Por que se reunir em grupos de homens?

  • Luiz Eduardo Alcantara | Brotherhood
  • FOTOGRAFIA: Papaioannou Kostas | Unsplash

Os homens precisam se reunir, se juntarem de uma nova forma para aprenderem uns com os outros novas maneiras de se relacionarem e agirem no mundo.

Essa pergunta pode soar óbvia para algumas pessoas. Afinal homens já se reúnem nos bares para se divertir, em estádios para torcer, em salas de reunião ou espaços governamentais para tomar decisões. Além disso, homens vêm se encontrando apenas entre eles há séculos. O que poderia haver de novo em um grupo de homens reunidos? O que acontece hoje é que muitos homens estão interessados em refletir coletivamente sobre como se relacionam consigo mesmos. E também com as pessoas ao seu redor, com a sociedade e todo o ambiente à sua volta.

Eles não veem sentido em seguir o modelo imposto pela masculinidade hegemônica. Onde os homens sustentam uma posição dominante e cumprem os papéis de protetores, procriadores e provedores. Buscam novas referências e espaços onde possam aprender formas diferentes de agir no mundo. Ou se sentem simplesmente perdidos diante das transformações que vêm ocorrendo ao seu redor.

Ressignificar

Esse interesse dos homens surgiu especialmente dos questionamentos e das reivindicações que as mulheres e outros grupos minorizados vêm levantando há tempos. E que, mais recentemente, têm feito com que nós nos movimentemos para acompanhar e sermos parte das transformações sociais do nosso tempo. As mulheres vêm ganhando mais espaço no mercado de trabalho e nos espaços de poder. Elas estão ressignificando sua sexualidade, enfrentando as opressões no âmbito privado. Entre tantas outras mudanças que fazem com que os homens não possam mais se omitir.

grupo de homens

Crédito: Quinten de Graaf | Unsplash

Por isso, eu busquei o Brotherhood e participo desde o primeiro encontro. Os homens precisam se reunir, se juntarem de uma nova forma para aprenderem uns com os outros novas maneiras de se relacionarem e agirem no mundo. É necessário a criação e cultivo de espaços de reflexão, de diálogo e de escuta entre homens. Espaços em que o foco não seja o futebol, corpos de mulheres, cifras das contas bancárias.

Espaços de escuta 

Nesses espaços podemos aprender a escutar. Nossa sociedade dá muito valor à fala, mas é fundamental aprendermos a escutar. Nós homens não fomos incentivados a ouvir com atenção. Pelo contrário, desde pequenos usualmente espera-se de nós que nos coloquemos, façamos nossa voz ser ouvida e nossa opinião acatada. Além disso, muitos não tiveram uma presença afetiva dos pais em suas vidas, gerando uma ausência de comunicação com a figura paterna. Entretanto, se queremos de fato aprender novas formas de expressar nossa masculinidade, precisamos começar a aprender a escutar.

Na minha trajetória, escutei muito de mulheres para tentar ter mais consciência da realidade delas e do que elas passam. No Brotherhood descobri que era possível também escutar outros homens. E que há tantas formas de expressão da masculinidade quanto há homens caminhando sobre a Terra. Usualmente é mais fácil termos empatia por quem é semelhante a nós. Então muitos podem começar escutando e aprendendo sobre a realidade de outros homens. 

Modelos autênticos

Além disso, é desafiador encontrarmos referências de homens em quem podemos nos espelhar para seguirmos no caminho da transformação pessoal. Eu não encontrava  na minha família, nos ambientes de poder, nos meios de comunicação. Faltavam modelos de homens que podiam servir como exemplos. Ao me reunir com outros homens e escutar de forma atenta e curiosa seus relatos autênticos de vida, passei a construir minhas próprias referências de masculinidades. Cada um no grupo serve de referência em algum aspecto. Exemplo de pai, de amigo, de marido, de trabalhador. E fui selecionando as condutas que queria espelhar e abandonar comportamentos que eu não queria seguir reproduzindo.

Eu também fui aprendendo a escutar as várias expressões da masculinidade, reconhecer que há masculinidades (assim mesmo no plural). Fui conhecendo um pouco das diversas experiências dos homens. Sejam eles negros, brancos, indígenas, amarelos, gays, bi, heteros, trans, cis, cristão, ateus, muçulmanos, budistas, idosos, jovens. Isso possibilita perceber que não há apenas uma forma de ser homem. E que nós também não precisamos nos limitar à forma como aprendemos e reproduzimos em nossas vidas.

Novos tipos de relações entre homens

Nesses espaços em que a escuta é valorizada, percebi que é possível criar outras maneiras dos homens se relacionarem. Para que isso aconteça, notei que é importante que, enquanto aprendia a escutar. Também aprendia a falar sobre outros temas a partir de um lugar de vulnerabilidade. Eu descobri que posso expandir o leque de assuntos com outros homens para incluir as dificuldades que enfrento na minha vida. Por exemplo, ouvir sobre os desafios de ser pai, conversar sobre dúvidas nas experiências sexuais. Bem como compreender as dificuldades nos relacionamentos, apoiar nos perrengues financeiros e identificar sentimentos. Isso só é possível em um espaço que acolha essas expressões e incentive a escuta.

grupo de homens

Crédito: Thiago Barletta | Unsplash

Ao nos colocarmos como humanos, vulneráveis, sem tentarmos aparentar que temos o controle de tudo, nós não apenas nos liberamos de nossas amarras. Mas também estabelecemos um campo em que outros homens podem experimentar se abrir e compartilhar experiências que não costumam contar. Assim, notei que é possível me relacionar com homens de uma maneira mais rica, mais profunda. E, claro, mais afetuosa.

O que acontece nessas reuniões

Nessas reuniões, os homens podem reaprender a sentar em roda (presencial ou virtualmente), escutar uns aos outros e falar de peito aberto. No Brotherhood, nós chamamos esses momentos de rodas de partilha, nas quais diversos temas como paternidade, relação com feminino e sexualidade são abordados coletivamente.

É possível fazer ainda mais. Além dos espaços reflexivos de roda, nós nos reconectamos com o ambiente natural. Seja sentando na grama, fazendo fogueira e até mesmo trilhas em bosques e matas. Além disso, também experimentamos a prática coletiva não só de atividades corporais socialmente aceitas para homens. Tais como artes marciais e capoeira, mas também de atividades que hoje ainda são associadas ao feminino, como dança, meditação e yoga.

Eu acredito que a criação de espaços onde homens possam se reunir e refletir sobre seus comportamentos é fundamental para que tenhamos uma sociedade com mais justiça, paz e cuidado com a vida. Que haja cada vez mais espaços assim por todo lado, presenciais ou virtuais, como este aqui em que partilhamos nossas experiências com você.


Luiz Eduardo Alcantara, atua na área da justiça, é um dos guardiões do Brotherhood Brasil e um curioso sobre os papéis dos homens na sociedade


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