Pobreza tem impacto direto na saúde mental

  • Diogo Rodriguez

Transtornos mentais não são frutos apenas de desequilíbrios químicos e fatores biológicos. O contexto social e econômico em que vivemos tem uma grande influência em nossa saúde mental.

Desde 2011, trabalho de maneira autônoma. Já contei aqui que sou jornalista freelancer; há alguns meses, estou me dedicando ao meu próprio negócio depois de fazer um curso de empreendedorismo nos Estados Unidos. Faz muito tempo que não tenho emprego fixo.

Tenho uma forte suspeita de que foi durante esse período que comecei a “desenvolver” ansiedade generalizada e depressão. Antes, eu recebia um salário fixo e sabia o quanto podia gastar no final do mês. Quando me tornei autônomo, tive de passar a conviver com a incerteza financeira.

É impossível saber o quanto você vai ganhar a cada mês. Isso teve várias consequências para mim. Com medo de não ganhar o suficiente, comecei a procurar por trabalhos desesperadamente. Aceitava o que aparecesse, não importava a dificuldade da tarefa. Assim, fui me enchendo de coisas a fazer e prazos a cumprir. Para conseguir dar conta de tudo, passei a trabalhar dez, às vezes 12 horas por dia. Nem os finais de semana escapavam mais porque sempre havia algo a ser feito.

Obviamente que o nível de ansiedade foi ao extremo e atrapalhou o resto de minha vida. Dormia menos, comia mal, pouco me divertia, estava sempre pensando em trabalho e na necessidade de ganhar dinheiro. Aos poucos, fui me desgastando e perdendo a capacidade de prestar atenção aos detalhes.

A ameaça da falta de dinheiro

Tanta pressão interna e externa fez a qualidade do meu trabalho cair. Perdi prazos, entreguei trabalhos de qualidade ruim. O resultado foi que pessoas que antes confiavam em mim pararam de me chamar para trabalhar. A ansiedade por ter trabalho e ganhar dinheiro teve o efeito oposto. Não muito tempo depois de perceber isso, resolvi procurar tratamento.

Por que estou falando disso? Bom, porque, como eu disse na coluna da semana passada, transtornos mentais não são frutos apenas de desequilíbrios químicos e fatores biológicos. O contexto social e econômico em que vivemos tem uma grande influência. Hoje, diversas pesquisas conseguem mensurar o efeito que a insegurança econômica causa em nós.

Distorção da perspectiva de vida

Faz todo sentido, não é? A ameaça da falta de dinheiro distorce nossa perspectiva de vida, colocando-nos numa espiral de incertezas. “Será que vou ter dinheiro para pagar as contas? Será que vou conseguir trabalho?” Isso tem um custo alto para a saúde mental.

A pesquisadora canadense Evelyn Forget conseguiu medir o impacto que as finanças têm na saúde mental. Professora da Universidade de Toronto, em 2011 ela publicou um artigo chamado “A cidade sem pobreza: os efeitos de saúde de um experimento canadense de renda anual garantida” (tradução minha). De 1974 a 1979, uma cidade da província de Manitoba, no Canadá, foi palco de uma experiência. O governo deu a todos os habitantes da cidade de Dauphin uma renda mínima anual. Para cada dólar canadense que cada cidadão ganhava, o governo dava um adicional de 50 centavos.

saúde mental

Concluído há mais de 40 anos, o experimento só teve seus resultados revelados em 2011, por Evelyn Forget. Os dados ficaram esquecidos e nunca foram analisados. A pesquisadora se surpreendeu com o que encontrou. De uma maneira geral, a saúde dos habitantes de Dauphin melhorou. Está incluída aí, é claro, a saúde mental. Sem a pressão de ter que lutar pela mínima sobrevivência, as pessoas passaram a viver melhor, mostrou Forget.

Para entender melhor o que podemos aprender com essa experiência, conversei com Evelyn Forget por e-mail.

Entrevista sobre a pobreza ter impacto direto na saúde mental

Que efeitos uma renda básica tem sobre a saúde mental das pessoas?

Existe uma correlação muito, muito forte entre problemas de saúde mental e pobreza. Tendemos a medicar a pobreza em países de alta renda, em vez de abordar as causas fundamentais do sofrimento. A pobreza coloca as pessoas em posições nas quais gastam todo seu tempo e energia mental lidando com as demandas imediatas de sobrevivência. A renda mínima pode melhorar o dia a dia das pessoas, dando-lhes a liberdade de assumir o controle de suas vidas. Quando você controla sua própria vida, é menos provável que sofra de ansiedade e depressão.

Esse também é o caso de pessoas que não estão empobrecidas, mas passam o tempo todo trabalhando em empregos de que não gostam para sobreviver. Uma renda mínima dá às pessoas a liberdade de rejeitar trabalhos ruins, e isso lhes dá controle sobre seu tempo.

Quais são as razões para esse impacto?

Não tenho certeza se se deve usar a palavra “liberdade” ou “controle”. As pessoas que têm liberdade para tomar suas próprias decisões exercem controle sobre seu destino. Isso é empoderador.

Na sua opinião, esse programa poderia ter um impacto nacional no Canadá?

Sim. Devo dizer que no Canadá é mais provável que consideremos um programa direcionado a pessoas de baixa renda, em vez de um pagamento universal, mas esse programa pode funcionar e realmente funcionou para dois grupos de pessoas que têm acesso a ele agora – idosos (que recebem pensões) e crianças menores de 18 anos (que recebem um benefício infantil).

Esses programas são adequados apenas para os cidadãos mais pobres? Ou eles podem ser implementados na classe média?

Nosso benefício infantil é “direcionado”, mas atinge 90% das crianças menores de 18 anos – quase 70% das famílias com filhos dessa idade (porque as famílias com mais filhos são mais pobres). Isso chega bem à classe média.

Você acha que esse é um modelo que pode ser aplicado em outros países?

Eu acho que a renda mínima terá uma cara diferente em cada em qualquer país, porque precisa ser projetado de maneiras que funcionem com o sistema já existente. O que as pessoas no Canadá estão dispostas a aceitar pode ser muito diferente das necessidades das pessoas na Finlândia, por exemplo. Já temos muitos programas direcionados, portanto esse tipo de renda mínima será mais aceitável do que o tipo de sistema universal que tem uma história mais longa em alguns países europeus. Mas a renda mínima pode, de alguma forma, funcionar em qualquer país.

O mercado de trabalho está mudando rapidamente e muitos empregos estão se tornando obsoletos. Na sua opinião, o mundo precisará considerar uma renda básica para cidadãos vulneráveis?

Sim, acredito que estamos entrando rapidamente em uma era em que temos escassez simultânea de mão-de-obra e desemprego estrutural. A tecnologia está criando muitos novos empregos, mas as pessoas cujos empregos estão desaparecendo não têm as habilidades necessárias para a nova economia. A renda mínima é uma boa maneira de gerenciar uma transição em andamento.

Os níveis de depressão e ansiedade aumentaram nos últimos anos. Podemos estabelecer algum tipo de correlação entre o trabalho e as crises de saúde mental?

Esta é uma pergunta difícil. Certamente, a depressão e a ansiedade surgem quando as pessoas perdem seus empregos e não vêem um futuro para si mesmas. Outros estão deprimidos porque estão trabalhando demais, atolados em uma economia que exige atenção constante ao trabalho e dá pouco tempo para o desenvolvimento de outras áreas de nossas vidas. A triste situação é que alguns de nós têm muito trabalho, enquanto outros têm muito pouco. A renda mínima pode ajudar os dois grupos.

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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