O poder da simplicidade nas nossas vidas

  • Clô Azevedo
  • FOTOGRAFIA: Unsplash

A simplicidade pode ser algo natural. Quando a encaramos como parte da nossa essência, encontramos um caminho mais fácil para o que queremos e necessitamos sem precisar nos esforçar tanto para abrir espaço para receber coisas boas em nossas vidas.


 

Eu adoro visitar minha madrinha. Estar em sua casa me faz refletir. Existe espaço entre os móveis. Nada é acomodado de maneira empilhada. As prateleiras tem lugares vazios. Para mais livros. Na casa dela tem espaço para ganhar presentes, receber convidados e, principalmente, para a chegada de novas possibilidades, porque se tem alguém que sabe simplificar a vida, é ela! Admiro essa sua capacidade.

Talvez ela tenha nascido com a habilidade de separar o básico do não importante. Talvez a mãe dela tivesse essa qualidade, ou a avó, como saber?! A evidência para mim é clara. Simplicidade herdada. Como uma receita de bolo ou uma forma de falar. A gente vê que vem de um lugar de carinho. De um lar já vivido assim.

 

O tempo de nossas vidas

A grande realidade é que muitos de nós não crescemos com essa facilidade para simplificar. Continua sendo um verbo confuso. Ambientes superlotados e agendas complicadas interferem em nossa capacidade de transformá-lo em ação. Observamos nossas casas e apartamentos onde talvez pudéssemos ter os melhores momentos de nossas vidas, porém, ironicamente, atraímos cada dia mais coisas e complicações em excesso. Como um imã.

E pensar em tudo o que fazemos em um dia. Tão cheio de afazeres. Preenchemos as horas até não haver espaço para mais nada. Dificultando encontrar tempo para muitas coisas. Exercícios físicos, refeições saudáveis, meditação, tempo com quem a gente ama ou para vislumbrar nossos sonhos.

A todo momento chegam e-mails e mensagens. Aquelas que desejamos e também as que não queremos. Listas intermináveis de coisas para fazer. Situações se acumulando. A dificuldade em dar uma reviravolta em tudo isso fica cada vez mais distante. Resistência diária.

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Cultivando a simplicidade

A única forma de escapar do contágio do excesso é cultivar a simplicidade. Entretanto, é uma pena que nosso entendimento cultural com relação a esse conceito possa ser tão mal compreendido.

Muita gente interpreta errado o fato de se ter uma vida mais simples. Acabam invocando visões de pobreza voluntária, subsistência, viver sem nada ou sem ninguém, ou fazem uma comparação errônea com algum cabeludo dos anos 60 que resolveu largar o sistema.

 

O que é simplicidade?

Para clarear um pouco essa confusão, trouxe aqui algumas reflexões sobre o que é simplicidade. Porém, vamos começar olhando primeiro para o que ela não é.

Simplicidade não é…

  • Nem pobreza e nem carência. Se você já experimentou essas coisas, sabe que alternar pagamentos de contas e correr atrás de boletos não simplificam a vida de ninguém.
  • Simplicidade não é a negação de si mesmo. Entenda que é a compaixão para consigo mesmo que proporciona um mundo de tempo e de espaço livres do caos.
  • Em contrapartida à crença popular, não é morrer de tédio. A alternativa para atividades incessantes e a avidez do consumo não é o vazio total. Muito pelo contrário, optar por esta jornada faz a gente experimentar a vida de uma forma muito mais plena do que tínhamos antes.
  • Não significa abrir mão do que se precisa. E sim, ter tudo que se faz necessário, adicionado da alegria de conseguir encontrar tudo o que realmente precisamos.

Simplicidade é…

  • Ter espaço para o inesperado. Numa vida simplificada, um desafio não previsto ou uma benção súbita, podem ser incorporados sem muitas dificuldades para ajustar todas as outras coisas que nos permeiam.
  • Estar presente nas situações e usufruir da vida. Significa ter um almoço memorável e com tempo suficiente com um amigo porque você não tentou tomar café da manhã com outro amigo. Viva o momento.
  • Saber discernir o essencial do não essencial. Mesmo disposto a viver de maneira simples, continuaremos a ter muitas posses e passatempos que não são essenciais a nossa sobrevivência, e nem a nosso bem estar espiritual. Quando optamos pela simplicidade, a diferença neste ponto é que você não vai confundi-los com necessidades.
  • Liberdade, acima de tudo. Para escolher o que quer em sua vida, não deixando entrar qualquer coisa que aparece. Liberdade para fazer o que queremos, porque já não temos mais tantos compromissos e obrigações do que podemos suportar.
  • E coragem! Para tirar a vida do nível do desejo e levá-la para o nível de nossas necessidades. Criar espaços vazios dentro e fora da gente nos enriquece de várias formas. Ao eliminar o desnecessário criamos vácuo, e assim a natureza trata imediatamente de preenchê-lo. Cabendo somente a nós decidir com o quê e quanto.

 

Leia todos os textos da coluna de Clô Azevedo em Vida Simples.


CLÔ AZEVEDO (@cloazevedo_designafetivo) é arquiteta e acredita que a casa é uma extensão das vidas que a habitam. Desenvolve projetos de design de interiores afetivos para conectar pessoas com suas histórias, inspirando a reinventar seu próprio espaço, morar bem e viver melhor. Seu site é designafetivo.com.

 

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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