Pelo direito à tristeza. Nossa e dos nossos filhos

  • Margot Cardoso

Devemos parar de romantizar a infância. Somos seres humanos em permanente construção e cada idade carrega as suas angústias e as suas dores, seus heróis e seus vilões.

 

A pergunta que se coloca é “qual é o mal da busca insana pela felicidade?”. Acaso só o exercício em si já não é válido? Na visão frontal não há nada de errado. O mal só é visto nas laterais. Quando alarga-se a visão é que se nota que o caminho não é tão inofensivo quanto aparenta. Na ânsia de ser feliz o tempo inteiro, não deixamos espaço para o outro pedaço da felicidade: a tristeza. É como um convidado que amamos na nossa festa, mas vetamos a sua entrada por detestar o seu cônjuge.  É compreensível.

A tristeza não goza de boa reputação e, socialmente, é persona non grata. E como se não bastasse, há o consenso de que a tristeza é a antecâmara da depressão, a doença mais temida da modernidade. Uma associação equivocada e perigosa. A depressão é uma doença clínica que exige medicamento e acompanhamento psicoterapêutico; já a tristeza é parte fundamental da vida. Ironicamente, muitos quadros depressivos são desencadeados exatamente por não haver espaço para vivenciar a tristeza.

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Medo de quê?

O medo da tristeza — e da depressão — não é novo. Vem da nossa cultura cristã. Na Idade Média, eram considerados um pecado gravíssimo. Para a alta cúpula eclesiástica, estar deprimido era desprezar a criação, portanto, desagradava a Deus. Ora, um monge recluso partilhava da glória divina, deveria era estar em êxtase e não triste. E para o mundo lá fora? Um monge triste também era inadmissível. Na miséria da Idade Média, os mosteiros eram ilhas de privilegiados. Lá estavam protegidos do compromisso com a guerra, da fome e das pestes. Para os leigos, em última instância, um monge triste era um mal-agradecido.

E hoje, tempos de culto à felicidade, o cenário permanece. A tristeza e a depressão são malvistas. Nas fotos da família, dos amigos e das redes sociais predomina o mundo das pessoas sorridentes, num permanente e exaustivo jogo do contente. Mas o melhor sorriso é para as fotos de viagens. Óbvio, estamos no terreno da ausência total de tristeza. E mesmo quando o destino turístico são antigos campos de concentração do regime nazista — e outros cenários de sofrimento e de morte —  chega-se ao cúmulo de se postar sorrisos e poses acrobáticas. Sim. A macabra visita, antes um interesse histórico, agora está moda. A mensagem é: “Olhem para mim! Viajo, sou feliz e ainda tenho excelente forma física”. Espere… Nesse cenário viveram pessoas em condições sub-humanas que foram torturadas e depois mortas… Não interessa.

O mundo virtual

E no palco das redes sociais, coitado daquele que postar uma foto com um semblante caído ou expressar algum estado de tristeza. Da maioria, receberá desaprovação e o rótulo de problemático e sem noção. Alguns serão mais empáticos e pedirão para o “triste” sair imediatamente do estado inaceitável, com apelos de “força” e de que “a vida é bela”. Outros vão desprezá-lo: “querido, a tristeza é particular e intransferível. Desapareça! Tranque-se na sua caverna e só saia de lá quando estiver bem”.

De pai para filho

Porém, o absurdo desse cenário é que estamos tentando replicar esse modelo na geração seguinte. Contardo Calligaris, psicanalista italiano radicado em São Paulo, foi um dos primeiros a denunciar o problema. Calligaris tem alertado que a busca insana pela felicidade é um mal e está sendo passada de pai para filho. Segundo ele, a geração de pais de hoje vê a criança de forma muito idealizada e trata-a como um representante da felicidade que eles não tiveram. Slogans como “trate o seu filho com cuidado, ele é feito de sonhos” e “meu filho, meu tesouro” alimentam a ideia de que a infância é um valor em si. Com esse equívoco em mente, os pais estão privando a criança de crescer.

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Eis a razão por detrás dos adolescentes de 30 anos e dos muitos adultos vivendo na casa dos pais. O endeusamento dos primeiros anos de vida é novo, tem cerca de 100 anos. No século XIX, uma criança sabia muito bem qual era a aparência de um adulto, pois um adulto era muito diferente dela. E como se não bastasse, aprecia-se tanto a infância que muitos adultos fazem incursões a ela. O resultado é que a criança olha para os pais e acha que eles são adultos por obrigação durante a semana e, aos sábados e domingos, se vestem e agem como crianças. Uma confusão muito complicada para uma criança gerir.

Felicidade no lugar

Para os pais, a criança deprimida é intolerável, não pelo seu sofrimento em si, mas porque consideram que a criança tem a obrigação de ser feliz no lugar deles. “Meu filho/minha filha, seja feliz por mim.” Outros se sentem injustiçados “como pode estar infeliz, faço tudo por ele. Ele tem tudo”. Muitos pais agem como se fossem heróis, como se a presença e envolvimento do pai e da mãe fossem suficientes para a felicidade da criança. Ora, amor e proteção não impedem a angústia de uma criança. Ela pode estar infeliz por muitas razões — desde porque perdeu um carrinho, descobriu que todos morrem mais cedo ou mais tarde ou simplesmente porque foi esnobada por um colega na escola — todas razões pertinentes e normais. A vida é assim.

O que eu escolho?

Para Calligaris, a criança de hoje tem dois deveres contraditórios. O primeiro — normal e saudável  —  é o de crescer, isto é, parar de ser criança. O segundo dever — o mais complicado — é encenar a felicidade para os adultos. No processo de crescimento, a criança vai descobrindo que o que ela quer custa dinheiro, que há restrições e obstáculos e vai aprendendo que, na escola, todos os dias tem um embate. Ela assimila que não dá para ser feliz sempre. O que escolher? Ela pode ficar com a primeira opção: “desistir de crescer”. A segunda opção — “ser feliz” — poderá ser tentada, mas será uma grande fonte de angústia para a criança.

Como poderá ela assumir a tarefa de ser a representante da felicidade que os pais não tiveram. E por que não tiveram? Porque são adultos, porque a vida é dura, porque sentem dor nas costas, porque o casamento é tenso, porque o país vai mal, porque não sabem o que querem.

Monstros e heróis

A ideia da infância como um tempo mágico — sem o pesadelo dos relacionamentos e sem contas para pagar — precisa ser esclarecida. Ela não é nenhum paraíso. E é muito estranho que os adultos não se lembrem das dores e dilemas da sua própria infância. Basta olhar para as estatísticas da criança deprimida e nota-se que os índices de depressão acompanham os índices dos adultos.

Devemos parar de romantizar a infância. Somos seres humanos em permanente construção e cada idade carrega as suas angústias e as suas dores, seus heróis e seus vilões. A tristeza infantil não é ingratidão, não é um pecado, nem uma doença para ser medicada.

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Tal como nós, a criança tem o direito de estar triste, tem o direito de chorar. Não é pessoal. Ela não é um boneco para nos compensar de perdas e danos da nossa existência. Ela é como nós. É um ser autônomo que tem dúvidas e dias difíceis; que se alegra e que se entristece; que se decepciona e que se encanta. O que o nosso maniqueísmo não deixa ver é que não existe alegria sem tristeza e nem tristeza sem alegria. Só vivenciamos a alegria genuína, quando também vivenciamos a tristeza genuína. Elas coabitam, se alternam, se encontram, se interlaçam. E assim como a alegria, a tristeza também é bem-vinda!

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.


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