O sonho de viver melhor

  • Margot Cardoso

Nada de feitos mirabolantes ou viagens exclusivas. Queremos o normal, porém atendendo ao chamado da evolução, um normal um pouco melhor.

Este ano, 2020, ainda não acabou. Mas eu — como a maioria de todo ser vivente — gostaria que ele já tivesse acabado. Só no final de agosto é que finalmente aceitei (sim, sou otimista e obstinada!) que este ano não tinha mais nada para oferecer. Já passei pela fase dos balanços e agora faço planos para 2021.

Como o cenário turvo da incerteza ainda impera, talvez planos não seja o termo correto. A melhor palavra é mesmo “sonhos”. Soa estranho porque nos habituamos a que os sonhos sejam do terreno do imponderável, exercício para românticos e poetas. Ocorre que os sonhos — junto com o vírus — regressaram com força total. Hoje, fazem parte do nosso dia a dia. Afinal, quem neste fatídico ano de 2020 não está sonhando?

O normal

E que sonhos são esses? Ter a vida de volta. Há uma certa vergonha em assumir isso porque parece que queremos a estagnação, que não queremos evoluir. “Ah! Do jeito que estava não podia continuar”. Há o receio do conformismo e o de ser politicamente incorreto, como se o Covid-19 tivesse vindo para consertar o que estava errado. Então para driblar o preconceito, fala-se em querer um “novo” normal. Isso é: a vida que tínhamos antes, mas, claro, melhor. Mas, é preciso que se diga que a nossa liberdade sofreu uma distorção sem precedentes. Talvez você não tenhamos notado porque a liberdade há muito que é uma conquista dada como adquirida e muitos nem sequer tiveram de lutar por ela.

E mais: no cenário do medo não notamos muito a não liberdade, só os seus efeitos, como a impotência. Sair de casa, visitar lugares, encontrar amigos, viajar, conhecer novas pessoas estão vetados. E há muitos outros atos que se não estão completamente impedidos, estão condicionados ou restringidos por novas regras e protocolos. Os que já experimentaram voltar ao cinema, ao museu ou qualquer outro espaço público sentiram esse estranhamento. Sempre consideramos que os espaços públicos nos pertenciam, eram nossos por direito

Ser livre

Sonhamos com a nossa vida de volta, mas melhorada, porque agora ela é pensada. Porque só agora, na absoluta falta, vemos com nitidez o que realmente perdemos. E mesmo que não nos servimos de grandes doses — afinal a liberdade tem um custo, inclusive financeiro — e não está acessível a todos; sabíamos que ela estava por ali, ao nosso alcance. Saber que não é proibido, de nos sabermos livres, também é uma forma de experimentar a liberdade.

Hoje o nosso sonho é viver melhor no sentido literal da palavra. Estar com amigos num bar, mas estar lá melhor, com mais presença, aproveitando todos os ângulos do encontro. Um passeio pelas ruas da cidade? Sim, mas devagar, para dar tempo de aproveitar melhor as vistas. Um restaurante? Sim. Mas vamos escolhê-lo com muita calma, reservar uma mesa com antecedência, degustar primeiro o cardápio, esperar o prato com languidez, sentir a atmosfera do espaço, contemplar as outras mesas, a escolha dos outros. Saborear o ato de estar ali, naquele momento. E quando o prato chegar, dar a máxima atenção aos seus sabores e aromas.

Viajar é preciso

E sobretudo, sonhamos com viagens. Na minha família,  nós — meus três irmãos e eu — no aniversário dos 18 anos tínhamos direito a escolher um presente especial. Os meus irmãos escolheram coisas materiais, eu escolhi uma viagem. Com um diferencial: queria ir sozinha. Queria uma aventura solitária, sem distrações e sem partilhas. Queria a experiência na sua totalidade, sem perder nada. E desde então, as viagens não saíram do meu foco, é parte integrante do que eu considero “viver”. E também é assim para muitas pessoas. Quantos hoje não sonham que estão fazendo a mala ou que estão calmamente sentados esperando o embarque?

E nesse sonho, também queremos que ele seja melhor. O plano não é correr de um lado para outro para conhecer o máximo de “atrações imperdíveis”. A ideia é ter tempo para conhecer a cultura local, o estilo de vida, conversar com pessoas. Mas do que monumentos turísticos, viajar melhor é aprender sobre a cultura do lugar visitado, se capacitar para respeitar e compartilhar aprendizados. Incorporar novas visões de mundo.

Na viagem/vida melhor, não há a preocupação com selfies e stories. A preocupação não é seguir roteiros alheios, mas criar um percurso inédito. Quando se segue o próprio caminho — numa viagem — ou na vida, você tem aprendizados que são só seus, na medida da sua alma.  

Sem pressa  

Outro inimigo do viver melhor, mas que só percebemos com nitidez nas viagens: a pressa. Você já notou que muitas pessoas saem de férias e quando voltam precisam de férias para descansar das férias? Ao cansaço físico soma-se o cansaço mental. Na maratona de lugares e atrações, já nem se lembra mais onde esteve. Uma amiga mostra fotos da sua viagem a Europa: “Ah! Essa foto não sei se foi em Amsterdã ou Viena, essa aqui não lembro onde é”.

E repetimos o mesmo comportamento na vida de todos os dias. Corremos de um lado para outro e já não temos consciência de onde estamos e nem aonde estivemos. E achamos que isso é o certo porque temos o vício da produtividade. Na nossa futura vida melhor, vamos abandonar a pressão de cumprir tarefas. Viajar leve, reagir aos imprevistos com mais humor e paciência. Eliminar a ansiedade da obrigação de agarrar isso ou aquilo. Abandonar o medo de não fazer parte da manada e valorizar mais o fazer o que se tem vontade.

E ponto fundamental: devagar e melhor teremos tempo para a mais importante das viagens: a jornada para dentro de nós. E é lá, no lugar onde os nossos pensamentos e sentimentos habitam que está o manancial de toda a nossa força. Um fonte de água pura e cristalina…  E que nunca seca.

criancas

 

Margot Cardoso (@margotcardosoé jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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