O que vai ser de nós nos próximos anos?

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Seth Doyle | Unsplash

Alguns teóricos afirmam que a pandemia chega ao fim em 2024 e que viveremos tempos semelhantes aos agitados e loucos anos 20 do século passado.

Preciso confessar que em 2020, no início da pandemia, senti um grande cansaço. O excesso de informação e especulação nas redes sociais. O bombardeio diário de notícias sobre mais um traço da “personalidade” do vírus. As teorias da conspiração. Os pessimistas, os alarmistas, os céticos. Eu havia lido A Peste, de Albert Camus e acho que boa parte do que estava acontecendo estava registrado nessa obra. Afinal, pragas e pandemias não são novidade para a humanidade.

Em seguida, em 2021, o mesmo cenário, porém, com foco nas vacinas. Dessa forma, estamos em pleno bombardeio de notícias sobre os fabricantes, as formas de atuação e seus efeitos colaterais passaram a ser alvo de relatos e discussões intermináveis. E, claro, as fake news com as suas constantes atualizações.

Mais sensatos?

Por outro lado — e como se não bastasse o escrutínio científico — há ainda análises históricas e políticas. Com os sinais de um abrandamento do Covid, proliferam agora as previsões. Já falou-se muito sobre o aprendizado que certamente vamos extrair desse período. O vírus deixou a nu as nossas fragilidades e agora seremos menos arrogantes e menos excessivos. 

Pela experiência de outras pandemias – como a peste negra e a gripe espanhola — é sabido que devido ao estado permanente de incerteza, a religiosidade aumenta. Assim como as pessoas ficam mais sóbrias e comedidas, se tornam avessas a riscos e economizam mais dinheiro. 

Mais do que isso, há a crença de que passamos por uma espécie de purgatório e agora estaremos mais conscientes sobre o que realmente importa na nossa vida. Seremos mais ecológicos, menos gananciosos e mais altruístas. 

O futuro como será?

Porém, recentemente, eis que surge um cenário novo: previsões para o período pós-pandemia. Entretanto, não falo dos futurólogos pessimistas, alarmistas, céticos. Aqui sem novidades. De facto, o que me tem chamado atenção nas últimas semanas, são as previsões otimistas.

Confesso que sou uma pessoa do presente. O futuro só me preocupa quando lança sobre o presente uma sombra muito negra. Mas, achei imensamente curioso as previsões que dizem que após a pandemia, reviveremos um tempo de efervescência geral: da economia, passando pela cultura e até nas relações sexuais. 

América, primeiro

A imprensa norte-americana, por exemplo, no seu exercício de futuro, acredita que haverá um boom econômico. Para além de acreditarem que depois da escassez, vem sempre os excessos, contam muito com o dinheiro dos herdeiros.

pós-pandemia

Gabrielle Henderson | Unsplash

Pode parecer tétrico, mas com o grande número de mortos, entra na equação o número de herdeiros. E esses, de acordo com as estatísticas, tem tendência a esbanjar dinheiro. 

Economia à parte, não há previsões mais positivas do que as do célebre epidemiologista grego-americano Nicholas Christakis. Autor do livro Apollo’s Arrow: The Profound and Enduring Impact of Coronavirus on the Way We Live. Numa tradução livre, Flecha de Apolo: o impacto profundo e duradouro do coronavírus na maneira como vivemos.

Enfim, o paraíso

De acordo com ele, vamos mesmo sair de um incerto purgatório diretamente para o paraíso. E não é apenas os bons ventos econômicos.  Grandes mudanças sociais, culturais e comportamentais acompanharão o aquecimento da economia. Para ele, será um período semelhante aos agitados anos 20 do século passado. Isto é: relaxamento moral que resultará em libertinagem sexual. Efervescência nas artes e na cultura.    

Segundo Christakis, quando a economia retomar o ritmo perdido no período pandêmico — lá por volta de 2024 as pessoas buscarão incansavelmente as interações sociais. E isso pode incluir desde liberdade sexual, passando por desperdício financeiro até em reencontro com a religiosidade. 

Para ele, todas as tendências que temos na pandemia passará ao seu avesso. 

Ainda o trauma

É verdade que o trauma da pandemia não vai desaparecer de uma hora para outra. Entretanto, isso é justamente mais um reforço nas previsões. Dentro do nosso íntimo, ficará marcado — ainda por um longo tempo — que a qualquer momento tudo poderá ir pelos ares. Logo, é provável que vivamos uma espécie de carpe diem. É o clássico aproveitar o presente porque o amanhã é incerto. E, claro, o mercado e os gatilhos do capitalismo darão uma ajuda.

