Ocupar para transformar: as crianças na cidade

  • Luisa Alves
  • FOTOGRAFIA: Olivia Bauso | Unsplash

Há pouco tempo li sobre uma micro-tendência nos Estados Unidos na qual as famílias com crianças pequenas oferecem doces e cartinhas aos passageiros no início das viagens aéreas, como pedido de desculpas por seus filhos chorarem ou fazerem barulho. Fatos isolados relacionados às escusas dos pais e até expulsão de famílias dos locais têm ocorrido bastante. Um advento que engloba tal sistema de exclusão de crianças é o movimento Child Free, que proíbe a entrada de crianças em locais e que ganhou força nos últimos anos.

Como mãe, entendo e acolho a sensação de desconforto e de tensão que é viajar ou sair com crianças quando um local não é tão atrativo a elas. Vejo muitos pais desistirem de saídas em função do risco das suas crianças “atrapalharem” o passeio dos outros. Tendo em vista essa conjuntura de intolerância, tal ótica é bem razoável. 

Mas e se começarmos a perceber a necessidade de cidadania das nossas crianças? Se entendermos que para sentir segura e crescer plena no mundo ela precisa conhecê-lo? E se passarmos a entender também o quão importante é nossa função na sociedade?

Todos os dias, estamos preparando seres humanos respeitosos para o mundo, fazendo o máximo que podemos pelos filhos. Educar não é tarefa fácil, requer maturidade, transformação interna e grandes adaptações à nossa rotina adulta. Esse reconhecimento lá fora só é possível quando nos tornamos visíveis lá e nos acolhemos em nossas dificuldades como pais e cuidadores dentro de nós. 

A ideia não é nem nunca foi “roubar o espaço” de alguém convertendo o ambiente em um playground, por exemplo. Parquinhos são ótimos, mas não precisam estar em todos os locais. Bom senso de todas as partes é nosso fio condutor na jornada de coexistir e o que proponho é que a gente não deixe de realizar atividades ou ter lazer em função de estarmos com nossas crianças. Quando aceitamos a intolerância com elas acabamos também nos excluindo de experiências. Isso não é justo. E se as pessoas trocassem reclamações e julgamentos por ajuda, quem sabe as crianças poderiam cessar o choro?

Para criar a plataforma Guia Fora da Casinha sempre tive a frase do pedagogo e cartunista italiano Francesco Tonucci delineando nossos passos. “É partindo da infância que se constrói uma cidade para todos”. Há 4 anos incentivamos pessoas com crianças a saírem de casa e vivenciarem a cidade em passeios e experiências para a família. Todo conteúdo e os eventos que o Guia promovem têm por objetivo a visibilidade e o acolhimento em São Paulo. Acreditamos muito que a “Cidade das Crianças”, projeto de Tonucci, é possível na megalópole, com escuta e inclusão desde a infância.

Entendendo a potência que é a infância e a formação das crianças, vamos percebendo que essa não pode ser uma fase isolada em uma realidade paralela enquanto os adultos vivem seus encontros e compromissos. Ocupar com elas amplia a transformação do mundo que queremos para os nossos filhos. E que seja no presente! Assim caminhamos com mais tranquilidade pelas ruas e estabelecimentos da cidade com “o futuro do nosso país”, como mesmo até quem não tolera crianças em um local, pode defini-las assim em outras ocasiões. 

 

Luísa Alves é relações públicas e criadora da plataforma Guia Fora da Casinha, na qual compartilha conteúdo sobre infância e mater-paternidade na cidade, além de agenda cultural pra quem tem crianças em São Paulo. Nesta coluna, quinzenalmente, traz reflexões sobre cidadania, cultura e lazer na infância, fortalecimento de mães e sobre o estilo de vida com crianças. Seu instagram é @guiaforadacasinha


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COMENTÁRIOS

  • Mateus Gonçalves

    Muito importante o alerta que vc nos faz, Luísa. A sociedade, adultocêntrica que é em grande maioria, precisa respeitar e acolher as crianças como cidadãs de direitos! Sigo o @guiaforadacasinha e percebo o quanto essa reflexão que você nos apresenta é transformadora. Vida Simples sempre acertando em suas matérias!

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