Dor e compaixão, duas faces da mesma moeda

  • Mariana Nahas

Pra que possamos evoluir é preciso olhar pra dor com consciência e não mais com raiva, impotência e rejeição.

Só hoje, quando sinto na pele a dor física, que veio junto com o Covid -19 é que pude parar e pela primeira vez na vida olhar pra dor com consciência e ter a oportunidade de ressignifica-la.

Hoje percebi que para me tornar verdadeiramente grata, pelo simples fato de não sentir dor, foi preciso senti-la prolongadamente em cada centímetro da minha musculatura e desejar que ela fosse embora.

Falar de dor hoje se torna tão ou mais importante que falar de amor.

Digo isso porque depois de tanto falar de amor com vocês, venho falar de dor, dor física, nas entranhas, músculos e juntas. Venho falar de impotência, de raiva, de frustração, fragilidade e vulnerabilidade.

O Covid me pegou e há uma semana sigo em casa, isolada. Não tenho febre, não tenho tosse, não tenho dor de garganta… mas tenho uma dor surreal no corpo que não dá trégua! Sei que muitos que pegaram Covid sabem do que estou falando. Uma dor no corpo como nunca senti antes, parece que meus músculos das costas, lombar e virilha vão ser rasgados, minhas articulações ardem e queimam. Não tem posição e meu corpo pesa uma tonelada. Esse estado permanece dia e noite…. longas noites mal dormidas.

Achei que estivesse preparada pra dor, lido bem com a tristeza, com a decepção, com a frustração, sou uma pessoa emocionalmente muito estável, resultado do investimento de anos no meu auto desenvolvimento.

Mas quando a dor vai pro corpo… pára tudo!
A mente simplesmente se esquece de tudo que aprendeu!

A dor provoca uma alteração nas ondas cerebrais, na descarga hormonal, na densidade do corpo físico, toda a atenção vai pra dor, vibramos baixo, a consciência fica limitada, a mente fecha o foco, o instinto de proteção animal entra em ação, nos tornamos reativos, irritados, prontos pra atacar ou fugir.

Tudo que queremos é a libertação da dor!

Pensei que pudesse controla-la e manda-la embora com a meditação e com minhas ferramentas espirituais, mas minha consciência me respondeu gentilmente com um sorrisinho no canto dos lábios:

– Meu amor, você acha que sabe mais o que é melhor pra você que eu? Cara criança, esse é seu caminho. Compreender a dor e aceita-lá faz parte da sua liberação. Pare de brigar! Acolhe.

Não entendia. Como assim acolher a dor? A dor dói! Eu não quero sofrer.
E como uma criança chorei: A dor dói! Não quero mais brincar disso.

Dias se passaram….apenas sentindo e me desesperando com a dor que não dava trégua. Busquei me anestesiar da dor com analgésicos, mas algo dentro de mim sabia que não era esse o caminho. Até que tentando explicar o que estava acontecendo comigo pra uma amiga e como estava me sentindo frente a dor, a impotência, a vulnerabilidade e a compaixão que estava sentindo por todas as pessoas que vivem a dor como seu dia a dia através de dores crônicas, finalmente a ficha caiu! E a Luz voltou, apesar da dor.

Não pretendo trazer solução alguma para as dores do mundo neste texto. Não vim aqui dizer o que é certo e o que é errado, nem mesmo como cada um deve lidar com as suas dores. Não pretendo compartilhar uma verdade absoluta ou um grande ensinamento, pois eu mesma o estou aprendendo ao passo que o compartilho com vocês através deste texto. Mas sinto que compreendi algo importante que vale ser trazido a Luz.

Sentindo a dor e me lembrando como é não senti-la, uma compaixão enorme brotou em meu coração por todas as pessoas que sofrem com dores crônicas ou agudas. Pude finalmente perceber que havia uma parcela da população que simplesmente eu não era capaz de validar por não saber o que era estar em seu lugar. A mente não válida aquilo que desconhece. Portanto, elas eram invisíveis pra mim.

Me senti então unida a elas, tecida junto com fios de compaixão, entrelaçada, conectada a todas as pessoas que sofrem e sentem dor através dessa força poderosa chamada compaixão.
A dor me uniu a todas as pessoas que ontem, hoje e amanhã possam sentir dor, dores crônicas, hérnias de disco, fibromialgia, enxaquecas, dores ósseas , dores de amor, dor de perda, dor da alma…. senti naquele momento meu coração expandir de compaixão por todos que, assim como eu, não conseguem se curar sozinhos pela força do desejo e precisam encontrar na dor a sua morada.

Me rendi neste instante à minha humilde e frágil condição humana, presa a um corpo que sente, sente as fibras rasgando, as juntas arderem. Senti que algo poderoso acontecia dentro de mim… e esse algo não era indolor, ainda me sentia cansada, meu corpo pesando uma tonelada, ainda sentia a minha dor, assim como agora podia sentir também a dor do mundo. Posso senti-la em mim, assim como posso sentir compaixão por todas as pessoas que vivem essa situação comigo e que antes eram invisíveis ao meu campo de percepção pois antes eu não sentia dor. Quanta gratidão a dor!

