O poder transformador da alegria

  • Tiago Belotte
  • FOTOGRAFIA: Jonathan Sebastião | Unsplash

Precisamos muito desse sentimento que nos salva e é uma excelente janela para o aprendizado.

Amo séries. Assisto mais de uma ao mesmo tempo e sofro com o final de temporadas. Já acompanhei produções durante décadas. De todos os tipos, de diversas nacionalidades e infinitas temáticas. Só um tipo de série não me pegava – as de comédia. Especialmente sitcoms, que são o tipo que faz graça com o cotidiano. Depois de Friends, nunca mais me comprometi com nenhuma. Até tentei, mas não conseguia gostar tanto. Até chegar a pandemia.

Ano passado o trabalho me consumiu bastante. O home office se mostrou excelente em não nos permitir parar de trabalhar e eu estava ficando exausto, sem conseguir desligar por nenhum minuto durante o dia. Tentei meditação e nada. Tentei leitura e não deu muito certo. Até que pensei em uma alternativa improvável: assistir a um episódio de uma série que me distraísse um pouco. Nem me lembro como cheguei em Schitt’s Creek, só sei que ela se tornou a companhia perfeita para o café. Durante vinte e poucos minutos eu conseguia mergulhar na história, rir e descansar um pouco a mente.

De lá para cá, assisti os mais de 80 episódios das 6 temporadas. E para minha tristeza, cheguei ao último episódio. Quando comecei a ver a série, jamais imaginei que a história de uma família rica se mudando para uma cidadezinha no interior dos EUA, após perder tudo, seria tão marcante para mim. Não só para mim, mas para os milhões de fãs ao redor do mundo. E para a industria do entretenimento, que só na última temporada descobriu Schitt’s Creek, mas ainda a tempo de coroar a produção canadense com sete Emmys, um recorde para séries do gênero.

alegria

Crédito: Allef Vinicius | Unsplash

Alegria é coisa difícil de se conseguir

Cameron Crowe, diretor da produção, em entrevista a um documentário especial lançado após a última temporada, falou algo que, na minha opinião, mostrou o quanto Schitt’s Creek é inspiradora na forma e no conteúdo. Segundo Cameron, a série em síntese é alegria, e alegria é a coisa mais difícil de acertar. Também é a coisa mais fácil de não dar valor, mas a mais difícil de se conseguir também. E, para mim, fez todo sentido.

Não é só em produções audiovisuais que alegria é difícil de se conseguir. Num momento como o que vivemos, é quase rara. Somos bombardeados por notícias tristes e por demandas. Falta tempo para sorrir e achamos que isso é banal. Não é. Alegria é um sentimento com potencial de transformação. A neurociência já comprovou através de diversas pesquisas a correlação entre o humor, a memória e aprendizagem. Quando estamos bem-humorados nossa capacidade de reter informação aumenta. Ou seja, a alegria é uma excelente janela para o aprendizado.

Aprender pode ser leve

Daniel Levy – autor, roteirista e ator de Schitt’s Creek – parecia saber disso. A série trata de temas importantes para os dias de hoje. No entanto, eles nos chegam por um outro caminho, o caminho da leveza, da graça que faz rir, faz chorar e também nos convida gentilmente a pensar. A pensar num mundo em que pessoas LGTQIA+, por exemplo, não precisam sofrer para nos conscientizar. Elas podem simplesmente viver suas vidas do jeito que deveria e poderia ser, de uma maneira saudável e comum. Daniel e os demais roteiristas propuseram durante seis temporadas que a audiência risse enquanto refletia ou refletisse enquanto ria.

Por isso, mesmo numa vida corrida e conturbada, que temos necessidade de ter alta performance o tempo todo, não pode nos faltar alegria. Momentos de contentamento que salvam nossa mente do foco excessivo, que nos resgatam no estresse. E que, ainda por cima, nos ajudam a aprender novos comportamentos que os habitantes da cidade fictícia  – que compartilha o nome com a série – já sabem. Pois o lema do lugar é exatamente o que o mundo real ainda precisa muito aprender: Schitt’s Creek, a cidade onde todos se encaixam.


TIAGO BELOTTE é fundador e curador de conhecimento no CoolHow – laboratório de educação corporativa que auxilia pessoas e negócios a se conectarem com as novas habilidades da Nova Economia. É também professor de pesquisa e análise de tendências na PUC Minas  e no Uni-BH. Seu Instagram é @tiago_belotte. Escreve nesta coluna semanalmente, aos sábados.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 236, outubro de 2021 COMPRAR

TAMBÉM QUERO COMENTAR

 

Campos obrigatórios*