Hoje não, amanhã!

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Pheelings Media (IStock)

O ato de procrastinar — a semelhança da culpa e do arrependimento — atormenta os nossos dias. Porém, ele nem sempre é negativo.

Finalmente escrevo sobre uma tema que eu domino completamente: a procrastinação. Sou detentora de recordes olímpicos nessa modalidade. Inclusive, há muito tempo procrastino pensar sobre a procrastinação — inclusive tenho procrastinado a escrever sobre o assunto. E, agora mesmo — antes de iniciar este parágrafo — estive à deriva na internet. Já percorri as salas virtuais do Museu Rodin, em Paris; vi como estava o tempo em Bruxelas, vi a agenda de hoje do Parlamento europeu, admirei a última coleção da Miu Miu, visualizei a página da BBC News e observei os gráficos das temperaturas médias do ar no planeta. E em meio a isso tudo, reli trechos do livro Os Filósofos e o Amor — que acabei de ler e passei os olhos sobre o prólogo do livro que comprei ontem A Sociedade Paliativa, de Byung-Chul Han.

E como se não bastassem todas essas distrações, quando começo a pensar no ato de procrastinar, ainda divago e penso que a questão realmente importante é: porque razão uma pessoa tem de escolher viver uma vida se pode passá-la obsessivamente a clicar em diversas outras vidas possíveis? Veja o tamanho — e criatividade — da minha capacidade de procrastinar. E isso tudo porque a minha ideia era ter começado a escrever este texto ontem.

Um velho conhecido

Apesar da palavra ser pouco usada na oralidade nossa de cada dia, todos sabemos do que se trata. Procrastinar é adiar, postergar, enrolar, “empurrar com a barriga”, deixar para amanhã, perder o foco, ocupar-se de outras coisas “menos importantes”. Humano, o ato de procrastinar está em nós desde o início dos tempos. O filósofo Sêneca, um mentor para todas as horas, escreveu que “enquanto desperdiçamos nosso tempo hesitando e adiando, a vida se dissipa”. Muito antes dele, Hesíodo — a quem devemos o conhecimento mitológico da origem do mundo — aconselhou na obra Os Trabalhos e os Dias “Não adies para amanhã, nem para depois de amanhã; celeiros não se enchem por aqueles que postergam e dedicam seu tempo ao infrutífero”.

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Luis Villasmil (Unsplash)

Nos dias de hoje

Agora imagina que Hesíodo (650 a.C) e Sêneca (4 a.C) já denunciavam a procrastinação antes das inúmeras distrações modernas, como a internet. E, claro, há muito mais procrastinadores hoje. Porque quanto mais opções, mais demoramos para decidir por uma delas. Passamos a analisar cada escolha e o gasto de energia nessa tarefa leva-nos a paralisia. Qual caminho optar? E se esse for o caminho errado? E se eu me arrepender? Incapaz de decidir, paralisamos e eis que a procrastinação se materializa bem diante dos nossos olhos. Você sabe do que se trata. Há uma semana, você experienciou esse processo. E agora, neste momento, sua mente está em turbilhão. Você não tem certeza se fez a escolha certa. Pensa que deveria ter optado pela escolha oposta. Você imagina como estaria de tivesse optado pela opção três. Vê com clareza consequências nefastas da opção um (a escolhida)… está arrependido. Você tem a nítida impressão que deveria ter esperado mais, isto é, ter procrastinado. Agora é tarde demais para mudar de ideia. Porém, diante desse drama, há grandes chances de você — de agora em diante, acovardado — ser mais procrastinador.

O que está em jogo

Porém, procrastinar pode ser tão doloroso quanto a nossa falta de talento para fazer escolhas e ações de qualidade. Ela está entre as grandes barreiras para a satisfação de viver. É sabido que lamentamos mais do que não fizemos do que fizemos. O arrependimento e a culpa podem nos perseguir até o fim da vida por aquilo que não fizemos (ou não dissemos), muito mais do que aquilo que efetivamente fizemos.

E porque isso é tão dramático? Ora, vamos morrer. Não temos todo o tempo do mundo. À luz desse fato, o tempo é o nosso bem mais precioso. Mais do que o dinheiro. Diferente do dinheiro, o tempo não se ganha, não se compra. Por isso, sentimos culpa quando pensamos que estamos desperdiçando o nosso tempo. E daí todo o mal-estar gerado pelo ato de procrastinar.