É preciso sentir dor de forma consciente para se tornar verdadeiramente grato mesmo quando não a sente.
É preciso sentir dor de forma consciente para ativar a compaixão por todos aqueles que a sentem, mesmo quando não a sentir mais.
É preciso compreender que dor e prazer, medo e amor, alegria e tristeza são duas faces da mesma moeda e coexistem ao mesmo tempo. É preciso que a gente se lembre que não há como negar a outra face. Não tem como sentir uma e não sentir a presença da outra nesta dimensão. Somos UMA só consciência experimentando a existência material. Tudo coexiste.

Essa reflexão me libertou!

Me levou a sentir ao mesmo tempo muito amor e compaixão por todos que estão nessa situação comigo. Um amor maior que nunca senti antes!!! Uma vontade de pegar a todos no colo e acalentar como a Grande Mãe que sou.

Neste momento percebo que mesmo a dor é apenas a outra face do amor. É possível sentir ambas quando saímos do nosso campo da individualidade e da negação. Neste momento de consciência lúcida e ampliada sei que essa lucidez e compreensão vivida na prática não é só minha, agora ela pertence a Grande Inteligência divina.

Quantas vezes já não passamos por doenças, dores de amor, dores físicas ao longo da vida e tudo que queríamos era nos livrar delas. Nunca nos perguntamos: Porque? O que estou deixando de perceber?
Passamos pela dor com rejeição, negação, querendo que ela se vá logo. E então a dor se vai, como tudo na vida que passa, porém sem deixar nenhum aprendizado. Mais uma dor em vão!

Poder passar pela dor e pela doença com consciência muda tudo, pois a dor não é em vão, ela deixa um presente pra toda a humanidade.

Todo e cada ser vivo é uma centelha divina do Criador – da Grande Consciência Universal – que experiência a condição humana a partir da perspectiva individual de cada um. Nossa função na nova era é transcendermos a identificação com o corpo e a individualidade, a fim de passarmos a funcionar através da perspectiva da Grande Consciência, da integração e da unidade, mesmo ainda vivendo a experiência humana e material.

Toda experiência vivida por nós seres humanos é enviada a todo instante pra Grande Consciência Universal ou Akasha, em forma de energia: nossos pensamentos, nossos sentimentos e emoções, nossas percepções e aprendizados. Tudo vai para a grande biblioteca universal Akasha, uma infinita onda de informação e potencialidades que armazena toda a informação de todas as dimensões e seres já criados. É como se Deus fosse a grande nuvem de informação divina que armazena todas as informações da sua infinita criação, assim como por exemplo, nosso celular armazena em tempo real as nossas fotos na nuvem do iCloud. Essa grande nuvem que vai sendo o tempo todo atualizada por todos nós representa nosso Inconsciente Coletivo.

Toda nova expansão de consciência de qualquer ser humano colabora para que todos os seres vivos ainda inconscientes desta expansão possam ter acesso a essa compreensão através do Inconsciente Coletivo.

A falta de uma consciência maior porém, dificulta esse processo, pois leva o ser humano a se identificar apenas com o universo material, com a individualidade, com a separação do corpo físico onde o principal impulso é a busca pelo prazer imediato, negando qualquer aprendizado.
A falta de consciência não vê a grande figura, não reconhece um propósito maior em tudo, portanto a mente nega a dor, não vendo sentido nela, passando por ela com raiva, julgamento e rejeição. A mente reforça a dualidade do bem sobre o mal e reforça na nuvem a idéia de que dor é ruim e prazer é bom. Desta forma continuamos alimentando um mundo de separação, dor e julgamento. Desta forma, não há expansão.
Nada fica de aprendizado, apenas o reforço da dualidade do bem contra o mal que impera na raça humana há milênios. Rejeitar a dor e buscar o prazer mais e mais, tornando invisível todo o outro lado da moeda.

Ser capaz de passar pela dor e ter a compaixão ativada deste jeito, me trouxe a percepção de que iluminei um aspecto da sociedade e de mim mesma que estava negando por não ser capaz de senti-lo em mim. Algo em mim se expandiu. E que benção poder sentir novamente TUDO em mim.

Ser capaz de ativar o amor concomitantemente a dor, me trouxe mais perto da mente neutra e fui capaz de amar minha condição que me fez perceber a grandeza de saber amar mesmo através da dor.

Somos capazes de amar através da dor, pois a dor também é mais uma face do amor.

Talvez você se identifique com esse texto, talvez não…. mas quem sabe talvez pudéssemos curar a dor do mundo juntos, amando e encontrando na compaixão um elo perdido que pode nos atar de volta a unidade que está há tanto tempo perdida no labirinto da mente que vê um mundo de dualidade, que não a compreende e portanto a faz sentir medo da dor.

Eu, permaneço aqui… sentindo! Sabendo que um dia irei agradecer esse aprendizado. Sabendo que hoje não compreendo ainda totalmente, mas sei que essa reflexão transcende a minha própria compreensão. Tenho em meu coração uma certeza de que essa lucidez ainda vai libertar muitos corações reféns da dor.

Que seja Luz pra você!


Mariana Nahas é coach de vida, terapeuta integrativa, facilitadora de meditação e idealizadora do Programa de Desenvolvimento Pessoal Ser Humano. Acredita que o autoconhecimento e a autocompaixão são as chaves para despertar em nós o ser de infinitos recursos internos que somos enquanto seres conscientes. Escreve quinzenalmente no Portal Vida Simples. Seu instagram é @mariananahas_.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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