Por que guardar as palavras?

  • Lu Gastal
  • FOTOGRAFIA: Shurkin Son | Istock

Devemos falar tudo o que julgamos necessário ao nosso bem-estar. Guardar palavras nos engasgam e quando nos livramos delas, elas podem perder a razão. 

Ensaiava alguns parágrafos desta coluna com o tema “a arte de escutar”. Atenta aos movimentos contemporâneos do “sincericídio” desenfreado, onde a maioria quer falar o que lhe vier à mente, sem se dispor a escutar a opinião do outro. Dessa forma, ao observar atentamente os benefícios da escuta (a quem ouve e a quem fala), apuro que minhas palavras estão envoltas numa dificuldade da qual pretendo me libertar.

Sinto dificuldade em falar! Sim, com a consciência de que esse é um conflito absolutamente pessoal travado por mim mesma diante situações que me demandam atenção e desprendimento emocional. No entanto, confesso que esse é um boicote explícito que habita minhas relações. De personalidade intensamente emotiva, diante de assuntos pessoais simplesmente me calo, em total dificuldade de proferir minhas sentenças finais. Assim, em 99% das vezes as lágrimas se sobrepõem ao desenrolar da frase. E quase tudo acaba ali mesmo, com muito choro e sem palavras claras.

Sou daquelas que chora o que precisar ou sentir vontade na fila da padaria, na mesa do restaurante, no meio da rua, se for o caso. Não tem hora nem local, as palavras engasgadas se transformam num córrego (às vezes rio) de lágrimas.

As coisas não ditas

Neste instante, ao pensar que engolir palavras é um hábito que me acompanha  nas mais diversas fases da vida, me questiono: por  que guardar as palavras? Por que omitir minha opinião em situações que me são fundamentais? Quais medos ou dificuldades envolvem essa crença limitante?

Palavras

Crédito: Matteo Raw | Unsplash

Em resumo e traçando um contraponto nessa melodia tão pessoal, visualizo que as palavras escritas fluem levemente de dentro de mim. Assim,  sei que através delas já joguei para o universo muitas cartas e bilhetes. Hoje penso o quanto tantas palavras poderiam ter sido mais assertivas se acompanhadas de voz. Entretanto, entregá-las escritas foi a maneira como consegui (e está tudo bem). Na escrita consigo traduzir minhas sensações, deduzindo que quem lê poderá as imaginar, mas… poderá também interpretar o “dito” ao seu livre entendimento. O que é notadamente um perigo!

Guardar palavras

Veja você, querido leitor, acostumada a discorrer por aqui sobre os mais diversos temas, entendo (finalmente) que palavras que importam ao nosso desenvolvimento não precisam ser guardadas! Palavras devem ter sido inventadas para serem proferidas pelas nossas bocas como tradução do que sentimos. Guardá-las, imaginando que o receptor pode adivinhar o recado do interlocutor é um boicote pessoal.

Entenda, não estou incitando a fala exacerbada de tudo o que nos vier à mente, apenas convido você à reflexão: seus recados têm sido dados com clareza de sinais?

Assim, aqui assumo um compromisso real, a partir dessas palavras escritas me comprometo a — pelo menos — tentar falar tudo o que julgar necessário ao meu bem-estar físico e emocional. Isto porque palavras engasgadas se acumulam com riscos de perderem a razão quando vomitadas. Enquanto que palavras proferidas nos tempos certos fluem levemente, independendo do seu teor.

Pense nisso com carinho, e se quiser conversar, estou aqui!

Beijos meus!


LU GASTAL trocou o mundo das formalidades pelo das manualidades. Advogada por formação, artesã por convicção. É autora do livro Relicário de Afetos (Editora Satolep Press) e participa de palestras por todos os cantos. Desde que escolheu tecer seus sonhos e compartilhar suas ideias criativas, não parou mais de colorir o mundo ao seu redor.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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