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W-ings (IStock)

O mundo espera mais de nós

Que atire a primeira pedra quem — de vez em quando — não adie uma tarefa difícil, entediante ou desagradável, e se atire a outras mais fáceis e prazerosas, porém menos importantes? Os politicamente corretos tentam diferenciar procrastinação e preguiça? Não é. São exatamente a mesma coisa: negligenciar ou descuidar das coisas que tem a obrigação de fazer. A preguiça não é bem vista. Considerada um dos sete pecados capitais, ela nos atormenta. Não deveria. Todos temos direito à preguiça. Temos o direito a procrastinar. Assim, como temos o direito de relaxar, divagar e se “ausentar” quando a mente e o corpo pedem. Então, porque a vergonha e o drama da preguiça/procrastinação. Ora, porque o procrastinador pode deixar de cumprir uma tarefa ou falhar um prazo. E isso para a nossa sociedade da competência ­— e do sucesso a todo custo — é considerado um desastre.

É exatamente por conta disso que há uma infinidade de gurus no mundo corporativo que se especializaram em disciplinar preguiçosos, como o tcheco Petr Ludwig . Em 2013, ele criou uma comunidade online para combater a procrastinação. O sucesso foi tanto que Petr se tornou consultor de grandes empresas. Seu primeiro livro, O Fim da Procrastinação (Editora Sextante) virou bestseller internacional e já foi traduzido em 15 idiomas

Alguém em nosso socorro

Porém, aos poucos essa caça às bruxas procrastinadoras, vem sendo suavizada. Já há estudos que associam o ato de procrastinar à qualidade do pensamento e das decisões. Agora, admite-se que há uma procrastinação boa e outra má. Há o procrastinador ativo que adia tarefas, mas faz outras tarefas mais importantes ou mais urgentes. E há o passivo. O que não faz nada e desperdiça o tempo.

Esses estudos são um bálsamo para nós, os procrastinadores. Afinal, todos conhecemos procrastinadores talentosos e bem-sucedidos. A história está cheia deles. O enorme Victor Hugo, autor de romances como Os Miseráveis, era constantemente assediado pela procrastinação. Conta-se que para se obrigar a terminar suas obras ele tinha um método — digamos, de choque. O romancista francês entregava a um empregado todas as suas roupas e ordenava que elas só fossem devolvidas após uma determinada hora. Nu, sem poder sair do estúdio, havia poucas opções melhores do que escrever. O orador e político ateniense Demóstenes tinha por hábito rapar apenas um lado da cabeça. Assim, o constrangimento da semi careca, obrigava-o a permanecer em casa. Hoje, muitos praticam métodos equivalentes, como manter o celular longe do alcance das mãos.

Outro exemplo? Mozart. Muitas das suas composições estavam apenas na sua cabeça e ele procrastinava transcrevê-las para o papel. Contam que na estreia de Don Giovanni, em 1787, em Praga, os músicos tiveram que estrear sem ensaio geral e com a tinta das partituras ainda molhada. Mas parece que entre os procrastinadores talentosos, ninguém superou Leonardo Da Vinci. Ele passou 16 anos pintando a Monalisa. Tudo indica que não recebeu nenhum dinheiro enquanto decorria o trabalho e nunca a entregou a quem o encomendou. Mas, por outro lado, a obra se beneficiou de todos os processos de aprendizado pelos quais Da Vinci foi passando ao longo da vida. Era sua eterna obra inacabada, porque sempre havia algo a melhorar.

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Blue Planet Studio (IStock)

E aqui descobrimos algo maravilhoso da procrastinação: ela faz parte da excelência. Há realmente tarefas na vida que se beneficiam da procrastinação. Às vezes, procrastinar é um indicador de que devemos mesmo esperar. Se você é um caso extremo de procrastinação, que atrapalha a sua vida e a dos outros, você talvez precise da ajuda de técnicas e ferramentas dos gurus corporativos. Caso contrário, ela não é necessariamente má.

Acima de tudo o que esperam de nós, procrastinar lembra-nos que o trabalho não é a coisa mais importante do mundo. Ser produtivo não é condição de felicidade. É o contrário. Quando somos felizes, somos mais produtivos.

Em tempos de hiperatividade e todos os tipos de excessos, procrastinar pode ser o nosso último ato de rebeldia. O nossa única trincheira de luta, o nosso escape. Não somos só pessoas assépticas, produtivas e funcionais. Não transitamos apenas entre o pecado e a patologia. Não podemos aceitar serenamente sermos lançados às rochas, empurrados para exigências que superam a nossa capacidade de atendê-las. Talvez devamos aceitar que simplesmente não estamos prontos para dar determinado passo ou executar certa tarefa. O ato de procrastinar pode ser a nossa defesa contra as sobrecargas e as metas descabidas. É preciso respeitar o nosso ritmo, os nossos processos internos. Talvez precisemos de mais tempo para avaliar o momento certo. O nosso momento certo.


Margot Cardoso (@margotcardosoé jornalista e mestre em filosofia. Mora em Portugal há 18 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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