Por que é tão difícil ficar em casa?

  • Margot Cardoso

O conforto, o silêncio habitado, o sentimento de partilha, o abrigo… tudo isso está dentro da sua casa

 

A experiência da quarentena é única e será um marco na nossa memória. Ouve-se que Paris, a Cidade Luz, mergulhou nas trevas; que os EUA descobriram que não dá para comer e respirar dinheiro; que Roma, a Cidade Eterna, parece que encontrou o seu fim. Fala-se que a natureza — rios, mares e vida selvagem — aproveita a intervalo e se cura. O único que não mudou foi o homem, permanece igual, oscilando entre a solidariedade e o egoísmo.

Apesar do caos de opiniões, estou determinada a fazer a minha parte. Mas estou no meu 19º dia de isolamento, é sábado à noite e resolvi sair. Cuidadosamente escolho uma roupa, visto a minha melhor cashmere, experimento sapatos  —  um scarpin? A tarefa é demorada, mas eis que finalmente estou pronta para levar duas garrafas ao ecoponto. E foi com decepção que, depois de 10 passos, avistei o meu destino: o ponto de reciclagem para vidro fica no mesmo quarteirão da minha casa.

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É verdade. Senti-me um pouco insana nesse exercício, mas consolo-me sabendo que não estou sozinha. Há cães exaustos de passear os seus donos. Há os inconsequentes que pensam em adotar um cão e, outros, determinados a passear qualquer animal, inclusive um de pelúcia. E há aqueles que fizeram da ida ao supermercado uma rotina diária…

O exemplo feliz

Mas por que é tão difícil ficar em casa? Qual é o interesse em percorrer ruas sem sentido e sem destino? Qual é a vantagem de encontrar um desconhecido que te olha com suspeita e afasta-se dois metros como se você estivesse lepra? E por que sair quando a internet traz o mundo inteiro para dentro da sua casa? Exatamente. Esse é outro problema. O engenho humano nunca me surpreendeu tanto como nesses tempos de quarentena. O mundo virtual abriu espaço para tarefas e entretenimento além da minha imaginação. Ligo o computador e vejo passar diante dos meus olhos sugestões e convites para as maiores bizarrices. Ok. Nem tudo é mau. Mas para quem tenta trabalhar de casa, é um pesadelo. O excesso de propostas de atividade e diversão em casa é asfixiante e faz com que você deseje mesmo evadir-se.

Apelo aos sentidos

Penso que ajudava se olhássemos para a nossa casa com filtros novos, através da experiência de outros povos. Desde que a Dinamarca ganhou o título de “país mais feliz do mundo”, o seu estilo de vida, o Hygge (em dinamarquês, soa como “huga”) está sob escrutínio. O termo não tem uma tradução direta para a língua portuguesa, é um conceito vago, associado ao cultivo dos sentidos. É saborear o chá que reconforta, sentir prazer na própria companhia, ler um livro, cultivar o silêncio (mas o silêncio que nos permite ouvir o som da chuva ou o ruído das árvores lá fora), sentir o aroma que descansa como o cheiro de lençóis limpos…. É sobre gastar tempo e energia com a experiência consciente dos nossos cinco sentidos.

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E aqui uma revelação: o espaço onde tudo isso acontece é, majoritariamente, em casa. Para quem se interessou, friso que esse é apenas um pequeno excerto. O Hygge vai além de exercícios sensoriais, é uma postura interior. É viver a vida sem demasiadas cobranças, sem a pressão de ser produtivo, é cultivar o prazer pelo prazer. Essa quase filosofia de vida viking pode ser muito útil em tempos onde mais do que recolhimento em casa, precisamos encontrar a nossa paz interior.

O amor doméstico revigora

Entre o perigo lá fora e o anárquico excesso de informação, podemos encarar a nossa casa como um refúgio, um abrigo para tempos difíceis. É exatamente esse estado que precisamos resgatar e interiorizar. No passado,  a casa era um espaço — caverna ou cabana — abrigado dos perigos, das intempéries e dos inimigos. Mais tarde, era o local onde se podia repousar e, finalmente dormir, depois de um dia intenso de trabalho. Tempos mais recentes, na visão romântica da vida idealizada, a casa era parte física da organização e harmonia familiar. A mulher cuidava da casa e da educação dos filhos e, o homem, trazia o pão. No final do dia, o homem era recompensado. Chegava ao seu harmonioso lar, descansava, era cuidado pela esposa, acarinhado pelos filhos e desfrutava do aconchego familiar e dos aromas que vinham da cozinha. A doçura doméstica compensava-o e revigorava-o para a jornada do dia seguinte.

Uma cabana na beira do rio

Hoje, o doce refúgio foi perdido. Homem e mulher trabalham fora, as crianças estão na escola e acumulam atividades. O final do dia é ocupado por funções partilhadas e igualmente cansativas: preparar o jantar, lições de casa e a logística para o dia seguinte. Hoje, perdeu-se um pouco o culto ao lar e o estar em casa é sinônimo de desemprego ou doença, um cenário onde os conflitos ocupam o primeiro plano, amargando a experiência do lar. Porém, os ventos de mudança estão soprando e nota-se aqui e ali um lento — mas progressivo — regresso à casa. Talvez alguém esteja tentado a dizer que essa é mais uma mensagem trazida pelo vírus, não é. O impulso de voltar para casa faz parte da essência do homem e está com ele desde o início dos tempos. Afinal não é esse o tema central da Odisseia, de Homero?

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Registrada em escrita no século VI a.C, em grego, e traduzida para o latim no século III a.C,  a obra narra a saga do rei da ilha de Ítaca  — Odisseu, em grego, e Ulisses, em latim — que tenta voltar para casa, para os braços da esposa Penélope e do filho Telêmaco. A grandiosidade dessa narrativa — ponto zero da literatura ocidental — e a sua permanência até os dias de hoje é porque ela continua atual. A Odisséia mostra que não é para onde se vai, quais são os desafios e de quanto tempo será a viagem.

Em casa, sãos e salvos

O fundamento verdadeiro — o que realmente importa — é ter um lugar para onde se possa voltar. Podemos nos aventurar em perigos e armadilhas de viagens longínquas; ensaiar chegadas e partidas em ilhas desconhecidas, caminhar em terras inóspitas (às vezes por dentro de nós). Porém, o anseio maior — o que dá sentido à vida — é o regresso, é o desejo de voltar e abraçar aqueles que amamos. E assim será. Em breve estaremos todos em casa, sãos e salvos, na nossa amada Ítaca.

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

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