Por que precisamos ser alfabetizados em futuros?

  • Tiago Belotte

Precisamos ser capazes de olhar para os desafios do presente – mudanças climáticas, pandemia, desigualdade social, racismo – e vislumbrar  futuros. Precisamos enxergar além, com imaginação, criatividade e esperança.

Exatamente de que futuro estamos falando? Poderia você se questionar ao ler o título desta coluna. Mas são futuros, no plural. Como possibilidades. Não é segredo para mim, nem para você ou para qualquer outra pessoa habitante do planeta Terra, que a incerteza se tornou nossa companhia diária. Tem gente que só de pensar em não saber o que será do amanhã, já sente um frio na barriga, uma coceira na cabeça ou uma paralisia tomando conta de todo o corpo. Não é para menos. Nós lutamos, desde o princípio dos tempos, para controlar e produzir alguma estabilidade e segurança na vida. Fizemos escolhas ao longo da história da humanidade para diminuir as aventuras e aumentar a previsibilidade.

Acontece que desde 2001 – especificamente daquele fatídico 11 de setembro – nós temos que lidar, globalmente, com a incerteza e a insegurança num novo patamar. Ataques terroristas, crises financeiras, guerras, revoluções e pandemias — sim, pandemias — tem o poder de chacoalhar planos e fazer pó das nossas certezas. Por outro lado, nosso esforço ao longo dos séculos, desde a história antiga, é para tentar controlar o futuro. Data de três mil anos antes de Cristo o registro histórico de reis da Mesopotâmia que consultavam o futuro nas estrelas e em fígado de ovelhas para obter informações que os auxiliassem a construir seus impérios.

Escrito nas estrelas

Sinceramente, não sei como eles conseguiam ler algo nas vísceras de um animal. Mas sei que de lá para cá — não importam se são oráculos, astrólogos ou gurus de tendências — nós continuamos recorrendo a pessoas que nos ajudem a descortinar o que vem pela frente. Na tentativa de obter algum alento ou tomar posse das rédeas da situação, antes mesmo dela acontecer. Entretanto, quando a Unesco propõe alfabetização de futuros como uma das competências essenciais do século 21, não se trata de desenvolver a habilidade de fazer previsões. Trata-se de aperfeiçoar e construir sobre algo que já possuímos: a capacidade de imaginar futuros. Desde criança fazemos isso, só não damos a importância que deveríamos. Quem nunca sonhou acordado com as próximas férias, com a formatura ou com o que iria ser quando crescer?

alfabetizados em futuros

Alfabetizados em futuros

Se formos alfabetizados em futuros seremos capazes de usá-los no presente. Como quem aprende uma língua desde os elementos básicos, juntando letras, até chegar à condição de falar e escrever de forma fluente. E assim, quando nos tornamos fluentes em futuros adquirimos a capacidade de imaginá-lo e criá-lo no presente, transformando a realidade e caminhando em direção a um cenário possível e desejável. Sonho é destino. E se for um sonho coletivo, o destino será plural e maior que nossas incertezas.

Por isso, quando dizemos que o futuro é incerto, não significa que não somos mais capazes de prevê-lo. Significa que não estamos sendo capazes de imaginá-lo juntos. Sem imaginarmos os futuros que queremos de forma coletiva, como criá-los? É urgente nossa alfabetização nesta nova habilidade. Precisamos olhar para os desafios do presente – como mudanças climáticas, pandemia, desigualdade social, racismo, dentre tantos outros – e ter a capacidade de enxergar além, com imaginação, criatividade e esperança. Futuros melhores não são apenas desejáveis, são também possíveis, desde que estejamos nós, individual e coletivamente, comprometidos em fazê-los acontecer.

Tiago Belotte é fundador e curador de conhecimento no CoolHow – laboratório de educação corporativa que auxilia pessoas e negócios a se conectarem com as novas habilidades da Nova Economia. É também professor de pesquisa e análise de tendências na PUC Minas  e no Uni-BH. Seu Instagram é @tiago_belotte. Escreve nesta coluna semanalmente, aos sábados.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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