O “eu penso” pede  permissão para sentir

  • Margot Cardoso
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Há alguns anos, o assunto da moda era a inteligência emocional. Falava-se em autoconhecimento, empatia, autocontrole e sociabilidade como os pilares das pessoas emocionalmente inteligentes. Talvez pela adesão imediata do mundo corporativo, o conceito de inteligência emocional foi reduzido a uma ferramenta para administrar conflitos, algo como a arte de saber a hora, a forma e com quem deveríamos expressar a nossa raiva.

Hoje, com a distância e informações acumuladas, compreendo que esses pilares são muito gerais, sustentam a vida. Na verdade, não há complexidade, o conceito é simples. Inteligência emocional é a capacidade de identificar  — e verbalizar — o que se sente. E com as descobertas da neurociência, o mais adequado agora é falar em saúde, não em inteligência. Portanto, a saúde emocional começa muitos quilômetros antes do mundo do trabalho, começa na infância. É, principalmente, um assunto para pais e educadores. Ensinar uma criança a dizer o que ela sente, parece óbvio, mas não é. Somos educados para dizer o que pensamos, não o que sentimos.

O mundo exige o ser racional e, nós, seres emocionais, tentamos dar o nosso melhor. Somos gregários, temos todas as ferramentas para a prática emocional, mas somos travados por convenções e preconceitos. Quando encontramos alguém a pergunta “tudo bem?” é quase automática, mas não é verdadeira. Queremos ouvir apenas o “tudo”. O que é natural, as conversas sobre sentimentos não são práticas, exige-se tempo. Outro impedimento do “dizer o que sinto” é cultural. Apesar de já haver muitos defensores de que a demonstração de sentimentos é um indicativo de força, ainda impera a crença oposta: expor o que se sente é um sinal de fraqueza. A “sabedoria” popular faz o resto. Afinal, quem nunca ouviu que baú aberto não guarda tesouros?

Porém, o conhecimento cientifico está entrando no terreno e — sabe-se agora — que a habilidade para reconhecer, nominar e lidar com o que sentimos é também uma questão de saúde física. Os sentimentos negligenciados ou suprimidos transformam-se em doenças. As emoções devem ser vividas, integradas. São dinâmicas e, se ignoradas, vão para coração, para o sistema imunológico, para o estômago… Adoecem o corpo. Também já é sabido que o bloqueio de sentimentos, também interfere na cognição. Nossos sistemas emocional e cognitivo estão conectados. Uma criança que sofre de bullying, por exemplo, o primeiro sinal é o baixo rendimento escolar. A ansiedade e o estresse interferem na concentração e inviabiliza o aprendizado.

Outro preconceito é a visão simplista que opõe emocional-racional x selvagem- civilizado. Nietzsche mostrou que é na fonte emocional que nasce o pensamento racional. Não há oposição entre um e outro. Pensamos a partir do que sentimentos. Apesar de não termos consciência disso, a forma como sentimos influencia a nossa maneira de pensar. Faça esse exercício: antes de tomar uma decisão importante, experimente compreendê-la primeiro emocionalmente. Faça uma pausa e reflita sobre o que você sente. Quanto maior for o acesso às suas emoções, melhor será o seu pensamento e mais acertada será a sua decisão.

E como se ensina ou como se cultiva a saúde emocional? Um caminho quase consensual é o “falar sobre”. Inclusive, alguns acreditam que este é o pulo do gato dos processos terapêuticos: falar. Mesmo quando o terapeuta é ruim, a psicoterapia funciona. Porque na verdade é o processo — o falar — que cura. A emoção precisa ser identificada e compreendida, depois, é preciso expressá-la, trazer cá para fora. Para isso, é preciso treino.

