O que esperar do casamento?

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Pablo Heimplatz | Unsplash

A união de família e interesses, concretização do amor, perda de liberdade, renúncias, túmulo do amor… O casamento — tal qual um desconhecido — sempre foi mais temido do que desejado.

Desde muito cedo estive atenta as diferenças entre homens e mulheres. Na infância — sendo a única menina entre três irmãos rapazes — notei a lista desigual do que eles podiam fazer e eu não. Brincar na rua? Só os meninos. Nem sequer nas festas havia uma trégua. Eles podiam correr, entrar e sair e, eu, tinha que tomar cuidado para não estragar o vestido. E mesmo quando eu driblava o controle da minha mãe, tinha os movimentos travados pela saia de tule.

Meus irmãos conheciam a frase que me deixava furiosa. “Não pode porque você é menina” . Cresci lutando contra isso. Tudo o que era para rapaz ou o que os rapazes podiam fazer eu queria  para mim. Tudo o que era para meninas, eu rejeitava. A tal da arte culinária foi uma delas.  Só comecei a cozinhar a partir — e para  o meu filho. É certo que fiz balé, mas também fiz karatê. Fazia as coisas típicas de meninas, mas também — e bem — tudo o que os rapazes faziam.   

Amor pelos homens

Não. Este não é mais um texto de ódio aos homens. Essa minha gênese combativa não deixou sequelas. Aliás, estou bem longe disso. Defendo que os homens precisam ser mais compreendidos e preservados. Talvez porque desde muito cedo — e até hoje — sou completamente apaixonada pelos meus três irmãos. E para estender a minha felicidade, tenho a sorte de ser mãe de um rapaz.

Com essa ressalva, volto ao meu histórico de feminista mirim radical. Nem os contos de fadas escapavam. Certa vez, fiz uma redação sobre a Branca de neve e os setes anões onde eu denunciava o que ninguém parecia enxergar: os anões exploravam a branca de neve. Ela lavava, passava, arrumava a casa e cozinhava para os sete folgados. Achava uma exploração incompreensível e indigna. E ficava ainda mais alterada, porque ninguém parecia se importar.

Exploração 

Já adulta continuei no mesmo terreno da incompreensão. Então vamos lá ver. O casamento sobrecarrega a mulher. Para além da carreira profissional, ela precisa cuidar da casa, ter e criar os filhos e “cuidar” do marido. Ok. É certo que os homens ajudam — meu pai ajudava. Mas, veja, a gestão de tudo continua a ser responsabilidade da mulher. E mesmo para aquelas que tem muita ajuda —  como uma empregada —  ainda é difícil. Afinal, gerir é desgastante. É preciso coordenar todas as tarefas, pensar no cardápio das refeições, fazer a lista de compras.

Por outro lado, o casamento sobrecarrega o homem? Não. Pelo contrário: algumas tarefas da vida prática são eliminadas — como a ida ao supermercado, por exemplo. O homem trabalha fora, chega em casa muito cansado. Pode dar alguma ajuda com os filhos, pode ajudar no preparo do jantar. Mas que não seja muito porque ele precisa ir para o sofá. É o garantido direito ao “descanso do guerreiro”. É óbvio que esse cenário tem melhorado, que já há exceções. Mas são mesmo exceções, o modelo permanece.

Incompreensão

E com todo esse cenário, qual seria a verificação óbvia? Os homens deveriam perseguir o casamento a todo custo. E as mulheres deveriam fugir em abalada carreira de qualquer menção da vida a dois. Entretanto, passa-se exatamente o contrário. Os homens fogem do casamento e as mulheres sonham com a aliança no dedo. Como isso é possível?

casamento

Crédito: Manuel Meurisse | Unsplash

Durante muito tempo essa foi uma questão intrigante para mim. Ninguém conseguia me explicar porque era assim. Ah! A explicação de que o homem encara o casamento como uma renuncia a todas as mulheres maravilhosas que ele poderá encontrar no futuro, nunca me convenceu. Afinal, e o adultério? Homens se casam e continuam a dizer sim para outras mulheres. Segundo ponto: a mulher também não renuncia aos possíveis homens futuros?

A ideia generalizada — para homens e mulheres — é que no casamento o homem renuncia a inúmeras coisas maravilhosas. E a mulher, não. No casamento, ela consegue exatamente aquilo que ela sempre quis: casa, filhos e marido. Tanto isso é verdade, que mesmo agora na pós-modernidade, a mulher solteira é vista como aquela que “não conseguiu casar”. E, portanto, é infeliz, porque falhou no seu projeto maior.   

Casamento de narciso

Mais tarde, com Freud e Lacan compreendi porque é assim. O homem — sexo masculino,— nasce narcisista. Essa é a grande vantagem de ser homem. Se tudo acontecer dentro da normalidade, o homem nasce com esse diferencial de fábrica. Isto é, faz parte da psique masculina, a crença de que ele foi extremamente desejado pela mãe. Ele é animado por essa certeza e reproduz essa convicção pela vida a fora.

É um narcisismo à prova de bala. Ele admite ser adúltero — o seu desejo não está restrito à vida conjugal — mas a mulher, não. A maioria dos homens não aceita que o desejo da mulher não se esgote no casal (alguns, nem acreditam). O único lugar de realização da mulher só pode ser com ele.

Grande equívoco

Há muitos equívocos — e também mistérios — sobre o casamento. E boa parte desses equívocos vem sendo alimentado pela cultura e reafirmado pela mídia. Desde a dona de casa linda e impecavelmente vestida dos anos 50 até a família margarina, há um endeusamento do casamento.

