O que um fusca, um cachorro e uma alma livre nos ensinam sobre a vida

  • Patrick Santos
  • FOTOGRAFIA: Instagram/Reprodução

Algumas histórias têm a capacidade de nos conectar com um sentido mais profundo da nossa existência. Apesar de sua prematura partida, Jesse e Shurastey nos mostraram que viver a verdade do coração nos conduz por um caminho mais pleno

 

“Temam menos a morte e mais a vida insuficiente”, já nos alertava, ainda no século passado, o poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Eis que o tempo continua avançando, a idade chegando e muitos dos nossos sonhos morrendo em gavetas.

Ainda encaramos a vida de uma maneira muito linear, sem nos darmos conta de que o sentido dela não está em sua extensão e sim na intensidade com que percorremos o caminho da nossa existência. A vida é para ser vivida e não sobrevivida.

Ainda bem que algumas pessoas estão aqui para nos mostrar que existem outras direções.

Trouxe a frase de Brecht na abertura da minha coluna de hoje em Vida Simples para falar de uma notícia que mexeu profundamente comigo e, tenho certeza, com milhares de pessoas ao redor do mundo no mês de maio. Mexeu porque nos faz refletir sobre nossas escolhas. Me refiro ao falecimento do jovem Jesse Koz e do seu inseparável cão Shurastey, após um acidente de carro, nos Estados Unidos.

Para quem esteve ausente do noticiário e das redes sociais nos últimos tempos, Jesse Koz, natural de Curitiba, tinha 29 anos, e viajava com seu Golden Retriever em seu fusca branco 1978 para o Alasca.

Sua história

Cinco anos atrás, insatisfeito com a vida que levava em Balneário de Camboriú-SC, ele pediu demissão, vendeu seus bens e embarcou com Shurastey em seu fusca e partiu.

A ideia era seguir rumo ao Sul até onde o dinheiro permitisse. Um mês depois chegou a Ushuaia no extremo da América do Sul. Como a aventura estava indo bem, por que não seguir até o Alasca, no outro extremo da América? Era isso que ele estava fazendo até a semana passada quando seu fusca, carinhosamente chamado de “Dodongo”, bateu de frente com uma caminhonete.

Sua viagem, iniciada em 2017, era compartilhada em suas redes sociais e seguidas por milhares de pessoas.

De um perrengue ao outro, de uma bela praia a uma bucólica montanha, de um dia de sol a uma pesada nevasca, Jesse e Shurastey nos mostravam pelas estradas da vida que a existência humana tem inúmeros traços, seus altos e baixos, mas que, independentemente da escolha que fazemos durante nossa trajetória, é possível pintar um caminho mais colorido para se viver. Só precisamos ser donos dos nossos pincéis.

Alma livre

É incrível como algumas mortes têm o poder de nos ensinar sobre a vida. Mais incrível ainda é como algumas pessoas parecem nos “oferecer” sua vida para nos mostrar o quanto ela é valiosa e rara. Calma, deixa eu explicar!

É claro que Jesse não queria ter partido tão cedo, afinal, seguramente ainda percorreria outros milhares de quilômetros com o seu fiel companheiro por muitas estradas desse mundão a fora, mas ao se despedir de forma tão repentina e com tamanha visibilidade, ele nos mostrou o caminho e a direção que a vida sempre nos pede: o coração. É nele que mora a verdade.

LEIA TAMBÉM: Atender o chamado do coração é dar ouvidos à voz interior

A morte de Jesse e Shurastey não provocou uma verdadeira comoção nas redes sociais e uma longa matéria no Jornal Nacional apenas pela forma trágica como eles partiram, ainda que isso tenha colaborado muito.

Milhares de pessoas deixaram comentários nas redes sociais e se envolveram com a história, porque de alguma maneira Jesse desperta em cada um de nós a necessidade humana de viver a verdade.

O jovem curitibano fez o que muitos sonham em fazer, mas que poucos têm coragem: se entregar ao propósito da alma.

