O que minha dor me ensinou

  • Rodrigo Vergara
  • FOTOGRAFIA: Filip Krstic | Istock

Todo padrão emocional mora no corpo. Desvendá-los equivale a uma cura. 

Eu sou um cara de sorte. Em 1990, aos 20 anos, perdi a direção do carro que dirigia e bati o veículo contra uma árvore. Um dos galhos entrou pela janela e fraturou meu maxilar em vários pedaços. Meu dente canino inferior esquerdo e o pré-molar vizinho foram embora sem que eu tivesse chance de me despedir deles. O primeiro molar sentiu saudades deles uns anos depois e os seguiu. Um incisivo lateral seguiu o mesmo caminho, há três anos.

Em 1995, um manobrista dirigindo o carro de um cliente de um restaurante famoso de São Paulo saiu de uma contramão e atravessou o sinal vermelho, no cruzamento em que eu vinha de moto. Fraturei vários dedos quando meu pé esquerdo arrancou o pára-choques dianteiro do carro.

Em 2014, em Alto Paraíso de Goiás, mergulhei em uma cachoeira, crente que era um poço profundo, mas havia ali apenas 40 centímetros de água. Além do baita corte na testa, o choque com a pedra rendeu uma pequena rachadura no crânio.

Cadê a sorte?

Digo que tenho sorte porque a soma de todos esses traumas não me deixou sequelas importantes. Além de estalos no maxilar quando mastigo, algumas vertigens esporádicas e dores nos dois pés, tenho apenas uma propensão chata a torcicolos. É que a cacetada no maxilar rompeu alguns músculos do pescoço e das costas. As estruturas que restaram protestam contra a sobrecarga por meio de contraturas. 

Sempre que o pescoço endurece minha vida, há pelo menos 20 anos, passei a receber sessões de acupuntura e massagem shiatsu. 

Lembro com clareza a primeira sessão de massagem que recebi. Deitei na maca, de calção, sem camisa. E a massagista, Beatriz, começou a apertar pontos específicos no meu pescoço, nas costas, na lombar, nas pernas. A cada ponto que ela tocava, eu ia ficando mais e mais impressionado, porque ela tocava e-xa-ta-men-te nos pontos tensos, gerando um alívio instantâneo. Como ela sabia onde doía?

Mapa da dor

Foram necessárias muitas sessões de massagem para eu perceber o óbvio: nós seres humanos temos uma propensão a acumular tensão em alguns grupos musculares específicos. Com um pouco de atenção e disposição para se conhecer, qualquer um consegue identificar onde as preocupações ganham corpo, literalmente.

Foi uma descoberta importante. Por meio dessa observação e da consciência corporal, aprendi que todos os meus muitos padrões emocionais estão inscritos no meu corpo, na forma de reações automáticas e inconscientes, tensões e contrações.

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Crédito: Stefan Amer | iStock

Algumas histórias

Aprendi que, quando estou angustiado, meu abdômen está sempre contraído. Espantado, percebi que basta relaxar a barriga, permitindo que ela fique protuberante, e uma parte importante da angústia vai embora, sem que eu tenha que resolver nenhum assunto, sem tocar nos conteúdos.

Aprendi que, quando tenho alguma crise de ansiedade, ela se manifesta na forma de um aperto no peito, de um jeito difícil de explicar, mas fácil de perceber. E notei que, quando transfiro a atenção para as sensações associadas à emoção, notando sua dinâmica, seu ritmo e suas variações, é como se eu e a ansiedade nos separássemos: ela está lá e eu aqui, observando-a. E então ela se esvai.

Aprendi, observando uma tensão específica nas costas, que ela me acompanhava havia décadas, sem que eu notasse. Ao observá-la com atenção, vieram à mente imagens de situações de infância que suscitaram aquela contração pela primeira vez. Naqueles dias, o aperto se dissipou e liberou uma energia enorme. Depois voltou, porque são padrões, o corpo está acostumado a reconstruí-los sem esforço consciente da minha parte.

E talvez eu não tivesse descoberto nada disso se meu corpo não tivesse sofrido aqueles tantos acidentes.

Achei que você gostaria de ouvir essa história.


RODRIGO VERGARA sente a barriga leve quando está atuando, no palco. Sente a fronte se alisar, em um alívio, quando vê uma equipe finalmente libertar seus talentos, num workshop. E sente contrações nas solas dos pés quando encontra amigos queridos.  

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples


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