O que aprendi meditando por oito semanas

  • Diogo Rodriguez
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No final de 2017, li “Full Catastrophe Living” (“Viver a Catástrofe Total”), de Jon Kabat-Zinn, professor de medicina e criador do método MBSR (mindfulness based stress reduction). Trata-se de um programa de oito semanas oferecido desde 1979 na Universidade do Massachussetts.

O programa consiste em um treinamento intenso em diferentes métodos de meditação. O objetivo, segundo Kabat-Zinn, é ensinar aos pacientes “como cuidar de si mesmos, não para substituir seu tratamento médico, mas como um complemento vital a ele”. Geralmente, os participantes são pessoas com sintomas de depressão, estresse pós-traumático e dores intensas, causadas por condições como artrose, lesões ou tratamentos contra o câncer.

Segundo o médico, o programa é “um veículo para o aprendizado ativo, no qual as pessoas podem construir a partir dos pontos fortes que já possuem e (…) fazer algo para si mesmas para melhorar a saúde e o bem-estar, tanto físico quanto fisiológico”. A base disso tudo é, claro, a meditação.

A meditação está na moda atualmente. Em livrarias, lojas de apps e até em companhias aéreas, o tal do “mindfulness” aparece com uma solução simples e eficaz para lidar com a vida. Mas o que é isso? “Dito de maneira simples, mindfulness é consciência sem julgamento, instante a instante”, define Kabat-Zinn. Existem dezenas de outras definições possíveis e igualmente aceitáveis. A meu ver, a dada pelo dito “pai do mindfulness” é a mais simples e mais facilmente aplicável ao senso comum.

Explico: existem muitas concepções erradas a respeito da meditação.

Uma parte disse se deve às raízes religiosas da prática, encontrada no budismo, hinduísmo, jainismo e até no cristianismo. Obviamente que, para quem tem fé, a meditação é um instrumento inseparável da religiosidade e seus ensinamentos. Porém, a prática “secular” da meditação existe e hoje está bastante desenvolvida.

O programa MBSR de Kabat-Zinn é o exemplo mais conhecido, mas existem outros. Existem pesquisas sérias atestando diversos benefícios à prática. Muitas limitações científicas ainda têm de ser ultrapassadas, sem dúvida, mas a meditação não pode mais ser considerada uma simples crendice. Não vou me estender no assunto aqui, mas quem se interessar por esses dados pode consultar “A Ciência da Meditação”, de Richard Davidson e Daniel Goleman.

Outra ideia equivocada é de ordem prática. Muita gente acha que meditar é “esvaziar a mente”. Eu mesmo já duvidei da minha capacidade de meditar por achar que esvaziar a mente é impossível. E é mesmo. A questão é que meditar é justamente o contrário disso. Meditar é olhar a mente de frente, sem tentar mudá-la, melhorá-la, piorá-la, sem qualificar os pensamentos. É dar menos poder para aquela voz que narra a nossa vida, nem que seja por alguns minutos. Simples e difícil. Mas muito produtivo.

A ideia deste artigo não é ensinar ninguém a meditar. Não redigi instruções para quem deseja começar a praticar. Meu objetivo é compartilhar o aprendizado precioso que tive seguindo o programa de Kabat-Zinn por meio do livro “Full Catastrophe Living” e do CD de meditações guiadas recomendado. Se você deseja se iniciar na meditação, recomendo que leia algum dos livros desse autor ou procure um centro especializado em meditação.

Acredito que as pequenas lições a seguir podem incentivar aqueles que já ouviram falar do assunto, mas nunca tiveram coragem de experimentar a prática a começarem. E pode também servir de reforço para quem já pratica e está encontrando dificuldades para se manter motivado.

E vale sempre o reforço: meditação é complementar ao tratamento com psicológico e psiquiátrico. Ela não substitui remédios e a terapia.

Minha capacidade de ficar quieto num canto é muito maior do que eu imaginava

Vejam bem, as sessões diárias de meditação do programa duram 45 minutos! Um tempo inteiro de um jogo de futebol. Eu já havia meditado antes, mas nunca mais do que 10 minutos. Quando vi que teria de passar o quádruplo do tempo me concentrando, pensei em desistir. De verdade. Não achei que seria capaz. Mas, aos trancos e barrancos, cumpri à risca (com exceção de um dia) o determinado. Outro fator essencial é seguir as meditações guiadas em áudio. Seria muito difícil para iniciantes conseguir ficar tanto tempo meditando sem algum tipo de ajuda.

Meditar quase nunca é gostoso

Uma das lições mais importantes do livro e da minha experiência de oito semanas foi: não importa como você esteja se sentindo; vá lá e faça. Se você pensa que todo dia vai sair da sessão se sentindo leve com uma pluma, está redondamente enganado. Como eu disse, meditar é olhar para a mente. Quando ela está agitada, a meditação vai ter de lidar com isso. Quando está tomada por tristeza, a meditação vai girar em torno da tristeza. São raros os dias em que você se sente “zen”. Mas isso não quer dizer que esteja meditando da maneira errada ou que não esteja funcionando. O objetivo da meditação diária não é, como eu disse, esvaziar a mente.

