O tempo que há no tempo

  • Fabio Gandour

O ano é novo. O tempo é antigo. Hora de decidir o que você vai fazer com o velho tempo no novo ano.

O poeta romano Virgílio, viveu de 70 A.C. a 19 A.C. Escreveu três grandes obras, as Éclogas, as Geórgicas e a Eneida. Destas, a obra mais famosa é a Eneida, mas a frase mais conhecida de Virgílio está nas Geórgicas. Lá está escrito “tempus fugit”, que em latim, significa “o tempo voa”. Esta frase aparece em relógios antigos, como este da ilustração.

o tempo

Horácio, outro poeta romano, viveu de 65 A.C. a 8 A.C. A vida destes dois poetas tem alguma sobreposição temporal. E talvez por isto mesmo, ou por uma mera coincidência, é de Horácio a expressão “carpe diem”, também em latim e escrita em um contexto maior. Por isto, foi traduzida de várias formas: “colhe o dia”, “desfruta o presente”, “vive este dia”, “aproveita o dia”. Mas se consagra por uma interpretação simplificada tipo ”…aproveita o tempo”. Também foi parar em relógios antigos, como aparece na outra ilustração. Falando de tempo, note que tudo isto aconteceu faz tempo, muito tempo…

o tempo

Passa outro tempão, mais de dois milênios, e a minha última coluna de 2020 nasceu com o título “Novas formas para se ficar velho”. Contrapondo conceitos de novo e velho, a coluna abordou essencialmente, formas de se lidar com a passagem do tempo de vida, em um momento em que ele insiste em ficar cada vez mais longo.

Passa um tempinho e agora vamos nos dedicar à primeira coluna de 2021. Olhe ao seu redor e você vai notar que muitos dos escribas de hoje estão se dedicando a pensar no tempo. Existem razões para isto.

De um lado, a virada do ano cria um elemento de marcação na linha do tempo, que promove a reflexão, a retomada de rumos e a correção de rotas, como assinala o Matheus.

De outro lado, a inevitável motivação para o pensamento reflexivo causada pela pandemia, suas exigências e consequências destas exigências, como pontua a Mariana, sugerindo movimentos no botão do dial para uma sintonia mais feliz em 2021.

Horácio e Virgílio viveram em uma época de tempos lentos, gordurosos e viscosos, que escorriam vagarosamente pelas mãos. Mão de quem estava dentro de casas. Época em que era possível dedicar uma vida inteira a uma só linha de pensamento e fazê-la refletir em uma narrativa interminável até que ficasse completa. O pensar e seus produtos eram transmitidos oralmente, de um aos outros.

Horácios e Virgílios de hoje lidam com um tempo fluído, volátil, que desaparece se esvaindo no ar de si próprio. Voam das mãos na frente de um monitor da internet ou outro canal moderno de divulgação de tudo. Até do que nem merece ser divulgado por causar apenas uma sensação incômoda de perda de tempo.

O ano é novo. O tempo é antigo. Hora de decidir o que você vai fazer com o velho tempo no novo ano.


FABIO GANDOUR é formado em Medicina, dedicou-se à pesquisa científica, onde acabou se apaixonando por medições. Inclusive medições do tempo. Talvez esta seja a razão de tudo que está escrito nesta coluna.


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