O pior cego é aquele que não reflete sobre sua história

  • Adriana Drulla
  • FOTOGRAFIA: Keren Fedida | Unsplash

Para construir boas memórias, é importante entender o que nos aconteceu.

Nos anos 80, pesquisadores convidaram estudantes para uma pesquisa fascinante. Primeiro, maquiadores criaram lesões e cicatrizes falsas nos rostos dos voluntários. Depois, os pesquisadores observaram a interação desses estudantes com outras pessoas. Para os voluntários, os pesquisadores disseram que a intenção era medir a reação das pessoas à cicatriz.

Mas o que tornou o estudo genial foram duas alterações importantes nesse roteiro. Primeiro, os cientistas deram um espelho para que os sujeitos vissem as próprias cicatrizes. Eles puderam constatar que elas eram, de fato, chocantes. Em seguida, os maquiadores foram instruídos a remover a cicatriz sem que os voluntários soubessem. Como? Eles diziam que aplicariam um hidratante para a maquiagem não ressecar.

O que essa pesquisa fez, de forma brilhante, foi criar nos sujeitos uma expectativa impossível de se realizar. Eles esperavam que seus interlocutores tivessem aversão à cicatriz. Porém, isto era impossível, dado que a cicatriz foi removida.

Repulsa

O que estava em xeque, e em estudo, era a percepção dos voluntários acerca da reação das pessoas. Será que seriam capazes de perceber a realidade de forma objetiva, independente de suas expectativas? Ou será que a percepção da realidade seria distorcida pela fantasia?

Terminadas as conversas, os pesquisadores perguntaram aos voluntários se perceberam a reação aversiva das pessoas à cicatriz. A resposta foi: claro que sim. Revendo os vídeos das interações, os voluntários conseguiram até apontar quais atitudes eram prova de aversão. Por exemplo, se o interlocutor olhasse para outro ponto da sala em algum momento, eles rapidamente interpretavam aquela ação como sinal de repulsa.

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Crédito: Gregoire Bertaud | Unsplash

A conclusão dos cientistas é que, muitas vezes, vemos o que prevemos, apenas porque prevemos. Procuramos confirmar crenças pré-existentes e por isso interpretamos a realidade de forma enviesada. Na ciência, essa tendência humana – que também é universal – foi batizada de viés de confirmação.

Presos no passado

É impressionante que a expectativa seja capaz de alterar a nossa percepção sobre a realidade. É ainda mais impressionante que, muitas vezes, não tenhamos consciência sobre as expectativas que nos afetam. O psiquiatra e pesquisador Daniel Siegel, da Universidade da California em Los Angeles, define memória como um evento que aconteceu no passado, mas que molda o presente e que vai influenciar o futuro.

A explicação é simples. Queremos controlar o futuro, e para isso precisamos prevê-lo. Como? Procuramos antever as consequências de nossas experiências atuais. Para descobri-las, julgamos o presente à luz do que conhecemos – o nosso passado. Uma vez que encontramos qualquer semelhança, assumimos que são a mesma coisa. Passamos a esperar do presente algo similar àquilo que nos aconteceu.

Dupla memória

Siegel explica que temos dois tipos de memória. Memórias explícitas são aquelas que têm narrativas. Por exemplo, sabemos o que comemos no almoço e quem estava no último jantar em família. Memórias explícitas tem um “quem”, “porque”, “quando” e “onde”. Mas não associamos histórias a todas as memórias. Por exemplo, não construímos memórias explícitas antes dos 18 meses de vida. Até na idade adulta, algumas experiências são codificadas sem enredo. Por exemplo, em situações que envolvem muito estresse emocional ou até na embriaguez.

Isso significa que podemos não lembrar a história sobre o que nos aconteceu. Mesmo assim memorizamos partes importantes da experiência. Por exemplo, pode ser que você não se  lembre que passou mal após o décimo shot de tequila. Mas o seu cérebro — e, provavelmente, seus amigos — guardarão partes importantes deste evento.

Arquivos

Amigos à parte, o que acontece no seu cérebro é que elementos da experiência são guardados em um mesmo “arquivo”, que chamamos memória implícita. Ela pode conter 1) elementos perceptivos – por exemplo a imagem e o cheiro da tequila 2) emoções que você sentiu – como a repulsa 3) ações motoras – neste caso, regurgitar 4) memória corporal – por exemplo, o suadouro e as pontadas no estômago.

