Por que não estamos apreciando a vida?

  • Tiago Belotte
  • FOTOGRAFIA: Eddy Billard | Unsplash

Com 80 notificações por dia pulando nas telas dos nossos smartphones, somos menos capazes de nos dedicar a outras coisas e nos tornamos mais estressados e infelizes.

Dia desses estava assistindo a uma palestra gravada do já saudoso Contardo Calligaris, escritor e psicanalista italiano que migrou e viveu no Brasil até o fim da sua vida — em março deste ano. O que me chamou atenção na sua fala foi uma afirmação. Ele dizia que somos distraídos demais para sermos hedonistas. Nunca tinha pensado nisso e por isso busquei entender melhor seu ponto de vista.

O hedonismo é uma doutrina filosófica surgida na Grécia nos anos 400 antes de Cristo. Em essência, vê o prazer como bem supremo da vida humana. Apesar dos séculos que decorreram de lá pra cá, a filosofia grega ainda se manifesta através de um estilo de vida dedicado ao prazer. Vemos sua manifestação na cultura popular, com os famosos bon vivants e no cinema com personagens como Ferris Bueller, do filme Curtindo a Vida Adoidado. Aliás, uma das frases clássicas do filme que traduz bem a lógica de busca de prazer como modo de viver é “a vida se move muito rápido, se você não parar e olhar em volta de vez em quando, pode perdê-la”.

“Sim” para apenas uma coisa e “não” para o restante

Curiosamente, é a frase de Ferris que nos ajuda a traduzir a afirmativa do Contardo. Ser hedonista não é simples como parece. Exige dedicação. Você precisa estar com toda sua inteireza naquele momento para usufruir de todo o prazer que ele possa proporcionar. Não há desperdício de nenhuma gota de alegria. E tal nível de dedicação só se consegue quando se diz não para todo o resto e sim apenas para o que se está vivendo naquele momento.

80 notificações

Crédito: Erik Lucatero | Unsplash

Este é o ponto. Para Calligaris ninguém é hedonista com o celular na mão. Quem pode se dedicar intensamente ao prazer do momento enquanto cerca de 80 notificações, em média, por dia apitam no smartphone? Essa é uma estimativa apresentada em estudo da Duke University, que também apontou o quanto essa quantidade de alertas vindas dos dispositivos eletrônicos contribuem para sermos mais estressados e infelizes.

A arte como exercício de apreciação

Anos atrás, fiz uma visita ao Inhotim – maior museu a céu aberto de arte contemporânea do mundo e que fica em Brumadinho-MG – com um grupo de estudos guiado pelo professor e pesquisador Charles Watson. Já tinha ido ao museu várias vezes, mas foi a primeira que fui conduzido de forma a apreciar as obras. A primeira orientação de Charles, em português de acento britânico foi: deixem de lado esses seus telefones. A segunda era para que mergulhássemos no ambiente em que estávamos, com intensidade e intenção. Vivendo a experiência com toda a atenção que pudéssemos. Era esse nível de dedicação que nos levaria a receber estímulos e perceber sensações de forma mais ampla.

Dois anos atrás, estava em uma conferência de criatividade e inovação no Canadá e um dos espaços mais disputados do evento era uma experiência de contemplação. Uma sala silenciosa, com fones de ouvido para isolar quaisquer ruídos, bancos e uma obra de arte. As pessoas passavam um tempo ali contemplando a tela e depois precisavam dizer o que haviam notado. Era impressionante a riqueza das observações, como se a obra tivesse se tornado maior e mais rica. Mas não era ela que tinha se modificado, era a forma como as pessoas se dedicavam a ela e a apreciaram.

O que nos importa mais?

Sabendo que apreço é a importância que atribuímos a algo, entendemos que Contardo nos alertava para o quanto o smartphone se tornou mais importante para nós do que todo o resto, a ponto de nos privar das experiências e sensações que o mundo nos oferece a cada instante. Na evolução humana, nossos dedos ganharam “gordinhos” nas pontas para aumentar nossa sensibilidade ao toque e à interação com o mundo, não para passarem o dia apenas tocando telas frias.

De toda essa reflexão, o que ficou para mim não foi um convite a uma busca pelo prazer e sim a busca pela apreciação. Uma vontade de apreciar a vida adoidado, silenciando sempre que possível todas as notificações. 


Tiago Belote é fundador e curador de conhecimento no CoolHow – laboratório de educação corporativa que auxilia pessoas e negócios a se conectarem com as novas habilidades da Nova Economia. É também professor de pesquisa e análise de tendências na PUC Minas  e no Uni-BH. Escreve nesta coluna semanalmente, aos sábados.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples


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