O mal do pensamento positivo

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Yuris Alhumaydy | Unsplash

Há muito que se sabe que as pessoas que externam positividade são as que mais precisam dela. Longe de figurar na lista das contradições humanas, o comportamento está na categoria da autocura, o ensinamento de que se cultiva aquilo que se necessita. Mas depois de ler a Sociedade do Cansaço, obra do sul-coreano radicado na Alemanha, Byung-chul Han, entendi que o problema é muito mais grave.

Filósofo da sociedade moderna e um dos mais reconhecidos dissecadores dos males que acometem o homem, Han afirma que por conta da pressão do sistema econômico global focado em lucros crescentes, chegamos ao reino da competência e da alta performance. Uma condição que o filósofo chama de Sociedade do Desempenho. A alta performance está em todas as esferas e é visível nas nossas estruturas físicas: academias de fitness, edifícios inteligentes, bancos online, aeroportos sustentáveis, shopping centers e laboratórios de genética.

Porém, toda essa estrutura demanda alguém para sustentá-la. A sociedade do desempenho precisa de você para se manter de pé. Escolas técnicas e universidades formam trabalhadores, MBA´s treinam especialistas e uma máquina de marketing incentiva a caminhada para cima. Estamos no reino da positividade: há receitas para uma vida bem-sucedida; conselhos de gurus iluminados, palestras motivacionais; estímulos para o sucesso profissional.

As lições da autoajuda estão disseminadas em todo o globo. Sabemos o que é preciso ser feito. Temos de ser positivos, produtivos (competentes), empreendedores (pró-ativos), inovadores (criativos)…  Ah! Mas não é muita coisa? Claro que não. Usamos apenas 20% da nossa capacidade cerebral, ainda podemos muito mais… A romantização do trabalho árduo e a sensação do dever cumprido fazem o resto. Estamos completamente exaustos, no limite das forças, mas achamos que estamos no caminho certo.

Ocorre que este ritmo está adoecendo o homem. E esta é a grande denúncia de Han. Para ele, todas as épocas têm seus males. Houve o tempo das doenças bacterianas, depois as virais. Com o desenvolvimento da ciência — a descoberta do sistema imunitário e os antibióticos — passou-se para a fase seguinte.  Agora, século XXI, por conta do excesso de positivismo, no panorama patológico estão as doenças neuronais, como a depressão, o Alzheimer, o transtorno de deficit de atenção e hiperatividade, transtornos de personalidade (bipolaridade e borderline), anorexias, Síndrome de Burnout (estado físico, emocional e mental de exaustão extrema).

Para ele, o excesso de pensamento positivo — e a disposição para ver só o lado bom de tudo — está imputando ao homem males incuráveis. Não estamos mais diante da negatividade, de um agente agressor como um vírus ou uma bactéria. Não há um agente negativo que o nosso sistema imunológico detecta e tenta combater. O agente agressor somos nós mesmos. A causa da doença, a violência neuronal, é feita por nós e para nós. É uma autoagressão. A pessoa cobra-se cada vez mais para apresentar melhores resultados, tornando-se, ela própria vigilante e carrasca de suas ações. Ela explora a si mesma — submete-se a trabalhar mais e a receber menos — e acha que está se realizando.

E é por essa razão que há números recordes de males neuronais, como depressão, transtornos de personalidade e doenças autoagressivas, como as compulsões e os transtornos alimentares. Na sociedade do desempenho todas as atividades humanas entram para o saco da eficiência, o que torna o homem hiperativo e hiperneurótico.

Para quem rebate que vivemos numa sociedade melhor,  em comparação com o regime de repressão e obediência — comum nas ditaduras — Han não concorda. Para ele, a sociedade positiva é muito pior, porque é difícil combatê-la. Ela vem numa embalagem de motivação. Achamos que ela é boa, que ajuda. Não identificamos a “motivação”, o “pensar positivo” como  algo nocivo e, por isso, não a combatemos. As redes sociais estão repletas de frases motivadoras; gurus e influenciadores gritam “não desista, não recue”; as livrarias trazem técnicas de performance e biografias de vencedores. E aceitamos tudo porque pensamos que é o melhor para nós.

Os estímulos são importantes e tem um papel. O problema é o excesso. Quando eles ultrapassam os limites e passamos a nos comportar como hamsters que correm na roda. Trabalhamos arduamente, fazemos cursos de especialização, cuidamos do corpo, do  nosso espaço, levamos os nossos filhos para cursos disso e daquilo (eles também precisam) e não atingimos os objetivos. Apesar do cansaço extremo e da frustração achamos que não estamos nos empenhando o suficiente — a culpa é nossa — e continuamos a arrastar o fardo.

O que está errado, o que o positivismo não ensina, são os limites. O trabalho extenuante não é garantia de carreira bem-sucedida. É o contrário. Férias de 30 dias ou mesmo um ano sabático pode fazer muito mais pela sua carreira do que dedicação exclusiva e em tempo integral. Profissionais que trabalham sob pressão e com responsabilidades diárias, como médicos, enfermeiros, professores, policiais, jornalistas, dentre outros — e que ainda tem excesso de trabalho — são candidatos a Burnout, também chamada de síndrome do esgotamento profissional.

E se você tem orgulho de se intitular workaholic porque passa a ideia de competência, já é consenso entre os especialistas de que adaptação ao trabalho em excesso também pode ser um sintoma  da depressão. A crença de que quem sofre de depressão está sempre desanimado e sem energia não é verdadeira. A depressão tem muitas caras e uma delas é o vício em trabalho.

E quando o mal está instalado, o positivismo e as dicas de autoajuda aceleram a descida para o fundo. Recomendar a uma pessoa com depressão que ela tem de se animar é uma agressão. Porém, não há o que fazer, o positivismo está em toda parte e não é possível destruí-lo. Mas dá para amortecer os seus golpes. Seja crítico e questione o pensamento vigente. Se possível, vá às mesmas fontes: nas livrarias procure obras que falam sobre as alegrias da imperfeição, os benefícios do fracasso.

Essas abordagens funcionam como uma vacina e ajudam a assentarmos os pés na terra. O tédio, a solidão, a introspecção e a contemplação viraram os grandes vilões da sociedade positiva. Eles não são. Trago-os para a sua vida. Assuma: hoje não vou fazer nada. Encerre o seu dia de trabalho uma hora a menos do que o habitual e use essa hora como um bônus para uma caminhada sem destino pelas ruas. Separe momentos do seu dia para refletir, pensar, abstrair. Dê-se tempo livre, reserve momentos para não fazer nada produtivo.

Descanse. Desligue-se do mundo de vez em quando. A obsessão em ter todas as horas do dia preenchidas, saber tudo o que acontece, ter o controle de tudo, aumentam os níveis de ansiedade, sobrecarregam a mente e trazem um enorme cansaço para a vida.

Margot Cardoso (@margotcardosoé jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 

 


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COMENTÁRIOS

  • Carolina

    Que necessário e maravilhoso!

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  • Isa Ferreira

    Adorei o tema. Pouco falado, mas muito importante!

    Responder
  • LUELI MARIA

    Verdade. É uma corrida incessante não te deixam ser e fazer o que você quer. É uma autocobrança terrível mesmo, sinto isso…tem que ser, tem que fazer, corre atrás, não desanime…ufaaa
    Muito bom texto para refletirmos, nunca havia pensado nessa sociedade do desempenho.
    bjs

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  • MARIA OLINEIDE PRAXEDES DA SILVA

    Somos cobrados excessivamente, em tudo que fazemos. Por isso, temos que lê essa reflexão e pô em prática. Trabalhar para viver e não para morrer.

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