Por favor, deixa-me sentir!

  • Margot Cardoso

Quanto mais experiente de encontros — tristes ou alegres — mais aumentamos a compreensão sobre nós e o mundo. Acolha todos os encontros e aprenda com eles.

 

Vi recentemente um filme que mostrava o sofrimento de um pai após o funeral do filho. Um amigo — após breves palavras de consolo — questionou se ele queria um calmante, o que foi recusado. De uma tia, mais palavras de consolo e a sugestão para um calmante. Na terceira oferta de um paliativo, o homem implorou: “por favor, deixem-me sentir”. O mesmo tratamento é dirigido a tristeza, a ansiedade, a inveja, o medo… Todos os que estão a nossa volta — amigos, família  — procuram erguer uma barricada protetora contra os sentimentos considerados “não bons”. Para quê sofrer quando você pode evadir-se com anestésicos, refugiar-se em distrações ou “mudar-se” para mundos virtuais . Em tempos de ditadura da felicidade e medicalização da vida, todos os sentimentos considerados negativos são banidos.

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Mas estaremos no caminho certo? O tratado mais completo sobre os estados experimentados pelo homem foi feito por Baruch Spinoza. Filho de judeus portugueses imigrados para a Holanda, o filósofo afirma que nascemos com uma potência para viver, o conatus. E ao longo de toda a vida, essa potência aumenta e diminui de acordo com o que experimentamos.

Afetos

Esses acontecimentos são traduzidos e assimilados por nós como afetos. Você encontra um amigo querido na rua? Alegria. Aumento de potência de viver. Toma um sorvete numa tarde de verão? Prazer. Aumento da potência de viver. Restaurante favorito fechado? Decepção. Diminuição da potência de viver… E os afetos não são apenas aquilo que vem de fora, do mundo físico, vem também de conteúdos gerados pela sua mente. Você pensa no futuro e sente temor? Diminuição do conatus. Recorda uma boa lembrança e se alegra? Aumento do conatus. São afetos que não existem no mundo físico, mas que modificam a sua potência de viver. Somos afetados por coisas ou pessoas que encontramos no mundo e também somos afetados por conteúdos que passam pela nossa cabeça.

Potência que oscila

Podemos contemplar claramente os movimentos do nosso conatus. Há dias que acordamos com uma espécie de bônus da vida, 70 numa escala de 100, com energia, potência máxima; porém, no fim do dia, depois de pauladas e contratempos, o conatus desce para 30. Também ocorre o oposto. Acordamos letárgicos — escala em 30 — Depois de um banho e uma xícara de café vai para 60. E o nosso dia é assim, a escala desce e sobe. A nossa potencia aumenta ou diminui de acordo com o que encontramos pelo caminho. E esse aumentar e diminuir também podem ser simplificados para alegria e tristeza. A partir desses dois afetos primários, nascem todos os outros. Um exemplo: o que é amor? É a alegria acompanhada de uma causa exterior — aumento de potência. O que é o ódio? Uma tristeza acompanhada de uma causa exterior — diminuição de potência.

E óbvio, os bons encontros aumentam a nossa potencia de ser e agir no mundo, por isso, lutamos por eles. Há algo mais sublime do que um encontro feliz? O abraço terno de um amigo, a água quando temos sede, o contato com o outro corpo amado, a música que se funde a nossa alma, o cheiro que ativa boas memórias … Quem não se sente poderoso após o encontro com esses afetos?

As forças contrárias

Na linha oposta: os encontros tristes. São eles os responsáveis pela sensação de derrota e aflição. O conatus diminui, a nossa força de existir e agir desaparece. Perdemos a consciência de nós mesmos. Fugimos do nosso próprio corpo. Os encontros tristes tem uma lista infinita — vão desde o encontro com pessoas de mal com a vida até a ingestão de uma comida estragada.  Qual é a nossa expectativa? Eliminá-los, claro! Queremos só os encontros que elevam a vida. Desde que abrimos os olhos, perseguimos com sofreguidão tudo o que aumenta a nossa potencia. Conseguimos? Não. A vida é cheia de encontros tristes. Aliás, matematicamente, a vida tem muito mais elementos que diminuem a potencia de viver do que os que aumentam.

Pense como os prazeres são rápidos e fugazes e pense quanto tempo dura uma enxaqueca. Ao fim do dia, conte quantas pessoas desagradáveis você travou contato e quantas te encantou. A discrepância é tal que Schopenhauer — o metafísico do pessimismo, mas um otimista prático — aconselha para o balanço da vida, as dores que foram evitadas e não os prazeres obtidos. É muito mais sábio agir para evitar a dor do que para obter prazer. A dor é intensa e duradoura, o prazer, um alento transitório.

