O que falta na vida é infância

  • Tiago Belotte

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Quando eu era criança, dava tempo pra sentir tédio. Aquela sensação de nada pra fazer que quase dói, mas aí quando eu me dava conta, já estava enxergando desenho em nuvem, sonhando de olhos abertos, imaginando e inventando coisas pra fazer. Você se lembra a última vez que se entediou? Como adultos, desaprendemos a lidar com o tédio. Hoje nem as crianças tem mais tempo pra isso. Elas tem a agenda tão cheia, que não sobra espaço pra criar. Aí quando se tornarem adultas, alguém vai dizer que criatividade é a habilidade mais importante num mundo em constante transformação.

Quando eu era criança, brincar não tinha finalidade. Não era pra para aprender outro idioma enquanto se diverte ou para ter uma visão mais empreendedora. Era só brincadeira. Mas com toda a seriedade que tem o brincar para uma criança. O mundo ao redor desaparecia e só aquilo importava. Confesso que sinto falta dessa capacidade de mergulhar em apenas uma coisa e de estar presente de um jeito quase mágico. Consigo me lembrar da sensação boa que esses momentos traziam, alegria que se espalhava pelo corpo. Hoje queria muito conseguir me livrar da culpa que bate quando faço algo que não vai contribuir com nada, que não tem um quê de produtividade.

Quando eu era criança, nem tudo podia. E o “não” poderia vir de qualquer um. Da mãe, da professora, da irmã mais velha, de uma vizinha que vigiava nossas travessuras. Existia a frustração do “na volta eu compro” ou do “dessa vez eu não posso”. Hoje entendo que eram essas várias negativas que davam um gosto especial pra os sins. Coisas simples – como um chocolate de dinossauro, o ingresso do parque de diversões ou dormir na casa de um amigo – eram celebradas como grandes conquistas. Vejo a Nina, minha filha, vibrar nesses momentos e fico pensando como queria ter de volta essa capacidade, de fazer festa para o que a vida tem de melhor: os detalhes.

Quando eu era criança, chorava mais. Ficava triste, deitava na cama e não tinha vergonha das lágrimas escorrendo pelo rosto. A tristeza tinha lugar, porque nem sempre as coisas aconteciam como eu gostaria. O tempo correu e as coisas não ficaram muito diferentes, mas a tristeza passou a ser disfarçada, como se não houvesse lugar pra ela.  Hoje tento ensinar pra Nina que está tudo bem ficar triste. É parte da vida. Quando acolhida, diferente da alegria, a tristeza não se torna só memória, vira também aprendizado.

Quando já não era mais criança, um dia eu estava conversando com a Cris Guerra e ela me disse que todas as idades estão dentro dela. Achei isso tão bonito, que comecei uma jornada para encontrar a criança da qual sinto falta. Estão nela muitas coisas que preciso hoje. 

Que não falte infância para nós, nem para as crianças de hoje. No futuro, elas vão precisar do que podemos estar dando falta agora, como uma pecinha do brinquedo que não sabemos onde foi parar. 

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