Conviver com os pensamentos é melhor que fugir deles

Aprender a observar a nossa mente acaba nos dando a chance de olhar para ela com mais calma. Em vez de fugir daquelas coisas que parecem assustadoras, aprendemos a apenas perceber sua existência. Todo mundo tem um “time” de pensamentos que são capazes de desencadear uma onda de pânico — às vezes no sentido literal. Quando você está praticando meditação, você aprende que pensamentos são apenas pensamentos, não são reais. Um pensamento não vai te machucar sozinho. O objetivo de meditar é impedir que nossa mente entre numa espiral infinita de ruminações e nos torne escravos do medo, da ansiedade e da depressão. Por mais contra-intuitivo que pareça, o melhor jeito de diminuir a potência dessas coisas ruins é admitir que existem.

Precisamos entrar em contato com nossos corpos

Uma das práticas mais importantes do MBSR é o body scan, que em português pode ser chamada de varredura corporal. Trata-se de um método que nos leva a focar nas diferentes partes do corpo e nas sensações em cada uma. No começo, foi muito difícil fazer esse exercício. Não estou acostumado a ter consciência corporal. Parecia que cada etapa (dedos dos pés, sola, calcanhar, batata da perna, coxa, joelho e assim vai) era um suplício. Em vez de me acalmar, ficava mais ansioso. Sentia que meu corpo queimava. Não tem nada de anormal nisso. Estamos desligados de nossos corpos. Temos poucos momentos para investigar e sentir as sensações corporais. Aprendi a gostar da varredura corporal. Foi o método que escolhi usar quando havia a opção de eleger como seria a sessão de meditação do dia.

Arrumar tempo é mais fácil do que pensamos

Kabat-Zinn deixa claro que é preciso cumprir os 45 minutos diários com rigor de maneira ininterrupta. Quando li isso, fiquei ansioso e pensei que não haveria jeito de encaixar tanto tempo de “relaxamento” em meu dia. Sou jornalista empreendedor. Minha rotina é uma não-rotina. Como conseguiria? Ele mesmo admite que isso é difícil e que, às vezes, ele fica com o calendário um pouco apertado. A verdade é que, na maioria dos dias, nós poderíamos muito bem dedicar um pouco de tempo a atividades como meditação ou exercício físico. Só que estamos acostumados a trabalhar demais, a preencher o tempo com redes sociais, notícias, Netflix e outras coisas que poderiam ocupar porções menores do nosso dia.

A meditação cria uma distância entre você e os pensamentos

Mesmo nos dias mais difíceis, em que a ansiedade bate forte (e isso sempre vai acontecer), a prática faz a diferença. Aprende-se a olhar os medos, ansiedades e expectativas com uma certa distância, por mais que eles ainda tenham efeito sobre nós. Vejam bem, você não fica “frio”, “distante” ou “fora do ar”. Mas antes de entrar em crise com algo, fica treinado para reconhecer o que está prestes a acontecer. Às vezes, consegue até evitar. É uma forma de ficar mais íntimo de si mesmo e não se levar tão a sério. É libertador.

É possível ser mais gentil consigo mesmo — e com os outros

Quando você aprende a não julgar nem qualificar seus pensamentos o tempo todo, percebe quanto tempo e quanta energia gastamos nos cobrando, censurando, brigando com nós mesmos. É surreal. Tive diversos momentos de insight durante e depois das sessões, nos quais me perguntei: por que estou me torturando tanto por causa de algo tão pequeno? Por isso, passei a notar mais quando eu entro num loop de preocupações que não servem para absolutamente nada. Quando você se faz essa gentileza, libera espaço na “memória RAM” para prestar mais atenção aos outros. E começa a perceber pequenas coisas, se sente mais à vontade para se aproximar das pessoas, para tentar se colocar no lugar delas. Vejam bem, não virei nenhuma espécie de Madre Teresa. Mas parei de brigar tanto com o mundo. Na verdade, passei a ter brigas melhores e mais produtivas comigo mesmo e com o mundo.

 

Meditação não resolve os problemas de ninguém

Mas ajuda a lidar com eles. Não se trata de passe de mágica, de milagre, nada disso. Trata-se de um exercício, de uma prática. Para sentir algum tipo de “resultado”, é preciso sentar a bunda na cadeira e seguir as instruções. É preciso ter paciência e não esperar resultados imediatos. Meditar é como estudar. Conhecimento só se constrói com dedicação. Não adianta ler o resumo de um livro do Platão. É essencial ler o original. Para que a gente aprenda alguma coisa, precisamos criar um repertório, ler muito, refletir, pensar, errar. Quando você toma atalhos, compromete a qualidade do que está tentando construir.

Epílogo

Passei por essa experiência faz mais de um ano. Meu desafio tem sido incorporar a prática à rotina sem a “ajuda” de Jon Kabat-Zinn. Claro que sempre posso revisitar os áudios e fazer a varredura corporal, a meditação sentado ou algum dos exercícios de ioga recomendados por ele. Mas já sinto a dureza que é encaixar essa prática no dia a dia. E lidar, claro, com a auto-sabotagem. Mas pretendo continuar tentando. Quem sabe até eu não comece o programa de novo do zero. O importante é nunca parar de tentar.

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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