Os muitos eus que nos habitam

  • Keila Bis

Esses “filhotinhos” internos dizem, pensam e querem coisas diferentes. O que pode trazer muito conflito. Veja por que é importante conhecer cada um deles

 

Isabelas e Fredericos voltavam para casa depois de um happy hour com os novos colegas do trabalho pensando: “acho que me saí bem. Minha roupa estava mais bonita do que a de muitos”; “eu falei algo superlegal que todo mundo riu”; “será que foi bom ter feito aquele comentário, ninguém falou nada quando eu disse aquilo”. Ao chegar em casa, estavam agitados e foi difícil pegar no sono.

Jaimes e Dandaras despertavam e simultaneamente uma enxurrada de pensamentos surgia lembrando todos os afazeres do dia. As coisas se agravavam com deduções de que não ia dar tempo de cumprir tudo, que as coisas não iam dar certo, que não estava bom o suficiente, que o outro e a outra faziam melhor. Resultado: desespero, medo e ansiedade.

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Jessicas e Danilos estavam encantados com as pessoas que tinham acabado de conhecer. Dois encontros foram o suficiente para acionar o gatilho dos pensamentos de que ele ela era o grande amor da vida delas deles. A metade da laranja tinha sido finalmente encontrada. Já se viam namorando e morando juntos e tendo filhos. No quarto encontro a angústia surgia. “E se ele ela deixassem de se interessar mais por mim?”

Cristovãos e Moniques ruminavam pensamentos. O chefe era um ser horrível que lhe exigia muitas tarefas. Também não suportavam mais o marido, a esposa. Davam muito amor e recebiam pouco de volta. Na família maior, ninguém fazia nada por eles elas, enquanto que estava sempre a postos para ajudar. Com os amigos a mesma coisa. Eram muito individualistas. Dez minutos de tanta ruminação e pronto: nervosismo e raiva.

Eus em jeitos diferentes

Querido leitor, você já percebeu que existem muitos eus no seu mundo interno que dizem coisas diferentes, que pensam de formas diferentes e que te fazem sentir coisas diferentes? O das Isabelas e Fredericos, por exemplo, é um eu que quer agradar e está sempre refém do reconhecimento do outro. O dos Jaimes e Dandaras é o eu rígido, duro, autoexigente, preocupado em ser perfeccionista. O eu das Jessicas e Danilos é aquele romântico, ingênuo, carente. E o dos Cristovãos e Moniques é o eu vítima, que coloca a culpa em todo mundo e que nunca se pergunta: qual é a minha responsabilidade por isso que está me acontecendo, por eu me encontrar nessa situação?

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Cada um desses eus surgiu por algum ou alguns motivos. Podem ser experiências que te afetaram profundamente, como os famosos bullings na escola. Ou por você ter visto seus pais reagindo às experiências daquela forma. Tem gente que cresce num ambiente familiar em que tudo é feito com ansiedade e desespero. Outros em que tudo vira um drama, todos estão sempre culpando ou acusando alguém. Ou por ter assimilado determinados valores da sociedade, da família, da religião, da mídia, que criam idealizações, crenças e fantasias que não condizem com a realidade – porque, cá entre nós, ninguém nunca completa ninguém, não é mesmo?

Observe mais

É natural e do humano ter muitos eus. O problema, os sofrimentos surgem quando ficamos muito identificados com eles, seguindo suas ordens, pedidos e verdades sem refletir se aquilo está nos fazendo bem ou não. Se aquilo realmente condiz com a realidade. Caso as coisas são daquele jeito mesmo ou se estamos precisando alargar nossos pontos de vista. Se é algo que realmente acreditamos ou se simplesmente estamos repetindo o que nossos cuidadores falaram ou acreditam.

Experimente observar o que te acontece quando você segue as ordens de um dos seus eus. Se não estiver te fazendo bem, deixa ele falar sozinho, não alimenta ele não. Construa ou dê ouvidos ao seu eu livre, maduro e aberto para o viver.

 

Keila Bis é jornalista de bem-estar, terapeuta floral e psicanalista. Há alguns anos vem se dedicando a estar mais próxima do seu mundo interior. Além disso, escreve na primeira terça-feira de cada mês aqui no Portal. Para entrar em contato, mande seu e-mail para: [email protected]


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