Não tente!

Alguns gurus da autoajuda ensinam a escapar do sobe e desce do conatus. Eles sugerem que você faça uma lista e foque-se só no que aumenta a sua potência. Não perca seu tempo. Certamente você será vencido pela capacidade criativa do mundo — e pela sua própria. Afinal, você já se deu conta de que repetiu uma experiência maravilhosa e não foi a mesma coisa. O que alegra hoje pode não alegrar amanhã. É melhor ficar com a proposta de Schopenhauer.

Porém, convém não perder de vista que nem tudo corre mal quando o nosso elã vital diminui. E aqui voltamos a grande beleza da filosofia de Spinoza: quanto mais afetos você vivencia, mais aumenta a sua capacidade para sentir; mais capacidade para sentir, maior também o seu repertório para pensar e agir — para viver. Portanto, se são inevitáveis, o melhor mesmo é vivê-los integralmente. Não fugir, nem mascarar. Encare que toda a moeda tem dois lados, aprecie todos os mil e um tons do cinza e, principalmente, não aceite um centímetro do politicamente correto. Para além do aprendizado que eles trazem, eles mostram com clareza o que queremos e o que não queremos.

Tenho medo!

Vamos a eles. E quais são esses afetos que diminuem o nosso conatus? Vários. Podemos começar com um velho conhecido, o medo. Aqui um refinamento da filosofia que merece a sua atenção: o medo vem do mundo externo — daquilo que se apresenta a você e o temor é um conteúdo imaginado, existe apenas na sua cabeça. Seja um ou seja outro — real ou imaginado — ambos são inibidores da potência de viver.

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Os encontros tristes são parte do kit de viver, não há como fugir deles, mas eles podem ser vivenciados com lucidez. Podem deixar sequelas más? Podem, mas também deixam-nos mais fortes e aumentam a nossa capacidade de voo. Ou traduzindo na sabedoria popular “só aprecia devidamente o doce, quem experimentou o amargo”. E não é só. Os medos e os temores carregam muitas outras lições implícitas. Eles realçam com luzes de néon o que se eleva sobre nós e mostra com clareza o que pode e o que não pode ser alcançado. E, por fim, atua como pano de fundo para a coragem. A pergunta é: será que procuraríamos ser corajosos se não tivéssemos medo?

Ai, que raiva!

A raiva — e suas variantes como ira e ódio­ — é muito malvista. É associada a destruição e condenada socialmente. Darwin afirma que a raiva faz parte do nosso mecanismo de defesa, está ligado aos nossos instintos. Portanto, é humana. O que é preciso é vivê-la com autocontrole e discernimento.

Dá próxima vez que você ferver de raiva, não engula e nem disfarce. Pare e analise. De onde ela veio e por quê? É legitima? Um ponto importante: há pessoas que não sabem discordar sem raiva. Nesse tipo de uso, a raiva é nociva e desnecessária. Você pode discordar de alguém sem a ajuda da raiva. Mas, se sua raiva for justa, fique com ela e aproveite a reflexão que ela traz para melhorar. O filósofo alemão Peter Sloterdijk, na obra Ira e Tempo, afirma que o outro reverso da raiva é o sentido heroico, de justiça. A raiva quando funciona como motor para a luta justa é muito bem-vinda.

Invejei, e agora? Culpo-me?

Até da inveja e da culpa podem surgir grandes aprendizados. Cobiçar as qualidades de outro é a gênese da inveja, mas também é a gênese das mudanças. O outro serve como um espelho para mostrar o que queremos para nós. A inveja também faz oposição ao contentamento e exibe com profundidade o que nos faz falta. A culpa — junto com a sua faceta social, a vergonha — ilumina o chão das nossas potencialidades. E só para voltar ao início da história, o sofrimento do luto ajuda a assimilar e integrar uma condição comum a todo aquele que vive: a certeza da morte.

Quanto mais experiente de encontros — tristes ou alegres — mais aumentamos a compreensão sobre nós e o mundo. Acolha todos os encontros e aprenda com eles. Olhe-se no espelho e assuma todas as suas facetas: fiel ao antigo e apaixonado pelo novo; imerso em águas profundas e com os pés fincados em terra firme; um pedaço sombrio e outro luminoso… Caminhe pela vida assim, de peito aberto e carregando tudo o que você é.

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.


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