O mínimo que você precisa saber para manter a sanidade

  • Diogo Rodriguez

Não se trata, portanto, de “evoluir”, “transcender”, “transformar”, mas de criar o mínimo de estrutura para que possamos cuidar de nós mesmos

 

À esta altura, muito já se escreveu sobre o que podemos ou não podemos fazer, como organizar o dia de trabalho, como se divertir, fazer exercícios físicos, cozinhar e ficar feliz durante a pandemia do novo coronavírus. 

Na semana passada, falei sobre a necessidade de preservar nossa sanidade sem exigir de nós mesmos que transformemos a quarentena e o isolamento social em uma espécie de retiro espiritual da produtividade. 

Uma dúvida continuou na minha cabeça, no entanto: o que nós, pessoas com transtornos de saúde mental, temos que fazer? Qual é o mínimo que precisamos fazer para não piorar ainda mais nossas condições? Ansiosos crônicos e deprimidos já não lidam bem com projeções de futuro. Agora, então, quando parece que o fim do mundo está próximo, aposto que muitos companheiros e companheiras meus estão extra angustiados. 

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Ouvindo o podcast do jornalista Dan Harris, chamado Ten Percent Happier, fiquei conhecendo Luana Marques, PhD, professora de psiquiatria na Escola de Medicina de Harvard. No programa, ela falou de algumas estratégias simples que podemos usar para passar por essa pandemia sem sofrer mais do que o necessário. 

Vamos cuidar mais da gente

O campo da psicologia comportamental, ao qual a Dra. Luana Marques pertence, geralmente apresenta soluções comportamentais, claro, para transtornos de saúde mental. Ou seja, para lidar com algum tipo de problema, essa disciplina recomenda intervenções concretas, mudança de hábitos, etc. Existem diversas críticas a essa abordagem, embora já se saiba que ela possa ser muito efetiva especialmente no tratamento da depressão. 

O que me atraiu na fala da professora de Harvard foi justamente essa simplicidade. Entendo que num momento tenso e incerto como este é difícil gastar tempo e energia promovendo grandes mudanças de vida e chegando a epifanias a respeito das nossas mentes. Estamos em modo de sobrevivência. Por isso, creio que os conselhos dela possam ajudar a quem está com dificuldades de entender o que é possível fazer. 

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Não se trata, portanto, de “evoluir”, “transcender”, “transformar”, mas de criar o mínimo de estrutura para que possamos cuidar de nós mesmos, dos outros e seguir parcialmente com a vida. Leia a seguir a entrevista em áudio que fiz com a Dra. Luana Marques.

Entrevista com Dra. Luana Marques

Como devemos encarar esse momento que parece tão sombrio?

A primeira coisa é entender o que essa incerteza está fazendo no cérebro de todo mundo. Ele não mais acostumado a ter esse nível de incerteza. Quando há incertezas, o cérebro começa a procurar dados para achar uma forma de diminuir a dissonância cognitiva. O cérebro busca soluções e a verdade é que nós não a temos. A incerteza não só em relação a se vou pegar o vírus ou não, mas também em relação ao que vai acontecer na minha vida, como será a economia. As coisas estão mudando de minuto em minuto. 

A primeira coisa que falo para as pessoas é: seja tolerante com a incerteza e aceite que não vamos chegar à certeza amanhã. O que você pode fazer é: planejar. O que está dentro do seu controle? Com as coisas que você não pode fazer, é preciso criar uma flexibilidade mental para aceitar que você estará “confortavelmente desconfortável”. É assim que o mundo está. 

Que estratégias podemos usar para lidar melhor com a situação?

Estamos todos surfando uma onda muito grande. Uma dica é assumir o desconforto: entender que a gente tenta, biologicamente, não sentir qualquer ansiedade. Mas o problema é que quando estamos brigando com nossas emoções, elas aumentam. Então, uma opção é tolerar seu estado emocional e não tentar evitar as emoções. Uma forma de fazer isso é observando. Por exemplo, por meio da meditação. Mas também tentando perceber. 

A segunda coisa é olhar a realidade do que está acontecendo. Temos que pensar nela de duas formas: a primeira, por meio meio dos dados, da ciência. Olhar na internet dados da Organização Mundial da Saúde e de outras autoridades. É importante encarar os fatos, mas limitar o quanto você fica na internet porque isso aumenta a ansiedade. A outra coisa é se planejar um pouco para ter uma forma de se reajustar. Se você está trabalhando de casa, pensar no que você precisa, de que apoio. O que eu faço para mudar o meu dia a dia?

Outra coisa é trazer o cérebro para o momento presente. Os pensamentos de todo mundo está no futuro, na catástrofe, de que o pior vai acontecer. A gente sabe que a meditação, o mindfulness, ajudam a acalmar o cérebro. E todos os nossos cérebros precisam ser acalmados. Ancorar-se no presente ajuda muito. 

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O que pessoas que têm transtornos de saúde mental, como eu, podem fazer?

Primeiro, criar uma rotina. Além disso, é essencial fazer algo físico para ajudar a lidar com a ansiedade. Que seja um polichinelo, caminhar dentro de casa. Outra: prestar atenção à alimentação. Por último, prestar atenção às coisas que desencadeiam a ansiedade. Por exemplo, tentar limitar o tempo que você passa na internet vendo notícias. Em vez de ficar meia hora criando ansiedade, aproveitar para fazer outras coisas: conectar com a família, cozinhar. 

Quem já tem transtornos mentais é mais vulnerável. Um conselho é manter uma rede de apoio: ter um amigo para quem você possa ligar se estiver se sentindo mal. Ou quem sabe fazer uma ligação em vídeo e jantar junto com alguém. As pessoas com dificuldades vão sentir muito mais ansiedades. Com meus pacientes, por exemplo, mudei para teleconsultas e estou tentando acomodar o máximo de pessoas possível. 

Vemos uma grande quantidade de mentiras sendo espalhadas. Como as pessoas podem lidar com isso?

A maioria das pessoas não sabe discernir boas informações das más. As mentiras são, geralmente, disseminadas de uma forma sensacionalista. Isso causa um problema no cérebro porque está ativando o sistema límbico, a pessoa vai para o modo de fuga ou luta. Quanto mais ansioso, menos você tem a capacidade de processar dados de uma forma correta. Por isso, recomendo que as pessoas limitem o consumo de notícias e tentem se ancorar nas fontes de notícias que são confiáveis.

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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