O lado “B” do sofrimento

  • Ana Paula Puga

Achar o lado bom do sofrimento não é ficar no campo da abstração, mas é ser capaz de perceber o que de concreto positivamente mudou

 

Você lê esse título e talvez se pergunte: “Ué, e desde quando sofrimento tem lado A ou B? Sofrimento é sofrimento”. Permita-me explicar. Um luto pelo falecimento de alguém muito amado e querido. A perda de um emprego. A falência de um negócio. Uma separação. Um diagnóstico de uma doença grave. A notícia de que ela é incurável.

Desgosto. Abalo. Adversidade. Dor. Desprazer. Choque. Padecimento. Todas essas emoções e sensações que naturalmente surgem, inegavelmente, em situações reais como estas acima. Estas situações reais e suas imediatas emoções e sensações, são o que chamo de lado “A”. Esta letra, portanto, vem de automático. Diante de um sofrimento é automático sentirmos algum tipo de dor. Passamos muito tempo de nossa vida num fluxo de movimentos onde o objetivo é ou obter prazer ou evitar a dor. Aí é que pode estar o problema: nem sempre conseguimos evitar a dor! Nem sempre controlamos as variáveis daquela situação e a tentativa de evitar a dor pode ser em vão. Então, mais dor.

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Escolher olhar só para o lado “A” do sofrimento é exatamente isso: permanecer nesse ciclo de busca de prazer ou evitação de dor. Isso pode ser ineficaz, inadequado.  Pode te prender nesse sofrimento ou ainda gerar mais e mais. A palavra escolha na primeira linha deste parágrafo não foi colocada à toa. Isso porque o primeiro passo é você escolher se fica com o lado A ou se parte para o lado B. E se acaso você até hoje não tenha feito esse movimento por desconhecer essa opção, que tal tentar?

O lado “B”

Há alguns anos eu entrei num período muito ruim de trabalho. Talvez o pior de toda a minha vida profissional. Não recebia convites para palestras. Não tinha propostas aprovadas. Os parceiros ligavam e diziam: “Temos uma necessidade aqui e você é a pessoa ideal, porém estamos sem verba nesse momento”. Olhava para mim e procurava possíveis falhas, onde eu poderia estar aquém dos meus concorrentes, onde estariam as oportunidades e meu olhar falho não enxergava. O tempo passava e eu só mergulhava em desesperança, tristeza, autocobrança. Foi então que olhei para toda aquela situação, para minha vida como um todo e não apenas para essa parte. Um olhar contínuo, constante, que ampliava depois voltava a focar. Ora amplo, ora específico.

Senti-me convidada a fazer novas perguntas a partir desta nova forma de olhar. E essas novas perguntas me conduziam para respostas que já não eram como as primeiras, eram mais otimistas, realistas, encorajadoras. Me levavam para uma Ana potente sim, porém que estava colocando essa potência a serviço de outras demandas, de outras pessoas. A partir daquelas adversidades profissionais produzi como nunca antes havia produzido, criei alternativas como antes nunca havia criado.

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Viktor Frankl, em seu livro ‘Em busca de sentido’ diz: “Essa é a razão por que o ser humano está pronto para sofrer, sob a condição, é claro, de que seu sofrimento tenha um sentido”. E esse é o lado “B” do sofrimento. O lado bom. O lado do sentido. Achar o lado bom do sofrimento não é ficar no campo da abstração, mas é ser capaz de perceber o que de concreto positivamente mudou.

É ser capaz de perceber o que você fez a partir dele – desse sofrimento – para convertê-lo em uma conquista humana. O sofrimento nos convida a mudarmos a nós próprios!

Tire o foco do lado A

Você, certamente, pode questionar o sofrimento de um modo diferente. Pergunte-se: o que passei a fazer melhor a partir desta situação? Quais são os prós e contras disto tudo? O que tenho ganho e o que tenho perdido por ter passado ou estar passando por esta situação? O que eu ganharia e o que eu perderia se não tivesse passado por isso? Faça essas ponderações.

Encerro com mais uma citação de Frankl, com o objetivo de animar você a tirar o hiper foco no lado “A” desse sofrimento aí que está enfrentando, e então olhar para um novo lado, para o lado “B”, o lado bom.

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“O que importa, então, é dar testemunho do potencial especificamente humano no que ele tem de mais elevado e que consiste em transformar tragédia num triunfo pessoal”.

Abraço fraterno.

 

Ana Paula Puga é psicóloga, autora de dois livros, educadora parental, coach e conselheira positiva. Também é casada e mãe de três crianças. Seu Instagram é @ana_paula_puga

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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