior, nessa questão da descoberta da paixão, de que a vida é hoje-aqui-e-agora, da conexão com as situações simples e cotidianas. Aquelas que realmente preenchem, que nos levam aos mergulhos mais profundos, mais genuínos, mais reconfortantes.

Fiquei pensando em quantas vezes essa mensagem não chega na gente, como um alerta básico e claro de que é-preciso-parar-e-repensar-as-escolhas. Nesta coluna em que o cinema entra como pano de fundo para as minhas reflexões, fiz repeteco dessa mesma temática, com produções opostas – animação e documentário. Fiquei pensando quantas vezes fazemos cara de paisagem e não damos bola pra essa mensagem que grita no nosso ouvido, querendo abrir espaço pra um olhar diferente. Corajoso. Ousado. Verdadeiro.

O mergulho em Professor Polvo é primoroso – criaturas nunca antes vistas, natureza gloriosa e um ser humano de gaiato passeando pelos mares gelados da África do Sul, à procura dele mesmo.


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