Por que os bons praticam o mal?

  • Margot Cardoso

O mal naqueles que amamos, é quase não admitido. Como aceitar que a pessoa que amamos tem um lado cruel e sádico?

Uma das perplexidades humanas é a aceitação do mal. Apesar do acervo sem fim de episódios — de hoje e de sempre — de agressão, ódio, sadismo e crueldade, mostramos sempre a nossa incompreensão. Diante da violência noticiada nos telejornais, apaziguamos a nossa mente com a explicação de que os praticantes desses atos horrendos deve-se ao consumo de drogas ou à doença mental. Testemunhas mostram incredulidade diante do vizinho simpático que é denunciado por manter uma adolescente em cárcere privado. Um psicopata, naturalmente.

Acompanhamos, hoje, o crescente aumento de casos de violência doméstica em todo o mundo — e do número de mulheres assassinadas pelos seus companheiros. A presença de sadismo entre chefias no mercado de trabalho — já está extensamente documentado que cargos de liderança muitas vezes são ocupados por sociopatas. A crueldade infantil mostrada na prática do bullying escolar. Apesar destas, e de todas as outras evidências, seguimos sem aceitar que o mal faz parte do humano.

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Na vida privada, a cegueira continua. O mal naqueles que amamos, é quase não admitido. A primeira fase dos episódios de violência domestica, por exemplo, é sempre de negação. Como aceitar que a pessoa que amamos tem um lado cruel e sádico?

Como enxergar o mal — traduzido em abuso, agressão física e psicológica — estampado no rosto amoroso?

Parte da nossa incompreensão vem da crença de que o mal não é humano. O crime bárbaro, a tortura e a crueldade são praticados por aqueles que atuam fora da sua humanidade. O mal pertence a esfera do sobrenatural, do demoníaco. Não pertence ao humano. E por quê não? Porque humanidade é boa, gregária e amorosa.

Banal e dentro da normalidade

Foi com essa mesma incompreensão que o mundo acompanhou o julgamento de Adolf Eichmann, em 1961. O tenente-coronel da Alemanha nazista, responsável pelo envio de judeus para os campos de extermínios, foi julgado em Israel e condenado a morte.

O seu julgamento foi amplamente documentado pela filósofa judia Hannah Arendt, no livro Eichmann em Jerusalém. O que a filósofa alemã de origem judia destacou do julgamento foi que Eichmann falava de seus atos sem nenhuma consideração pelo outro. O envio de milhões de pessoas para a morte era tratado por ele como um ato industrial, um assunto de logística. Algo que ela classificou como a “banalidade do mal”.

O outro choque era que o réu não tinha um discurso de ódio, ferocidade demoníaca ou o olhar alheado dos doentes mentais. Arendt observou que o homem que não hesitou em mandar para a morte milhares de pessoas, não era o monstro imaginado. E aqui, a faceta do mal que ninguém parece aceitar, Eichman era “um homenzinho comum e insignificante”.

Antes disso, Freud já haviam se debruçado sobre o assunto. Ele e vários estudiosos da época analisaram estarrecidos os horrores da Primeira Guerra Mundial. Não que a Segunda não tenha sido — mas a Primeira pela novidade e pelo contraste com a intelectual, artística e festiva Belle Époque. Freud que até então tinha se dedicado — dentro do terreno das pulsões — a sexual, passou a estudar a agressividade.

Qual a conclusão de Freud? No livro “O Mal-Estar na Civilização”, Freud afirma que por mais que se queira negar, o homem não é um ser frágil e carente de amor que só age para se defender, quando atacado. Pelo contrário, dentre seus instintos herdados, ele conta ainda com uma poderosa tendência para a agressividade.

Assim — reformulou Freud —, o outro não é apenas um objeto sexual ou alguém que o pode ajudar, “é também uma tentação para satisfazer a agressividade, para explorar sua força de trabalho sem qualquer compensação, para o usar sexualmente sem o seu consentimento, para se apropriar dos seus bens, para o humilhar, ferir, martirizar e matar”, escreveu Freud. “Quem terá coragem de contestar essa verdade”, pergunta ele.

Fim da inocência

Encarar o mal que nos habita pode ser indigesto e incômodo, mas é fundamental para sabermos lidar com a agressividade do outro e, principalmente, com a nossa. É preciso lidar com o mal-estar de saber que estamos prontos a sermos cruéis, violentos e sádicos. E isso não é uma condição que se manifesta apenas no crime e nas grandes tragédias. Está em todos os níveis — desde pais abusivos para com os seus filhos até a normalidade cotidiana, como os berros no trânsito.

O que Freud chama de mal-estar é a condição do homem que tem esses impulsos agressivos “calados” pelas regras da civilização. É claro que uns mais do que outros. Alguns tem uma grossa camada de verniz civilizacional, porém, outros, tem apenas uma fina casca, pronta a estalar. Muitas vezes, só esperamos uma oportunidade para termos o álibi da “legítima defesa”. Outras vezes, nos deixamos levar por costumes ou pela cultura que legitimam o mal. Em tempos onde a escravidão era culturalmente aceita, era igualmente aceito a crueldade do senhor sádico contra o seu escravo. Ele podia.

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Cultura à parte, Freud afirma que a nossa agressividade aguarda apenas uma provocação para se manifestar ou vem camuflada, escondida por meios mais moderados. Seja declarado ou velado, a agressão vem a tona, estalando o verniz. É o torcedor que chama com gozo de “macaco” o jogador de futebol. O prazer irresistível da fofoca maledicente. Os haters anônimos que agridem sem ver a quem na internet.

O mal não está na sociedade, como queria Rousseau. Ele está dentro de nós.

Há quem já venha ao mundo com o impulso da agressividade mais acentuado do que outros. Verdade mostrada na crueldade das crianças muito pequenas, nas gangues e no bullying nas escolas. William Golding expôs brilhantemente essa predisposição no livro “O senhor das Moscas” (Prêmio Nobel da literatura em 1983).

Porém, da mesma forma que nascemos dotados da capacidade de odiar, nascemos com a capacidade de amar. Alguns são mais dotados de capacidade de amar do que outros. Alguns sucumbem mais facilmente aos prazeres do ódio e da vingança (sim, há prazer nisso!). Outros tem mais camadas civilizacionais do que outros.

É válido e possível educar para o amor e respeito ao outro.

Sem a educação e a civilização provavelmente seríamos muito mais bárbaros do que somos. Porque o ser humano tem uma capacidade enorme para fazer o mal. Essa é uma das verdades mais trágicas e dolorosas sobre nós. Por isso, todos os esforços para o bem devem ser cultivados. O bem é o que faz com o mal não aconteça. O bem é o único antídoto, a nossa última trincheira.

 

 

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MARGOT CARDOSO é jornalista e pós-graduada em Ética e Mestre em filosofia. Nesta coluna, semanalmente, escreve sobre a arte de viver, sempre à luz dos grandes pensadores.

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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