E o que dizem as estatísticas? Exatamente o contrário. O número de mulheres solteiras aumenta em quase todas as cidades do globo. As mulheres eram felizes dentro do casamento e agora estão, aos poucos, perdendo o gosto pela vida partilhada? “Não”, dizem as estatísticas.

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Crédito: Edward Cisneros | Unsplash

Uma pesquisa feita nos anos 70, nos EUA — país exportador de tendências para o mundo —  inquiriu sobre o grau de felicidade das mulheres casadas. A maioria — 90% das mulheres entrevistadas — respondeu que eram extremamente felizes.

Espera. Nessas pesquisas são inseridas perguntas para verificar se as pessoas estão falando a verdade. E, dessas mulheres, as que tinham filhas, foi perguntado se elas gostariam que a sua filha tivesse o mesmo destino? Bem… 90% das mulheres extremamente felizes, disseram “não”. Seriam mães sádicas ou elas estariam mentindo sobre a sua própria felicidade?

Feliz, mas…

Entretanto, apesar das estatísticas e da nossa própria experiência, continuamos a valorizar cegamente a vida conjugal. Quando um amigo pergunta se estamos felizes, ele quer saber se temos alguém ou se estamos dentro de uma relação feliz. As outras dimensões da vida, como a social e profissional não contam.

Algo sem sentido porque tanto para o homem quanto para mulher, a vida sentimental é apenas uma parte do todo. E já há muitos estudos que confirmam que o principal fator de bem-estar não é um parceiro. Não é sequer uma vida sexual satisfatória. O nosso maior e mais importante fator de bem-estar é a sensação de competência no que fazemos, o nosso trabalho.

Homem e mulher renunciam

E sobre as renúncias? No casamento e na constituição da família, elas acontecem para o homem e para a mulher. Entretanto, apesar do discurso dominante, a mulher renuncia mais do que o homem. E não se trata de perdas triviais como a dimensão da farra e da liberdade, alegada pelos homens.

As mulheres são confrontadas com renúncias entre carreira profissional e a maternidade. E algumas profissões são mesmo incompatíveis com filhos. Sendo que é uma opção que não permite espera, uma vez que há o receio da perda da potencialidade do corpo para engravidar. Ora, essa opção dramática e urgente entre carreira e filho não existe para o homem.

“Não fiz por sua causa”

Essas são as renúncias maiores. O grande Contardo Calligaris, psicanalista italiano radicado em São Paulo, falecido em março de 2021 — também ele um terapeuta de casais — falava com imensa leveza sobre essas renúncias. Entretanto — a partir da sua experiência clínica — Calligaris constatou que o casamento tem uma função muito mais importante: as pessoas casam-se fundamentalmente para ter alguém a quem culpar pelas suas covardias. E atenção: tudo o que está aqui vale também para os casais homossexuais.

Por conta da psique narcísica, o homem é especialista nisso. Mas a mulher também exerce bem esse papel. “Eu não fiz tudo o que eu gostaria por sua causa”. “Se era o seu sonho, por que você não deu a volta ao mundo de bicicleta?” A resposta é: “A minha mulher fez muita oposição”. A verdade: “Eu achava a ideia ótima. Mas só a ideia, querer mesmo eu não queria. O cansaço, o desconforto e a logística não eram para mim”.

Quem me segura?

Como geralmente não temos coragem de concretizar todos os nossos desejos, diz Calligaris, o cônjuge fica com a responsabilidade. Ao invés de assumir, “queria, mas me acovardei”, o melhor é dizer “não fiz porque a minha mulher não gosta”. O homem livra-se da culpa e ainda pode posar daquele que se sacrifica pelo sucesso da relação. Enfim, um homem generoso e sensível.

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Crédito: Nick Karvounis | Unsplash

Claro que essa não é uma razão inconsciente. E, mais do que isso, a função repressora do casamento pode não ser um mal. E, às vezes, tem até um efeito protetor. Afinal todos conhecem os excessos perigosos dos solteiros. E mais do que isso — e sem entrar em explicações complexas — poderíamos apresentar as estatísticas que indicam que os serial killers, executores de atentados, atiradores, são celibatários. 

Casamento, o que acontece?

Mas e o casamento em si? Vai mal, enfraquecido. O adultério não é mais um escândalo. O divórcio é quase tão comum quanto o casamento. Da ótica da filosofia, o que se constata é que, hoje, homens e mulheres exigem muito do casamento.

Na idade média, um homem tinha um amor romântico, idealizado, focado em um amor impossível. E tinha um casamento — geralmente arranjado —  esposa e filhos, onde o amor não era reivindicado. Eram duas áreas distintas. Séculos depois, o desejo físico, o amor erótico estava a cargo de profissionais. A esposa era casta, sexo apenas vestidos e no escuro, com fins reprodutivos. Também duas áreas que não se misturavam.

Exigência máxima

Hoje, querem o casamento com tudo em um. Ele tem que ter o amor espiritual e romântico, o amor erótico e precisa acomodar tudo isso na embalagem da rotina doméstica de uma família.

E, claro, há muitos problemas. Como conciliar erotismo com o ressentimento das divergências na educação dos filhos? O que fazer quando amamos quem temos em casa, mas já não o desejamos?

Pode ser que por conta dessa tríade difícil — somado à consciência de todas as renúncias que o casamento implica — os tempos da idealização do casamento estão chegando ao fim. Aos poucos, estamos descobrindo que o casamento não é o que imaginamos. E que o outro não é necessariamente o horizonte da nossa felicidade. E talvez nunca tenha sido.


Margot Cardoso (@margotcardosoé jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 18 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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