Pelo fim da terceirização do autocuidado masculino

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  • FOTOGRAFIA: Mitchell Hollander | Unsplash

Homens costumam crescer sendo cuidados por mulheres e não desenvolvem esse olhar. Desconstruir essas ideias do que é comportamento de homem e parar de colocar na conta de outras pessoas e, sobretudo, das mulheres, é fundamental para uma mudança de cultura de masculinidade.


 

Alguns meses atrás, estive numa viagem entre homens. Estava participando do Festival organizado pelo Portal Mundo Homem, em Piracanga, na Bahia.

O evento em si daria um ótimo texto, pois foi uma experiência maravilhosa e foram inúmeros os aprendizados. Mas, quero trazer aqui o recorte de um aprendizado que tive nesta viagem.

Voltei com o meu corpo com queimaduras de sol. Fui me dando conta do que estava acontecendo com a minha pele somente depois das marcas aparecerem. À medida que ia percebendo que meu corpo estava ficando assim, fui buscando internamente encontrar o culpado por isso.

Pensei em colocar a responsabilidade nos facilitadores da atividade, por não terem me avisado que precisava passar filtro solar ou por não me avisarem antes que ficaria muito tempo sob o sol. Mas, logo fui percebendo que isso não fazia sentido, uma vez que eu estava na Bahia, numa atividade na praia e sabia que o sol iria apertar. Eu tinha consciência do que poderia acontecer. Apenas escolhi não fazer nada a respeito.

Depois, me lamentei do fato de não estar com minha companheira nessa viagem, pois ela certamente teria um hidratante para cuidar da minha pele. E eu não havia levado nada comigo.

 

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Autorresponsabilidade masculina

Assim, pude perceber que o que estava acontecendo é que eu estava terceirizando meu autocuidado.

Alguém deveria ser responsável por cuidar do meu corpo, e não eu mesmo. Eu queria alguém para me dizer o que fazer para me cuidar, alguém que tivesse os produtos que eu necessitava e alguém que passasse no meu corpo para mim.

Estar sozinho, apenas entre homens, me ajudou a perceber o quão dependente eu era de uma figura feminina mais cuidadosa que eu.

Eu cresci com uma mãe que se preocupava com minha pele, que me dizia para passar filtro solar, para não ficar muito no sol, que sempre tinha um creminho para passar no meu corpo caso exagerasse. E, depois, já adulto, sempre foram as mulheres que cuidaram de mim. Algumas vezes minhas amigas e, quando estava em relacionamentos, eu colocava na conta da minha companheira.

 

Como percebemos nosso cuidado com o corpo

Após essa experiência, conversando com meus amigos, percebi que isso não acontecia somente comigo, mas acontece com muitos homens.

Homens costumam crescer sendo cuidados por mulheres mais cuidadosas e atentas que eles e não desenvolvem esse olhar. Indo mais além, percebo que eu não me cuidar era uma forma de manifestar uma espécie de “masculinidade”. Como se, ao não passar filtro solar ou usar hidratante, eu seria mais homem e viril.

Desconstruir essas ideias do que é comportamento de homem e parar de colocar na conta de outras pessoas e, sobretudo, das mulheres, é fundamental para uma mudança de cultura de masculinidade.

Para mim, foi uma grande virada de chave tomar consciência disso e me responsabilizar pela minha saúde, bem-estar e cuidado com meu corpo.

 

Veja também: todos os textos da coluna Brotherhood em Vida Simples.


GUSTAVO TANAKA (@gutanaka) é escritor e fundador do Brotherhood (@brotherhoodbrasil). É colunista mensal na revista Vida Simples e compartilha histórias de masculinidade quinzenalmente aqui no portal, junto com os amigos de caminhada nesses estudos sobre masculinidades.

 

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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