Por que sofremos tanto com a ansiedade hoje?

  • Diogo Rodriguez

Desde a Antiguidade, médicos e filósofos sabiam que essa condição afligia as pessoas. No mundo atual, vivemos um surto de desordens mentais.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o país mais ansioso do mundo: 9,3% da população tem algum tipo de transtorno desse tipo. Na cidade de São Paulo, um quinto dos habitantes (19,9%) já teve algum diagnóstico relacionado à ansiedade. Parece que a cada dia que passa, ouvimos falar mais e mais a respeito desse assunto. Alguns chegam até a arriscar que vivemos a época mais ansiosa da história humana (embora não haja como provar isso).

Mas será que a ansiedade é novidade e exclusividade do nosso mundo hiperconectado, da “sociedade do cansaço”, como diz o filósofo coreano radicado na Alemanha Byung-Chul Han? Ou será que essa ideia já existia? Antes de responder à pergunta, permitam a mim contar um pouco da minha relação com a ansiedade.

Sou ansioso crônico desde a infância. Desde cedo, tento lidar com o fato de que não sei lidar muito bem com as coisas. Esta categoria inclui muitas coisas, como medo de ficar sem trabalho ou sem dinheiro, de ficar doente, de magoar as pessoas, ser assaltado, me envolver num acidente.. A lista é longa.

Embora sejam medos normais, a diferença é que quem é ansioso sente isso praticamente o tempo todo. Qualquer adversidade pode ser interpretada como sinal de que as coisas estão – de alguma maneira – dando errado. Hoje, sabemos por que isso acontece. Ansiosos têm reações desmesuradas porque sua amígdala (órgão na base do cérebro) é mais ativa que o normal. E, adivinhem, ela é responsável por processar, entre outras coisas, o medo.

Ter ansiedade é normal, trata-se de um estado emocional até necessário. Ela ajudou o ser humano a evoluir, acreditam pesquisadores, porque nos manteve seguros de ameaças com animais e situações perigosas. O problema é quando ela fica fora do controle e a pessoa se sente ameaçada mesmo quando não há nenhum perigo por perto.

Para quem está de fora, pode parecer um exagero, mas quando se entra em um surto desses, é impossível agir racionalmente. O sujeito se vê tomado por um desespero que vai se realimentando e ele não consegue parar o processo. A tentação de amigos, familiares, cônjuges e colegas é dizer: “Calma!”. Mas isso dificilmente adianta.

A ansiedade passou a aparecer com frequência nos diagnósticos psíquicos a partir dos anos 1950, conta o jornalista americano Scott Stossel em seu livro Meus tempos de ansiedade. No entanto, a humanidade já a conhece há muito mais tempo. Hipócrates, médico da Grécia Antiga e considerado um dos fundadores da medicina, disse no século IV a.C. que a ansiedade era um problema que deveria ser tratado pela medicina. Platão, o filósofo clássico, acreditava que estar ansioso e deprimido era um problema filosófico, não biológico.

Os filósofos conhecidos como estóicos já propunham tratamentos para condições mentais como “aflição”, “preocupação” e, claro, ansiedade, como, por exemplo, Cícero (106 a.C – 43 a.C). Ele já era capaz de identificar a ansiedade como uma característica de uma pessoa ou como um estado mental que um indivíduo sentia em um determinado momento. Eu, claro, me encaixo no primeiro caso, de acordo com Cícero.

No século XVII, o acadêmico inglês Richard Burton fez uma revisão da literatura a respeito de desordens mentais desde a Antiguidade até o momento em que vivia. Embora grande parte do seu trabalho, A anatomia da melancolia, tratasse do que chamamos hoje de depressão, Burton também descrevia a ansiedade em seu estudo.

Existe, de fato, um período no qual pouco se falava a respeito da ansiedade (pelo menos no que diz respeito aos registros escritos). A ansiedade era diagnosticada, mas outras palavras eram usadas para descrevê-la.

A ansiedade voltou a aparecer com força durante o século XIX. Não por acaso, foi nessa época que começou a surgir o que conhecemos hoje como psiquiatria moderna. Os termos usados por Sigmund Freud são a base ­– até hoje – para muitos das palavras que usadas para diagnosticar as desordens de hoje. Na primeira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico (conhecido como DSM), publicada em 1952, apresenta a ansiedade como sinal de condições psiconeuróticas. Ao longo dos anos, as novas edições do DSM entraram em mais detalhes a respeito dessa condição. Surgiram os diagnósticos de síndrome do pânico, transtorno de ansiedade generalizada e síndrome de estresse pós-traumático.

O que isso tudo quer dizer? Por que temos a sensação de que o mundo está cada vez mais ansioso? Essa percepção está correta? É difícil dizer. Hoje, temos mais conhecimento a respeito de como desordens mentais afetam nosso corpo. Talvez por isso existam cada vez mais remédios para tratar delas. Ao mesmo tempo, vivemos numa sociedade conectada, na qual a evolução da tecnologia tem mudado diversos aspectos da vida (social, trabalho, comunicação, economia, só para listar alguns) em grande velocidade. Vivemos também os efeitos de uma crise econômica (a de 2008) que continua a afetar milhões de pessoas.

A ansiedade provavelmente existe desde que o ser humano surgiu. É o que a pesquisa científica sugere. Mas talvez estejamos criando um mundo no qual essa característica seja hiperativada, deixando milhões de pessoas doentes. Basta olhar para o seu celular, para o sua SmartTV, a “uberização” do trabalho, a “tinderização” dos relacionamentos.

Para ser sincero, me traz um certo conforto saber que minha ansiedade nada mais é do que um exagero de algo que ajudou nossos antepassados e fez a humanidade chegar até os dias de hoje. No entanto, me assusta saber que esse mesmo mundo é justamente um dos fatores que fazem pessoas como eu viverem permanentemente tensas, preocupadas, angustiadas.

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]

 

 


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COMENTÁRIOS

  • Érica Cruz

    Excelente texto! Obrigada por incluir as referências bibliográficas. Abraços.

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  • Majoo

    Uau…Parabéns pelo texto muito claro,também sou este tipo de pessoa.Fico pior por saber que infelizmente algumas pessoas não vêem como a doença e nos tratamentos como se estivéssemos fazendo papel de vítima.

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