Por que homens escondem a depressão?

  • Diogo Rodriguez

É preciso mostrar aos homens que não há uma jeito certo de fazer as coisas. Meninos deveriam aprender desde cedo a reconhecer, aceitar e lidar com suas emoções.

 

Desde pequeno, era claro para todos que eu tinha uma sensibilidade acima do comum. Não custava muito para que eu me chateasse com algo. Conforme fui crescendo, essa característica não mudou. Continuei sensível, mas aprendi a esconder meus sentimentos. Na infância era razoavelmente aceitável chorar; mas ouvi minha parcela de “menino não chora” ou “homem não chora”. A doutrinação para que homens não mostrem seus sentimentos começa cedo e vem de todos os lugares. Sempre acompanhado, claro, de uma boa dose de machismo e de homofobia.

Quem não consegue simplesmente reprimir o que sente ganha diversos rótulos ofensivos. Não vou reproduzi-los aqui, me deem essa licença. Vemo-nos com duas opções: engolir em seco e entrar na lógica de “como um homem deve ser” ou evitar os ambientes ditos “normais” e procurar nosso lugar onde a tolerância seja maior. A última opção, não raro, acaba em isolamento.

Nos dois casos, há a solidão: os homens “normais” enterram o que realmente sentem e na maioria das vezes ficam apenas na superfície não apenas com seus amigos, mas com as próprias companheiras e famílias. Quem não consegue, entrar nesse esquema tem dificuldades de encontrar espaço em que expressar emoções seja aceitável.

Estou simplificando, é claro. Entre esses dois extremos há nuances e outros modos de encarar a questão. Mas a dificuldade que os homens têm em lidar com o sentimentos não é apenas uma impressão. É um fato mensurado.

Doença é sinal de fraqueza para homens?

Uma pesquisa feita pelo IBOPE Conecta em 2019 mostrou que os homens são mais desinformados a respeito da depressão do que as mulheres. Um terço deles (30%) afirmou que o transtorno é causado por uma “falta de fé”, contra 17% das mulheres. Quase a mesma porcentagem (35%), acredita que para superar a depressão basta ter uma “atitude positiva”, contra 26% das mulheres. Para 17% deles, a doença é sinal de “fraqueza” ou “falta de força de vontade” (10% delas acredita nisso).

Os números mostram o que os profissionais da saúde já sabem há muito tempo. Homens são menos propensos a cuidar da saúde, de uma maneira geral. A saúde mental não é exceção. No Canadá, por exemplo, uma campanha anual na Universidade Western procura conscientizar os homens de “tudo bem não estar bem”. A intenção é incentiva-los a procurar ajuda e a encarar transtornos de saúde mental como algo de que não se deve ter vergonha.

Homens têm sintomas diferentes

Há quem diga, até, que os homens sentem a depressão de uma maneira diferente. A Clínica Mayo, uma instituição muito respeitada nos EUA, afirma que é possível que os homens mostrem sintomas distintos dos considerados “clássicos”: comportamento escapista (passar muito tempo trabalhando ou praticando esportes), sintomas físicos como dor de cabeça, abuso de drogas ou álcool, comportamento violento, irritabilidade e comportamentos arriscado, como dirigir alcoolizado.

Além de preocupante, essa lista é interessante. Nela estão alguns dos comportamentos comuns que um homem “deve ter”. Eu, particularmente, percebi que a bebida é um mecanismo bastante eficaz para mascarar sentimentos. E confesso que há alguns anos procurei refúgio no álcool quando não sabia muito bem o que fazer com o que eu sentia. Outro escape foi o cigarro. Fumei durante dez anos. Sempre que a ansiedade vinha forte, o cigarro a encobria com uma fugidia sensação de prazer. Mas era uma armadilha. A cada novo cigarro, eu ficava mais viciado e mais ansioso. Consegui parar.

Homem deve ser de algum jeito?

homens e a depressão

As pesquisas na área da psicologia mostram que, de fato, homens de todas as idades e de diversas origens procuram menos ajuda que as mulheres não só para tratar de depressão, mas também de vício em drogas e álcool e a lidar com eventos estressantes. Dentre os motivos para que isso aconteça estão, bingo, a imagem de como um homem deve ser e as normas sociais que regulam isso.

O que pode ser feito para mudar isso? Alguns testes mudam a terminologia para não afastar os homens. Em vez de “terapia”, “consultas”. Outra estratégia é usar a abordagem do desenvolvimento de habilidades, no lugar de falar sobre o tratamento da depressão. Embora seja tentativas importantes, na minha opinião é mais importante que haja espaço para outras masculinidades.

É preciso mostrar aos homens que não há uma jeito certo de fazer as coisas. Meninos deveriam aprender desde cedo a reconhecer, aceitar e lidar com suas emoções. Não se trata apenas de permitir a eles que sejam mais sensíveis, mas de lidar com um problema real: homens cometem mais suicídio que as mulheres. Essa é a maior causa de morte no Brasil, à frente de HIV e diversos tipos de câncer.

Números de suicídios do público masculino

Nos últimos anos, o número de suicídios aumentou em nosso país, especialmente entre os mais jovens. Na faixa etária entre 10 e 19 anos, a taxa foi 24% maior. Jovens do sexo masculino morrem três vezes mais.

Eu, um homem razoavelmente esclarecido, tive muitas dificuldades para reconhecer, aceitar e procurar ajuda quando me vi acometido por transtornos de saúde mental. Fico imaginando quantos outros não estão sofrendo secretamente (ou inconscientemente). Quer dizer a vocês, meus companheiros, que não tem problema nenhum precisar de ajuda.

Nós temos o direito de sofrer e de viver esse sofrimento. Vocês não precisam ter medo de suas fragilidades porque todos os seres humanos as têm. Sei o quanto é difícil pedir ajuda. Mas, por favor, peçam. Sempre há alguém em que vocês podem confiar. Não há necessidade de provar nada a ninguém.

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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