O medo da insignificância

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Tadamichi | IStock

Perseguir modelos (exteriores) de viver — de prestígio e posses — é fonte de frustração e angústia.

A humanidade tem um longo caminho percorrido. Em tempos remotos, vivíamos em pequenos grupos com pessoas de diferentes idades e ofícios. A diversidade inibia comparações. Nas cidades modernas, onde há mais iguais, os níveis de comparações são maiores. Com mais frequência, somos confrontados com o prestígio, a beleza, a riqueza e o status dos outros. Porém, na nossa história evolutiva de homo sapiens, hoje temos um novo capítulo: o de homo globalis. É o fim da distância estabelecida pela geografia. E o que isso traz de novo? Esse mundo global põe em relevo só os bons, os bem-sucedidos, os bem-amados.

A tendência é que todos — e cada um — façam comparações com quem está no topo. Um exercício injusto que só faz aumentar os nossos níveis de angústia. É claro que sempre houve a percepção de que há pessoas ricas, corpos perfeitos e gênios em todas as áreas — do conhecimento às artes. Contudo, a globalização apregoa que nós podemos ser como eles. Aliás, podemos tudo, basta querer. É a personificação do oco “querer é poder”. Talvez você não tenha muita consciência disso porque essa mensagem está diluída. Às vezes, velada, sutil.

Você pode?

Filósofos contemporâneos, como Bauman, têm estudado com afinco o fenômeno. E a marca líder no mercado de tênis, a Nike — com o seu slogan Just do it (“simplesmente, faça”, numa tradução livre) — tem sido citada como reveladora dessa tendência. O ex-presidente Barak Obama, no seu histórico discurso de posse, reforçou o “sim, você pode!” (Yes, you can). Ficou oficial: se eu posso, você pode… basta querer.

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Sasun Bughdaryan | Unsplash

Entretanto, todos os dias, esse mesmo mundo mostra que não é bem assim. O dinheiro é escasso. Não somos tão bonitos. O nosso corpo não é perfeito. Não somos amados como gostaríamos. A nossa profissão não é valorizada. E que, enfim, a nossa casa está longe das imagens mostradas nas revistas de decoração. Definitivamente, estamos mesmo longe do topo.

Vida que temos

E quando estendemos as nossas mãos nuas, esse mesmo mundo diz que a culpa é nossa. Afinal, as livrarias estão abarrotadas de “como fazer”, de fórmulas para ser rico, bem-sucedido e famoso. Basta seguir a receita. Eu já mencionei aqui os males do excesso de positivismo. Muitos acham a meritocracia linda. Ex-libris do capitalismo, ela apregoa que o estudo e o trabalho árduo são as chaves para se ser merecedor do topo.

E todos festejam porque dá uma ideia de equidade, justiça para todos. Depende do esforço de cada um. Você não precisa vir de uma família rica ou ter amigos influentes ou depender da sorte. Basta se dedicar. Porém, o que não se fala é sobre a outra face — bem perversa — da meritocracia. Primeiramente, não há lugar para todos. Há muito mais candidatos do que vagas, muitos ficam de fora. E o que a meritocracia diz: se você não chegou no topo é porque não merece. Se você não tem um emprego de sonho, o carro do ano, não é amado… a culpa é sua. Esse modelo diz que a pobreza não é apenas desagradável, ela é merecida.

Como se libertar

Há muitos teóricos que denunciam esse mal-estar contemporâneo. Antes de mais nada, o que não se diz, o que não se sabe, é como desmontar essas crenças que são reforçadas e reafirmadas todos os dias — vale dizer que o slogan da Nike é de 1988. O que fazer? Primeiramente, uma possível saída talvez seja desenvolver o pensamento crítico. Impedir de sermos alvo dessas mensagens nocivas. Não podemos aceitar que denigram profissões respeitáveis e fundamentais para a sociedade. Não podemos aceitar que estamos condenados a viver sob visões de mundo que não elegemos. E, sobretudo, devemos valorizar a vida ordinária em detrimento da vida extraordinária. Devemos amar a nossa vida comum, a nossa profissão comum, sob pena de não termos vida nenhuma. Precisamos parar de achar que a nossa vida precisa de um roteirista de Hollywood.

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Bertrand Bouchez | Unsplash

E se a propaganda for muito mais forte do que nós, ainda podemos nos ausentar — por razões estratégias. E já há muitos a fazer exatamente isso. Há quem tenha abolido canais de televisão nocivos. Há quem tenha simplesmente desistido da televisão. E, finalmente, alguns já abandonaram as redes sociais e suas “vitrines invejáveis”.

Vista da colina

Uma ressignificação interna também pode ser uma saída. Tome as rédeas da sua vida e construa a sua própria definição de sucesso e insignificância. E assimile que as suas realizações externas não necessariamente te definem. Faça o exercício de sair da manada e olhar ela de longe, da mais alta colina.

Cabe tomar medidas drásticas? Cabe. Radicais e corajosos partiram para essa fuga mais contundente. Mudaram para pequenas comunidades. Optarem pela vida em que cada um tem o seu papel e é louvado por isso. Disseram não à vida sob julgamento e humilhação. Escaparam do estilo de vida que busca grandes empregos e carros de luxo. Optaram por lugares que permitem o luxo de não olhar para uma pessoa através das lentes da sua profissão ou do seu prestígio. E é sem filtros mesmo. Vê-se apenas a pessoa que se é. Vê-se apenas a beleza e a riqueza de um ser humano, um exemplar único.


Margot Cardoso (@margotcardosoé jornalista e mestre em filosofia. Mora em Portugal há 18 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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