O melhor bolo

  • Ana Holanda
  • FOTOGRAFIA: Lina Volkmann | Unsplash

O que torna algo saboroso talvez não tenha apenas a ver com os ingredientes, mas com a intenção que colocamos na comida.

Bolo para mim sempre foi a suave mistura de farinha, ovos, açúcar, que poderia vir acompanhado de chocolate (ou não), baunilha, limão, laranja e uma porção de outros complementos. Então, a primeira vez que ouvi falar de bolo sem farinha de trigo, sem ovos ou açúcar, torci o nariz. Foi na casa da minha mãe. Minha irmã havia feito uma versão de maçã e presenteado minha mãe com um pedaço. “Não tem açúcar”, sentenciou minha mãe, denunciando, pelo tom da voz, sua desconfiança com o doce.

Perguntei se estava bom e ela apenas insistiu para que eu comesse. Aqui, uma pausa se faz necessária. Meus pais sempre pediram que eu e meus irmãos, desde muito pequeninos, provássemos tudo. Tudo mesmo. Não podia dizer “não gosto” sem ter provado. Isso me trouxe muitas descobertas saborosas, como o quiabo com carne moída e o doce de casca de laranja. E outras não tão agradáveis assim.

Mas, voltando ao bolo, eu, obviamente, provei a versão “zero açúcar” do tal doce de maçã – minha mãe me ensinou a provar, afinal. A aparência não era apetitosa, mas segui em frente. Quando coloquei a primeira garfada na boca, tentei identificar o sabor. Havia maçã, era fato. Mas nem mesmo o sabor da maçã estava muito saboroso.

E havia mais uma porção de outros ingredientes que eu não sabia direito o que era. Disse a minha mãe que, sinceramente, não tinha gostado. Preferia os bolos tradicionais. Se era para restringir o açúcar, que ficasse sem comer doce. Mas bolo, para mim, tinha que ter farinha de trigo, ovos e açúcar como base. E, por conta disso, passei a ser mais rígida e criteriosa quando alguém me oferecia bolos e doces veganos.

Provar sem pré-conceitos

Até que essa semana, a Ju, minha cabeleireira, que tem sempre um sorriso no rosto e um papo delicioso, me contou, enquanto cuidava do meu cabelo, de um bolo de maçã e banana que tinha feito. “Ficou muito bom”, me contou. Ju adora cuidar de si, do corpo. Se exercita diariamente, presta atenção no que come, naquilo que lhe faz bem.

O bolo não levava farinha de trigo, nem ovos, tampouco açúcar. Mas ela insistia que era bom. Aceitei a opinião dela de bom grado. Enquanto eu também seguia cuidando de mim no salão, a Ju sumiu por alguns minutos. Ao reaparecer, olhou para mim e disse: “Já, já vai ter bolo de maçã com banana”.

Pois bem, ela tinha ido fazer o bolo rapidinho para que eu provasse. Esperei, claro. Bolo pronto, quentinho, café recém coado. Deixei meus pré-conceitos de lado e provei uma fatia. E estava bom. Talvez não seja o melhor bolo de maçã com banana da vida, mas estava saboroso. E o sabor, entendi, não vinha só dos ingredientes, mas da generosidade. Na hora de ir embora, ela ainda cortou uma fatia grossa, embalou e me deu: “para você comer mais tarde”.

Agradeci e sai de lá com muito mais do que entrei. Entendi que, muitas vezes, a gente se apega demais aos nossos conceitos, as nossas verdades. E isso nos tira a oportunidade de ir além. Hoje, eu diria que o melhor bolo não é aquele que leva farinha de trigo, ovos e açúcar, mas aquele servido com generosidade e amor.


Ana Holanda é diretora de conteúdo da Vida Simples, autora dos livros Minha Mãe Fazia e Como se Encontrar na Escrita, ambos da Rocco. Gosta de cozinhar e de escrever, sua maneira de estar no mundo e de lidar com seus sentimentos mais profundos. Escreve mensalmente nesta coluna.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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COMENTÁRIOS

  • Rafaela

    Querida Ana Holanda,
    Me chamo Rafaela e moro numa cidade da região Norte chamada Porto Velho, Ro. Há uns dias comprei seu um de seus livros: Como se encontrar na escrita – o caminho para despertar a escrita afetuosa em você. O qual me fez enxergar o quanto eu tava me degastando em aprender técnicas de escrita criativa e com isso esquecia o fundamental, escrever com coração. É um exercício diário de empatia, solidariedade, onde nosso coração está exposto a transformações. é nessa hora que a palavra coragem se faz presente, As palavras são intensamente mágicas e afetuosas. Por meio delas descobrimos mais a fundo sobre nós mesmos. Antes que eu esqueça, meu coração emotivo suspirava a cada página lida, tenho até a impressão de ter lido um livro de romance. O que de fato é! é seu, nosso. romance com a escrita afetuosa e como isso ainda afeta a vida das pessoas.

    Sobre o texto acima, saiba que me identifiquei. Sabe por que? minha mãe ama fazer bolos e a cada preparo da massa, o amor e carinho são despejados e misturados junto aos ingredientes enquanto ela mexe, mexe. Já na intenção de servir essa delicia com amor e carinho. Para mim, essas palavrinhas são fundamentais no preparo de qualquer prato. Beijos no seu afetuoso coração e já desejo FELIZ NATAL E FELIZ ANO NOVO para vc e para sua família. 😍

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    • Vida Simples

      Oi, Rafaela! Obrigada por seu comentário 🙂

      Ficamos todos tocados por aqui. Que a escrita da Ana continue lhe tocando e transformando suas emoções em palavras igualmente lindas e afetuosas.

      Forte abraço!

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  • Rafaela

    Com um sorriso de orelha a orelha, coração errando as batidas, mãos juntinhas entre os seios e suspirando como uma adolescente lendo uma declaração de amor. É exatamente assim que eu me senti e AINDA me sinto. kkkkk Sabe o que me fez a isso, Ana Holanda? seu delicioso livro Como se encontrar na escrita. Foi e é paixão logo nas primeiras linhas! como me senti abraçada por ler uma das obras de alguém que possui junto comigo: amor pelas palavras e a certeza que elas tem poder de acolher, abraçar as pessoas quando se escreve com todo o coração. O livro mencionado pode e DEVE ser considerado uma carta de amor, afinal de contas… Seu livro jorra muito amor e muito afeto em cada página, desde o inicio ao fim.

    Minha mente estava tão focada em aprender técnicas e mais técnicas para criar um livro bacana e que viesse a ser publicado. Infelizmente meu jeito de ser emotivo esqueceu do mais importante: as emoções. Como diz o personagem Quico do clássico seriado Chaves ”Que coisa não?”. Terminada a cativante leitura, eu decidi confiar muito mais em meu coração afetuoso do que nas fórmulas existentes.

    Beijos a vc e um lindo feliz natal a vc e a sua família

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    • Vida Simples

      Nossa, Rafaela! Que delícia de comentário. Nos sentimos igualmente abraçadas por suas palavras. Vamos transmitir seu comentário à Ana Holanda 🙂

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      • Rafaela

        Fico feliz em saber que se sentiram abraçados por minhas palavras e sou eternamente grata por transmiti-lo a Ana Holanda

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        • Vida Simples

          Agradecemos muito. Nosso conteúdo se faz assim: juntinhos 🙂

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