A questão é tão relevante que o psiquiatra espanhol, radicado em Nova York, Luis Rojas Marcos acaba de lançar a obra Somos o que falamos (ainda sem tradução no Brasil) onde reafirma o valor terapêutico de falar com os outros e também consigo mesmo. Autor de mais de 20 livros sobre temas que vão do otimismo à resiliência, Rojas Marcos alerta que o excesso de conexões, via tecnologia, está impedindo as pessoas de falar sobre os seus sentimentos. O resultado é que estamos perdendo a conexão conosco próprio. E como somos aquilo que falamos, estamos deixando de ser. Não há mais espaço para o “conte-me mais” e “o que você sentiu?” Não há tempo para o exercício de verbalizar o que se sente e também não há pessoas dispostas a ouvir.

Rojas Marcos que ganhou notoriedade como chefe de saúde mental de Nova York durante os ataques de 11 de setembro,  é um ferrenho defensor do ensino da educação emocional nas escolas e defende que o culto ao racionalismo é anti-humano. Para ele, quem fala mais sobre os seus sentimentos, se conecta com os outros e está mais satisfeito com a vida. Quando nos conectamos com os outros, compartilhamos vivências, construímos relações e somos apoiados em situações difíceis. Nesse tópico, Rojas reforça que as mulheres falam mais do que os homens e falam mais dos seus sentimentos. As estatísticas apontam que elas falam em média 15 mil palavras mais do que os homens. E o psiquiatra está convencido de que esta é a razão das mulheres viverem mais do que os homens: elas falam mais.

O psiquiatra defende inclusive que devemos falar com nós mesmos. Falar em voz alta, em voz baixa, mas falar. Praticante declarado dos monólogos de si para si, o psiquiatra afirma que as crianças, desde os 2 ou 3 anos, falam elas mesmas, se encorajam, se aconchegam, se consolam. A partir de certa idade passamos a ter vergonha, porque falar sozinho é estigmatizado, coisa de doidos. “Nós nos reprimimos e é um grande erro. Esta é uma prática recomendada para a lucidez”, diz ele.

Por saber da tendência natural da mulher para ser mais emocional, foi com muita surpresa que identifiquei essa dificuldade em mim. No início da minha carreira fiz algumas sessões de psicoterapia e foi muito perturbador perceber o quanto eu era racional. As sessões iniciais foram frustrantes. Ouvi vezes sem conta, quase como um mantra, a réplica: “Margot, eu perguntei o que você sentiu, não o que você pensou”. E eu ficava ali suspensa, sem saber o que dizer. “Eu não sei o que eu senti”. Por conta da minha tendência para a racionalidade que ainda vigio, estou muita atenta a educação emocional do meu filho. Para contrariar a sociedade que exige mais racionalidade dos homens, desde muito cedo, tento ensiná-lo o verbalizar os seus sentimentos. Quando ele tinha 4, 5 anos, ia buscá-lo a pré-escola e, muitas vezes, assim que ele entrava no carro, desatava no choro. Primeiro eu partia para os despistes básicos: dava-lhe água e tirava-lhe o casaco. Nessa idade, tanto se chora de sede, quanto de um braço ferido. Como o choro continuava, incentivava-o a falar o que tinha acontecido. E ele dizia “não houve nada”.

Comecei por ensiná-lo dando exemplos meus. Contava algo feliz ou algum desapontamento do meu dia e depois perguntava: “E contigo? Como foi o teu dia?”. Com o tempo, ele começou a contar o que tinha acontecido de ruim, quem havia lhe batido e o porquê. E com o seu suave acento lisboeta prescrevia o remédio: “hoje o dia correu-me muito mal e eu preciso mesmo dormir contigo”. E, para confortá-lo, lá ia eu, mais uma vez, abrir uma exceção para o decreto “cada um na sua cama”. E houve dias em que após ouvir as minhas queixas de um dia ruim, o meu filho retribuía e prescrevia o remédio também para mim: “Oh! Hoje você precisa mesmo dormir comigo.” E é esse o caminho. Sinta e fale sobre o que você sente, mas, sobretudo, cerque-se de quem te dê permissão para sentir. E mais ainda, cerca-se daqueles que também possam te consolar depois.

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 


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