Procura-se pessoa assertiva para relacionamento sério

  • Margot Cardoso
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Expressar-se de forma clara, objetiva, tranquila e sem magoar o outro? Nem sempre dá, mas a assertividade é um elemento de primeira necessidade, no trabalho, no amor e na vida.

Eu tenho uma rotina pesada. Um trabalho intenso, um filho, uma casa para gerir. Entretanto, se alguém me interrompe — seja por mensagem ou chamada — com o “desculpe, atrapalho? Você está ocupada?”. Eu digo sempre que não. Mesmo quando estou aflita — com prazos apertados e várias janelas do browser abertas à espera de tarefas para concluir — digo sempre “não, você não me atrapalha”.

Já notei esse padrão. Arrependo-me quando a conversa se estende e fico decepcionada comigo mesma. Por que não sou assertiva e não protejo o meu tempo? Por que digo “sim” quando deveria dizer “não”? Porque não digo “sim, atrapalha”? Qual a razão para não ser direta sobre as minhas necessidades? A resposta é que tenho receio de ser arrogante e hostil. Tenho receio de magoar os outros. E, com esse receio, sou hostil para comigo mesma. 

Magoar alguém

Apesar disso, há muito tempo que sou atenta à assertividade — a minha e a dos outros. Porém, reconheço que ainda me falta muito. Sou assertiva em algumas áreas, outras não. No exemplo acima, não sou assertiva com o meu tempo. E tenho muito mais dificuldade em ser assertiva quando ela implica o risco de magoar alguém.

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Crédito: Jirsak | IStock

Entretanto, sei que não estou sozinha. A assertividade vem de um equilíbrio delicado, uma sintonia difícil de ajustar. Às vezes, ela magoa. Mas, não ser assertivo, pode magoar ainda mais. Então, nesse caso, é preciso encontrar o ponto exato onde a assertividade doa o menos possível. 

Diferenças culturais

No início da minha vida em Portugal, levei um choque com os altos níveis de assertividade do povo português. O brasileiro com a tendência de suavizar, dourar a pílula é menos assertivo comparado ao português. Essa diferença talvez venha do fato da assertividade ser muito valorizada em terras de Camões. Quando um português elenca as virtudes de alguém, aparece sempre a frontalidade. E aqui, um bom sinônimo de assertividade.

Muitas vezes, fiquei magoada. Não habituada a assertividade, considerava-a como indelicadeza ou grosseria. Mas depois de devidamente aclimatada, lido bem. Não vou negar que ainda hoje algumas “assertividades” ainda me chocam. Mas, prefiro-as. Amo quando numa discussão, um português, sem se exaltar, com a maior bonomia do mundo, dispara: “peço desculpas, mas você não tem razão nenhuma”.

Grosseiro ou frontal

É claro que a assertividade não é patrimônio de nenhuma cultura. Há assertivos e não assertivos em todas as nacionalidades. E essa minha estatística não tem rigor técnico, nem uma amostra válida. São impressões que apreendo das minhas vivências. Por fim, há muitos que não sabem distinguir frontalidade e grosseria.

Eu aprecio a frontalidade, mas tenho tolerância zero para a grosseria. Eu tenho amigos neuróticos, esquisitos e fora da caixa. Entretanto, grosseiros, não tenho nenhum. O outro extremo também não é bom. Tenho verdadeiro horror de pessoas “fofas” e “boazinhas”. São as piores. Na tentativa de não magoar, acabam por magoar ainda mais. 

E aqui entramos num departamento onde a assertividade — doa a quem doer — é fundamental: nos relacionamentos pessoais. E justamente aqui, onde ela é mais necessária, é também onde é mais difícil implementar. Alguns, a falta de assertividade chega a ser patológica. Outros, são cruelmente assertivos. Uma conhecida, num primeiro jantar com um amigo das redes sociais, ouviu “eu pensei que você fosse mais magra”. Um comentário que ataca a autoestima e diminui o outro, pode ser considerado assertivo?   

Atitude assertiva

É muito comum, relações que começam e acabam ainda no início, na fase do “conhecimento”. Outras que passam anos estagnada, na fase um. Num grupo de amigos, um recém-solteiro comentava sobre as razões da ruptura do seu relacionamento de cinco anos. Ele contou que quis romper a relação logo no inicio. A ainda namorada questionou o motivo. “Não vou te amar” foi a resposta. Ela rebateu com o “só por isso? Não me importo”. Então, foram namorados felizes por seis anos.