Não, não estou querendo dizer que é o sonho de todo ser humano colocar um cachorro em um fusca e sair sem destino pelo mundo. Mas é, sim, um sonho de todo ser humano ser livre e dono da sua vida.

Vida que cada vez mais tem conversado conosco. Essa pandemia que o diga. Já nos mostrou que não temos controle sobre muitas coisas, a não ser sobre nossas escolhas. É hora de escolher.

Não dá mais para ser um viajante de sofá e ver a vida só acontecer fora de si.

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O relógio da existência

  • Até quando vamos continuar nos escondendo em trabalhos que não tem nada a ver conosco, que drenam nossa energia, que são incapazes de nos fazer levantar da cama todas as manhãs?
  • Até quando insistiremos em manter relacionamentos dos quais, lá no nosso íntimo, já nos despedimos?
  • Até quando colocaremos camadas para não ouvir o nosso coração?

Claro que nenhuma dessas decisões é simples, precisam ser trabalhadas internamente, mas não podemos nunca esquecer os ponteiros do relógio que guiam nossa existência. Eles continuam trabalhando, mas uma hora, hão de parar.

O relógio de Jesse parou e de forma prematura, é verdade, mas a maneira como ele se entregou ao seu chamado, nos ensina que, mais importante do que nos darmos conta dos ponteiros, é sermos os ponteiros do relógio.

Planejamento

Jesse contava em muitas de suas postagens que nunca fez um planejamento sobre sua viagem, tudo foi acontecendo naturalmente. Ele só tinha uma certeza em sua vida: não queria mais trabalhar como vendedor em um shopping. Foram alguns bons anos trabalhando mais de 12 horas por dia, sete dias da semana até se decidir por cair na estrada.

Sempre tive o planejamento como uma prioridade na minha vida. Acho importante estabelecer algumas diretrizes e metas para tomada de decisão, mas desde que deixei para trás uma carreira com mais de 20 anos numa mesma empresa para buscar outros caminhos profissionais, entendi que o bom planejamento é aquele que acontece no movimento, quando vem junto com o agir.

Gosto muito de um provérbio grego que diz “começar, já é metade da ação”. Passei boa parte da minha vida tocando planejamentos infindáveis sem me dar conta de que era atrás deles que me escondia para não mudar.

Aliás, quantos de nós passamos anos e anos planejando, sonhando, sem fazer o movimento que efetivamente pode nos levar ao nosso papel neste mundo?

Hoje está difícil sustentar uma rotina de vida desalinhada com a nossa essência. O burnout, depressão e síndrome do pânico estão aí para nos mostrar quem têm levado a melhor nesse duelo entre o “Eu profundo”  e um “Eu idealizado”.

Ainda bem que Jesse nos mostrou o caminho de um Eu verdadeiro.

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Filme

Em uma das últimas fotos de seu Instagram, Jesse comenta, tendo ao fundo os letreiros icônicos de Hollywood: “Vai que um dia essa história vira um filme de Hollywood. Já pensou Shurastey, nossa trajetória passando nas telonas do cinema?”

Tomando por base como tudo aconteceu nesses 5 anos e a maneira como eles partiram, não tenho dúvida que o roteiro já está escrito.

O que essa linda jornada de Jesse e Shurastey no mostra é que, todos nós, sem exceção, podemos construir o filme da nossa vida. Ele passa pelo coração.

 

Leia todos os textos de Patrick Santos em Vida Simples.


PATRICK SANTOS (@patricksantos.oficial) é jornalista, escritor e apresentador do podcast 45 Do primeiro tempo que semanalmente traz histórias de pessoas que se reinventaram. Depois do sabático em 2018, tem procurado alinhar mais seus sonhos e planejamento com ação.

 

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.

 


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COMENTÁRIOS

  • ALE

    Que história inspiradora! Apesar de ter sua vida abreviada, certamente “viveu” bem mais que muita gente!!

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