Por que queremos filhos obedientes?


  • Thais Basile
  • FOTOGRAFIA: istock

Marshall Rosenberg, o cara incrível que fundou o centro de comunicação não violenta lá nos anos 80, tem uma frase que marcou profundamente a minha maternidade: “por qual motivo você quer que a criança se comporte bem?”. Parece uma questão ingênua ou até irrelevante, mas ela é incrivelmente potente, se olharmos mais de perto.

Somos um país punitivista. Não acreditamos que os erros devem ser reparados, ou que o erro é parte separada da pessoa, mas sim que a pessoa que cometeu o erro, É o erro em si, e por isso precisa ser punida por SER parte desse erro. Eu não me atreveria a falar aqui das razões históricas do porquê isso acontece, mas o fato é que a nossa cultura nos convida a todo momento à vingança. Se a pessoa erra e nos decepciona, ela merece sofrer.

Aí temos dois grandes problemas. O primeiro: se partirmos da premissa de que a pessoa e seu erro são a mesma coisa, estamos afirmando que as pessoas são intrinsecamente ruins, más. O segundo: que erros precisam ser extirpados, evitados a todo custo. O problema dessa premissa é que não existe aprendizado sem erro, principalmente quando estamos falando de CRIANÇAS.

Jogamos a mesma lógica punitivista que rege nosso cotidiano, para a educação das crianças em casa, porque afinal, essa educação não escapa da cultura onde estamos inseridos. A criança, apesar de toda gama de estudos científicos provando o contrário, ainda é considerada um ser manipulador, errado, que precisa a todo momento sofrer para aprender. O fracasso dessa lógica é certo, porque o ser humano é um ser social, intrinsecamente ligado ao grupo, precisa se sentir acolhido, pertencente e importante para que prospere. Não me espanta a quantidade de crianças e adolescentes sem nenhuma conexão amorosa e emocional com seus cuidadores, sofrendo de depressão e outros transtornos, tão cedo.

Quando Marshall me convidou a pensar por qual motivo eu gostaria que minha criança aprendesse a ser boa, colaborativa, responsável e empática, a minha resposta mental foi: “porque ela acha certo ser e agir assim”, mas meu comportamento revelava outro motivo: “porque ela tem medo de ser punida se não agir assim”. Uma contradição enorme, contradição que rege a educação de milhões de crianças não só no Brasil, mas pelo mundo afora. Na ânsia de controlar comportamentos, estamos partindo do motivo errado para ensinar.

A ideia não é criar crianças de uma maneira completamente anárquica, sem orientação, sem guia. A ideia é repensar tudo que nos foi ensinado como certo na educação. Fácil? Nunca. O problema é acharmos natural o que é apenas a norma, ou o “normal”. Meu convite se estende ao convite do Marshall: vamos repensar juntos?

 

Thais Basile é mãe da Lorena, palestrante e consultora em inteligência emocional e educação parental, eterna estudante. Apaixonada por relações humanas e por tudo que a infância tem a ensinar. Compartilha um saber para uma educação mais respeitosa no @educacaoparaapaz. Escreve nesta coluna às segundas-feiras.

 


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COMENTÁRIOS

  • kar.lanfre

    Fiquei pensando nos meus motivos para querer uma filha obediente:
    – para EU não “passar vergonha”;
    – para ELA se “aceita” nos grupos sociais que frequentamos;
    – para EU não precisar “resolver” situações socialmente difíceis, “anormais”.
    E para mim, tudo passou a girar em torno do que é normal – e socialmente aceito, e “anormal” – socialmente repelido, excluído.
    Mas eu trabalho e luto – diariamente – contra o “socialmente aceito”, pelos excluídos e diferentes, ou pelo menos eu achava que era isso que eu fazia… no “piloto automático” do dia-a-dia, reproduzo uma sociedade na qual vivo, mas não concordo em sua grande parte. Que filha estou criando?

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