Por que homem não pode chorar?

  • Diogo Rodriguez

Hoje temos a possibilidade e a necessidade de construir novas masculinidades. Ou então de não depender tanto desse tipo de construção para encontrar sentido no mundo

 

Nesta semana foi ao ar a minha participação no podcast Esquizofrenoias, da Amanda Ramalho. Falei com ela, principalmente, sobre a dificuldade que os homens têm de aceitar e entender a depressão. O papo foi inspirado por uma coluna que escrevi aqui, que tratava do mesmo tema.

Fiquei muito satisfeito com o convite por dois motivos principais. Em primeiro lugar, pude participar de um dos veículos de comunicação que mais têm feito pela saúde mental nos últimos tempos. Até escrevi um texto sobre esse assunto, refletindo a respeito da necessidade de o jornalismo ser mais acessível e humano. Segundo, tive oportunidade de refletir um pouco mais sobre a relação entre a masculinidade e a saúde.

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Nessa conversa durante o podcast, falamos bastante sobre expectavas sociais e o que se espera dos homens. Ser frágil é proibido no mundo masculino padrão, uma vez que o ideal é ser forte, assertivo, dominante, viril. Qualquer desvio coloca os indivíduos em categorias inferiores, faz deles homens piores e incompletos. Isso é um problema sério. Seres humanos são frágeis por definição, tanto física quanto mentalmente. Negar essa possibilidade a qualquer pessoa é tolher algo essencialmente humano, que faz parte da nossa natureza.

Entendo que, no contexto social, os homens são privilegiados e opressores. Especialmente quando são brancos, heterossexuais e ricos, meu caso. Também creio que parte do trabalho de criar uma sociedade menos injusta é ensinar aos homens seus limites e conscientizá-los de sua posição favorável.

Que posição superior?

Essas estruturas sociais que colocam os homens numa posição falsamente superior são as mesmas que aprisionam os que sofrem com algum distúrbio em sua saúde mental. Dentro dessa “hierarquia” masculina, quem demonstra fraqueza ou se recusa a participar dos rituais, como falar sobre futebol, carros, comentar os corpos das mulheres de maneira desrespeitosa, etc, é deixado de lado. Infelizmente, a sociabilidade masculina padrão pode levar algumas pessoas à solidão e agravar problemas de saúde mental. O desespero para se encaixar gera desconfortos profundos e uma enorme confusão a respeito da própria identidade.

Não posso afirmar que existem correlações provadas entre os dados conhecidos e esse cenário social, mas o fato de que os homens são mais desinformados a respeito da saúde mental e que são maioria no número de suicídios deveria causar um alerta geral.

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De novo: creio entender relativamente bem quais são os meus privilégios e não me julgo vítima. Faço parte de um sistema social injusto, o qual infelizmente reforcei em diversos momentos da minha vida sem ter consciência do que estava fazendo. Ser diagnosticado com depressão e ansiedade foi um baque, mas também me deu um novo olhar a respeito do que afeta a saúde mental.

Culpar a nós mesmos

Temos uma forte tendência a culpar a nós mesmos por tudo o que nos acontece. Embora tenhamos agência para agir livremente e devamos ser responsabilizados pelas coisas boas e ruins que fazemos, não podemos nos esquecer que nada acontece num vácuo. Regras não-oficiais podem fazer sentir seus efeitos de maneira tão dramática quanto as leis. Por isso é tão difícil buscar a libertação das convenções.

Como eu disse na conversa com a Amanda Ramalho, hoje temos a possibilidade e a necessidade de construir novas masculinidades. Ou então de não depender tanto desse tipo de construção para encontrar sentido no mundo. Por que é tão importante poder definir o que as pessoas são? Isso nos traz algum tipo de segurança? Duvido.

Por que homem não pode chorar? Por que homem não pode ser sensível? E por que o sentimento dos homens precisa estar sempre envernizado?

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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