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Crédito: Zakokor | IStock

Entretanto, há quem considere essa assertividade triste e excessiva. Mas pense na quantidade de relações com fins traumáticos por conta da falta dessa assertiva sentença “não vou te amar”. Há quem passe anos achando que tem um amor e, por fim, descobre que teve apenas um namorado, uma companhia, uma construção social. É muito mais triste.

Conto ou não?

Outra situação comum nas relações: o surgimento de uma terceira pessoa. Quando isso acontece — na maioria das vezes — a relação passa por um processo de extrema agonia. A parte que já está de saída torna-se distante e irritável. E o outro fica tentando entender o que se passa. Vive numa espécie de limbo de questões: Será que fiz alguma coisa errada? É algum problema no trabalho? É uma fase menos boa?

Assim, a pergunta “o que você tem?” tem como resposta “nada”. E o outro fica por ali, perdido, sem saber o que fazer. Alguns vivem meses numa angústia desgastante até finalmente descobri a terceira pessoa. Quando confrontado, o outro nega. E lá se vão mais semanas torturantes até o fim inevitável.

Porém, apesar de ser o mais comum, nem todos seguem esse roteiro. Alguns só ficam à espera da pergunta “o que se passa?” para logo disparar “eu conheci outra pessoa”. Isso é a assertividade no seu melhor. Está tudo dito. Evita-se um trajeto penoso para ambos.

Útil, bom, mas difícil

Se é o melhor, por que não somos mais assertivos? Porque não é fácil encontrar a medida certa. A moderação tem um apelo intuitivo e começamos a trilhá-la desde a infância. A criança aprende desde cedo os custos dos comentários sinceros, com o “isso não se diz” e o “peça desculpas, já”.

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Crédito: Andrii Yalanskyi | IStock

Assim, não é sem razão que esse é um tema acarinhado pela filosofia. Segundo Aristóteles, trafegar entre esses dois limites é a condição primeira para a virtudes. E, essas, essenciais para a vida boa. E esse equilíbrio não é exclusivo da assertividade. Para ele, todas as virtudes estão no ponto médio entre dois opostos. Ou dois vícios, segundo o filósofo. A coragem é o ponto do meio entre a imprudência e a covardia. A gentileza, entre a rudeza e a subserviência. E, claro, esse equilíbrio não foi valorizado apenas por Aristóteles. O budismo, por exemplo, fala dos seus benefícios.

Pedras no meio do caminho

Falando assim, em medidas, parece algo fácil. Não é. Há muitas pedras no meio do caminho. Além da complexidade da vida tomando a frente de tudo, estados de espírito, como a ansiedade, atrapalham o exercício. A ansiedade é o principal motor do pensamento tudo ou nada — isto é, os extremos. Insegurança? Atrapalha. Inseguros queremos tudo do nosso jeito. E lá se vai o discernimento.

Qual é a recomendação de Aristóteles? Treino. De acordo com ele as virtudes precisam ser aprendidas e praticadas. A excelência virá com o treino. Não há fórmulas ou manuais escritos. Não há regras do que é permitido ou proibido. Porém, nesse aprendizado, Aristóteles enfatiza a importância da comunidade, da educação e dos modelos. Daí a importância de nos cercamos de bons exemplos e mentores. Os pais devem estar atentos para ensinar esse exercício aos filhos.

A moderação que leva a assertividade — ou qualquer outra virtude —  é um caminho a ser percorrido. Se você não exercita, vai sentir desconforto. O seu não, hoje não posso” vai doer nas primeiras vezes. Porém, com a prática, será cada vez mais fácil.

Procura-se   

Assim sendo, quando alguém vier com mais um pedido para aumentar a sua sobrecarga, você deve dizer um “não” imediato? Claro. Talvez você possa dizer “podemos voltar a falar amanhã ou a semana que vem?” Ou talvez você precise de um tempo para refletir e o mais adequado seja “não posso me comprometer agora”.

Quando você estiver infeliz em uma relação, contemple os seus limites e se posicione. Pode ser difícil verbalizar “estou interessado em outra pessoa”, mas não dizer, será muito pior. Quando se trata da verdade, um golpe assertivo pode ser menos doloroso e de cura mais rápida — do que as agonias lentas das verdades não ditas. 

MARGOT CARDOSO é jornalista, mestre em filosofia e, hoje pela manhã, disse claramente “Não. Agora eu não posso. Podemos falar amanhã? Qual é o melhor horário para você?”. 


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