Médico e sociológico, Christakis tem divulgado os aspectos científicos, históricos e sociais do vírus através das rede sociais. Entretanto, em Apollo’s Arrow ele aborda, sobretudo, a perspectiva histórica da pandemia. O seu livro  — e A Peste, de Camus — mostram que estamos lidando com Covid da mesma forma que lidamos com pragas, pandemia e tempos difíceis do passado.

Nada de novo

Agora, a vida pode parecer-nos estranha e sem sentido, mas não é nova em termos de espécie. As pragas e as doenças contagiosas fazem parte da história da humanidade. As pragas são relatadas na Bíblia, a peste negra na era medieval e, mais recentemente, em 1918, a gripe espanhola, que infetou 1/4 da população mundial da época. 

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Crédito: Matt Moloney | Unsplash

De acordo com ele, as diferenças da nossa experiência hoje é que estamos — em alguns aspectos — muitos melhores. É verdade que muita gente se comportou mal, houve rupturas, a economia desacelerou, sentimos mais medo e tristeza. Mas muitos acrescentaram uma perspectiva espiritual à vida, que não havia. E há mais bondade e generosidade. 

Milagre

Assim como Christakis, há muitos outros que partilham essa visão otimista. Da mesma forma, estes afirmam que o grande vilão é o vírus que se aproveita da nossa capacidade de socialização e proximidade. Se não fôssemos sociáveis e gregários não haveria contágio.

Entretanto, é justamente essa nossa capacidade de cooperação e proximidade que permitiu que adotássemos intervenções não médicas como o uso de máscaras e distanciamento social. Sem contar, a cooperação que permitiu a criação de vacinas em tempo recorde. O que muitos otimistas colocam na categoria de milagre.

Nem tão bom assim

Dessa forma, os cínicos poderiam dizer que essa capacidade de coesão, também trabalha contra nós. A nossa proximidade não propicia apenas o contágio de vírus, há também o contágio de ideias e de pensamentos. A opinião sobre o uso de máscaras e a importância das vacinas se espalham de pessoa para pessoa. Todos afetam todos.    

Há estudos sobre a vacina da gripe que mostram que a probabilidade da pessoa ser vacinada depende de um amigo ter também sido vacinado. E também se seus amigos haviam contraído gripe. Da mesma forma, a probabilidade de uma pessoa pegar a gripe depende do fato de seus amigos a terem contraído ou de terem sido vacinados. Ocorre um entrelaçar de contágios: o biológico e o social, e um afeta o outro. 

Otimismo, apesar de tudo

Quem vencerá? O contágio biológico ou o comportamental? Até aqui o médico sociólogo é otimista. Ele acredita que vamos travar o progresso do vírus. Entretanto, não ficamos apenas nisso. Somos a primeira geração de seres humanos que conseguiu enfrentar esse tipo de ameaça.

Enquanto na peste negra se fugia e na gripe espanhola não se sabia como tratar, nós, imediatamente adotamos medidas não médicas para conter o contágio (as máscaras e o distanciamento social). E na sequência, criamos uma vacina em tempo recorde. Um feito, para muitos, classificado como milagre.

Danos permanentes

Assim, apesar do otimismo sabemos que os custos psicológico, social e econômico da pandemia estarão no cenário por muitos anos. Milhares de pessoas morreram. Outras milhares ficaram sem trabalho. Milhões de empresas fecharam.

Haverá uma geração de crianças constrangidas por essa experiência — ausência de aulas, perda de parentes. Outros tantos terão de conviver com deficiências crônicas ou sequelas do Covid.

pós-pandemia

Crédito: Unsplash

pós-pandemia intensa

Mas talvez — exatamente por isso — o pós-pandemia trará algo semelhante aos loucos anos 20 do século passado. Estaremos mais do que nunca ávidos de eventos e oportunidades sociais. Vamos aglomerar em boates, bares, restaurantes, eventos esportivos, shows e festas. Talvez, haverá uma predisposição sexual renovada (alguns usam mesmo o adjetivo “libertinagem”).  Por fim, um salto de crescimento econômico que atingirá todas as esferas da atividade humana.

Teremos uma energia nova e um intenso gosto pela vida. 

Então, que venham os agitados e loucos anos 20. 


MARGOT CARDOSO é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 18 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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