“Olhos Que Condenam” e a resiliência de seguir em frente

  • Suzana Vidigal
  • FOTOGRAFIA: Atsushi Nishijima | Netflix

A tarefa de dar prêmios às produções cinematográficas nem sempre é algo justo – cada obra é única e acabamos comparando coisas diferentes. Dito isso, prefiro pensar nas premiações como uma maneira de passar o pente fino na montanha de conteúdo produzido a cada ano. É um garimpo minucioso que nos ajuda a escolher o que assistir, seja no cinema ou na televisão.

Assim como o cinema, as produções de televisão como filmes, séries e minisséries também têm seu momento glorioso: é o Emmy Awards, que ocorre em setembro, em Los Angeles. A minissérie Olhos Que Condenam, da diretora Ava DuVernay, foi premiada através de um de seus protagonistas Jharrel Jerome, de apenas 21 anos, que levou o prêmio de melhor ator de minissérie em 2019.

É forte, impactante e potente – e é nessa potência do cinema que eu quero chegar com esta indicação. Conta a história real de cinco garotos que foram injustamente condenados por estupro no Central Park em Nova York, em 1989. Eles tiveram suas vidas destruídas e, 13 anos depois, graças a uma daquelas coincidências da vida, o caso foi reaberto e os jovens foram soltos. Ava DuVernay filma essa história impressionante – e tão recorrente de condenação injusta –, mostrando pro mundo, de forma poderosa, do que o cinema é capaz.

Ava conta que muitas pessoas mandam a ela suas histórias de vida, na esperança que a diretora possa contá-las no cinema. O que chamou a sua atenção neste caso foi que ela se lembrava do suposto crime cometido pelos chamados Central Park Five e resolveu abraçar o projeto. Escalou os atores, dirigiu a história com força e coragem, mostrou como viviam antes e depois da prisão, e compartilhou essa trajetória com espectadores do mundo todo. Embora seja baseado em fatos, é bem claro que se trata de uma obra de ficção – o que assistimos é o seu olhar sobre o que aconteceu, o seu recorte. Mas parte desse recorte foi apresentar pro mundo os personagens reais da história, prestando uma linda homenagem a esses garotos, que são hoje adultos que conseguiram refazer suas vidas depois da tragédia. Com muita resiliência.

Por onde Ava e o elenco passam, passam também os verdadeiros Antron, Korey, Kevin, Raymond e Yusef. Arte e realidade se unem pra contar pro mundo aquilo que nunca mais deveria se repetir. Quando Jharrel Jerome recebeu o Emmy de melhor ator, os cinco estavam lá no auditório vibrando e aplaudindo, num gesto generoso e otimista de quem empresta sua história de vida e agora se surpreende a cada novo passo que ela dá. Vida e cinema se imitam mutuamente, produzindo uma potente energia que transborda, contagia e transforma tudo e todos por onde passam.


Onde assistir
: Netflix

 

Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir. 


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