Ou seja, mesmo que você não se lembre dos fatos, na sua memória o cheiro e a imagem da tequila estarão associados ao nojo, suor e dor de estômago. E é por isso que, no futuro, sentir o cheiro da bebida já pode ser suficiente para causar-lhe náusea.

Memórias da infância

Segundo Siegel, quando encontramos no presente algo que remete à uma memória implícita, isso pode reativá-la por inteiro, fazendo você reviver novamente o seu passado. Por exemplo, o cheiro da tequila pode ser suficiente para ativar memórias corporais e emocionais que também estão associadas à bebida. O problema das memórias implícitas é que a ausência de narrativa não nos deixa saber que estamos lembrando de algo que ficou para trás. Então revivemos a dor do passado como se acontecesse no presente.

Exemplos comuns são as dores emocionais e experiências de infância. Imagine uma pessoa que sofreu quando criança porque os pais preferiam o irmão. Esta pessoa cresce e eventualmente tem seu próprio filho. Em certas circunstâncias, pode ser que este filho prefira que o pai escove seus dentes, e por exemplo ele pode dizer para a mãe “não quero a sua ajuda”.

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Crédito: Janko Ferlic | Unsplash-scaled.

Para esta pessoa, pode ser mais difícil tolerar tais situações. A preferência pelo outro foi associada à rejeição em sua memória implícita. É a dor da rejeição que esta mãe revive quando o filho prefere outro adulto.

Percepção

Experiências de infância também são importantes porque neste período formamos os nossos esquemas, ou modelos mentais. Esquemas podem ser entendidos como generalizações, ideias que estruturam nosso conhecimento sobre o mundo. Por exemplo, podemos encontrar diferentes animais com aspectos comuns e chamar todos pelo mesmo nome, cachorros. Ou então, se formos negligenciados ou rejeitados repetidas vezes podemos concluir algo sobre as pessoas: não são confiáveis. Ou então, se ouvimos muito sobre a nossa timidez, adicionamos essa característica à ideia sobre quem somos.

As pesquisas demonstram que nossos esquemas mentais afetam a nossa percepção de realidade, e a forma que direcionamos nossa atenção. A explicação é a mesma, buscamos informações que confirmem nossas ideias sobre o mundo. O tímido, por exemplo, passa a se perceber e agir de forma coerente com o rótulo, deixando de se arriscar socialmente. O que não pode confiar, não formará alianças de cooperação e troca. É a profecia que se autocumpre.

Conhece-te a ti mesmo

O viés de confirmação e os estudos sobre memória apontam na mesma direção – distorcemos a realidade para que ela se encaixe nas nossas expectativas. Acontece que construímos expectativas encontrando similaridades entre o presente e o passado. Quando encaixamos  nossas experiências em caixinhas pré-existentes, deixamos de conhecer a realidade como ela é. Ficamos presos em roteiros antigos que podem trazer muito mais dor do que alegria.

Para este enrosco, Siegel apresenta uma solução interessante. Para ele, nos libertamos do passado quando o conhecemos. É necessário entender como as nossas dores e traumas foram instalados, integrando nossas memórias implícitas em narrativas autobiográficas que fazem sentido.

Cuidar da emoção

Por exemplo, ao analisar a própria história, a pessoa que não tolera a preferência do filho por outros adultos pode perceber como o sentimento de rejeição teve início na própria infância  – quando seus pais preferiam o irmão. Localizar o problema ajuda entender que não faz sentido culpar a criança, nem acreditar nos pensamentos trágicos sobre um futuro adolescente revoltado. Neste caso, o mais produtivo é acolher e cuidar de suas emoções.

Sobre isto, Siegel nos conta que o mais afeta o relacionamento entre pais e filhos não é a gravidade das dores que os pais viveram na infância, mas como eles processaram aquilo que lhes aconteceu. Quando conseguimos localizar nossas dores no tempo e no espaço, fica mais fácil reconhecê-las e então tomar as rédeas do nosso futuro.


Adriana Drulla é Mestre em Psicologia Positiva pela Universidade da Pennsylvania (EUA) e pós graduada em Terapia Focada em Compaixão pela Universidade de Derby (Inglaterra), onde teve como mentores Martin Seligman, psicólogo fundador da psicologia positiva, e Paul Gilbert, psicólogo criador da Terapia Focada em Compaixão. Semanalmente fala sobre psicologia e mente compassiva no podcast Crescer Humano.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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