O que dizer para um amigo com depressão?

  • Diogo Rodriguez
  • FOTOGRAFIA: istock

Desde que comecei a escrever esta coluna, recebi muitas mensagens de pessoas que também têm depressão, ansiedade e outros transtornos de saúde mental. Leitores e leitoras compartilharam suas histórias, me deram boas-vindas e fizeram perguntas. Como vocês podem imaginar, as dúvidas eram de vários tipos. Mas um tema se destacou: a dificuldade de explicar para amigos, familiares e colegas o que se passa em nossas cabeças quando estamos numa crise ou passando por um momento particularmente difícil.

Tenho experiência com esse assunto. Hoje em dia, percebo que sou ansioso desde criança, embora ela só tenha se tornado generalizada quando comecei a me tornar adulto. Comecei a perceber que meu desespero soava estranho para pessoas do meu entorno. Que minhas reações a coisas supostamente cotidianas eram um pouco diferentes das reações dos outros. Até aí, tudo bem. Cada um tem sua maneira de lidar com as coisas.

Já compartilhei aqui na coluna que fui diagnosticado com depressão e ansiedade generalizada há quatro anos. Passei a tomar remédios (terapia eu já fazia) e finalmente havia um nome para o que eu sentia já há algum tempo. Devo acrescentar que concordo com os profissionais que cuidam da minha saúde mental: é preciso tomar cuidado com o diagnóstico para não nos limitarmos a eles. A saúde mental é muito complexa e não pode ser tratada como se fosse algo a ser “resolvido” facilmente.

Dar nome aos bois facilita um pouco a compreensão que temos de nós mesmos. Entendemos que existe algo que, por diversos fatores, não depende de “força de vontade” para sumir, mas de tratamento, terapia, esforço e, claro, às vezes requer medicações. Ainda assim, em certos momentos, é difícil evitar sentir que somos fracos, que ninguém nos quer por perto, que somos um fardo para as pessoas. Já é complicado entender nossa condição em nossas próprias cabeças. Imagine explicar isso para mais gente?

Para quem está de fora, é difícil compreender o que se passa. Deixamos de ir a encontros de amigos, almoços, cafés, festas. Muitas vezes, não respondemos a mensagens ou retornamos ligações. Quando conseguimos tomar coragem, não incomum que a gente pareça distante, fique quieto ou preocupado. Temos vontade de ir embora cedo. Eu, por exemplo, adorava sair para tomar cerveja. Hoje, sinto pouca vontade de beber por conta dos remédios. E também porque sei que o álcool não faz bem para pessoas com transtornos de saúde mental.

A verdade é que acabamos nos afastando de quem tínhamos por perto. Cria-se um círculo vicioso: surge um medo de decepcionar as pessoas e ideia (muitas vezes errada) de que elas não querem estar conosco. Por conta disso, deixamos de ir aos eventos normais da vida social, o que de fato chateia nossos amigos e familiares, reforçando a ideia de que somos indesejados. E a falta de convivência social é muito prejudicial para a saúde mental. Quem já passou muitos dias e noites ruminando em casa sabe disso.

O que fazer, então? Existe alguma técnica para quebrar o redemoinho? Infelizmente, cada caso é único, portanto, não posso dar conselhos infalíveis. Hoje, vou compartilhar o que eu tento fazer. E deixo claro que nem sempre funciona 100% bem. Ainda estou aprendendo a conversar sobre o assunto e, mais importante, ouvir os outros. Além disso, entendam que nem todo mundo está preparado para falar sobre sua depressão, ansiedade, etc. Por isso, é preciso conversar com o psicólogo ou psiquiatra para entender qual é a melhor estratégia, a que vai te ajudar a lidar com amigos, familiares e colegas.

Dito isso, vamos lá. Há algum tempo, comecei a ser mais aberto a respeito do meu tratamento para as pessoas mais próximas: amigos de longa data e familiares. Mais precisamente, disse a eles que sofro de depressão e ansiedade e que estava tomando remédios. Um efeito que isso teve foi deixar mais palpável para todos a dimensão que a coisa tem, afinal, tratamento é feito para lidar com problemas de saúde. Outra coisa que fiz foi ser aberto a respeito das razões pelas quais eu falto a determinados eventos. Explico que não estou bem naquele dia, que não tive forças para sair de casa, que o remédio me deixou sonolento.

Os mais próximos me fizeram perguntas. Embora eu tenha respondido a quase todas as dúvidas, entendi que será necessário explicar as mesmas coisas algumas vezes. Quanto maior a proximidade, na minha experiência, mais dificuldade a pessoa terá de separar seus “exageros” das dificuldades impostas pelos transtornos. Não sei exatamente por que isso acontece, mas talvez haja um componente de negação: “não é possível que você seja ansioso ou deprimido porque você sempre foi dramático e exagerado”.

Como, então, você pode ajudar um amigo ou amiga que tem depressão, pânico, ansiedade, depressão bipolar, etc? Já adiantei que não há solução mágica, mas darei minha opinião individual: mostre que você está ali para dar apoio. Seja compreensivo. Nossa condição não nos dá licença para fazer besteiras e tratar ninguém mal, que fique claro. Mas compreenda que sentimos que somos um fardo para tudo e todos, que procuramos provas de que isso seja verdade o tempo todo não porque queremos, mas porque nossa mente prega peças em nós.

Por incapacidade de conversar e ser claro a respeito dos meus limites, creio ter perdido amizades e desgastado relações ao longo desses anos. Fico triste ao pensar nisso. No entanto, estou aprendendo a conversar com as pessoas importantes da minha vida. E isso ajuda a diminuir o isolamento e a reconstruir minha autoconfiança.

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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COMENTÁRIOS

  • Érica

    Bom saber como apoiar ao invés de ser mais um fardo pra pessoa. Tô gostando de acompanhar os artigos!

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