O dia em que Nietzsche me libertou da tristeza

  • Margot Cardoso

Súbita, aguda, dolorosa, crônica… Como lidar com a tristeza? Ampare-se na força do pensamento de Nietzsche

Talvez, se lhe pedissem uma definição sobre a vida, Spinoza responderia que são encontros que acontecem no mundo. E ele divide esse encontros em duas categorias: alegres e tristes. E é aqui que nos encontramos, numa espécie de painel com ativos e passivos, onde desesperadamente nos inclinamos para os encontros alegres. Porém, por maiores que sejam os nossos esforços — e a nossa arte — , as tristezas são soberanas.

E foi com Spinoza em mente que visualizei os picos abruptos de tristezas no meu gráfico de encontros. Um deles — muito elevado, mas de curta duração — foi quando o meu filho nasceu. Havia lido vários livros sobre a maternidade, recém-nascidos e os cuidados necessários, mas a prática revelou-se aterradora. Num país que não era o meu e sem a minha família (minha mãe só chegaria para me salvar um mês depois), sentia-me insegura e perdida, incapaz de cuidar do meu filho. Na minha mais profunda psique, sempre procurei alguém para cuidar de mim. Não só não tinha encontrado, como agora eu é que tinha alguém para cuidar.

Vivia numa gangorra emocional. De um momento para outro, alternava a felicidade extrema de ter o meu filho nos braços e o medo de não ter a competência necessária para cuidar dele. Passava os dias às lágrimas e se saia para uma breve caminhada era para chorar mais à vontade. É claro que nesse “encontro”, o cansaço, a falta de sono, os hormônios e o fenômeno baby blues tiveram a sua contribuição. Aqueles que romantizam a maternidade podem considerar esse quadro uma patologia. Esse é um lado da questão válido. Mas visto de outro ângulo, talvez seja uma contribuição da natureza para nos alertar sobre os desafios desse novo papel. Pois foi exatamente esse estado que revelou a real dimensão da minha responsabilidade como mãe. Uma consciência que mantenho viva até hoje.

Mais para frente, no meu mapa consta outro pico de tristeza. Íngreme, imponente e muito mais duradouro. Uma tristeza sem nome me trespassou. A alegria e o otimismo que eu carregava colapsaram. A mente racional que até então esteve à altura dos desafios que surgiam, adoeceu. E atingiu o corpo. Não me reconhecia mais. A razão dessa queda foi um rompimento. Mas, o motivo da tristeza não foi a separação em si, a ausência do outro. Foi a compreensão de que aquele que se julgava muito próximo, era outra pessoa. A pessoa que estava no primeiro e no último pensamento de todos os dias, revelou-se um estranho indiferente. A pessoa amorosa era uma ilusão. O passado ficou sem sentido. Já não sabia onde estava e caminhava numa espécie de terra estrangeira onde tudo era desconhecido.

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Esses meus dois estados não são únicos. São experiências humanas banais. A forma e a força com que lidamos com elas é que são diferentes. Há muitos tipos de relações e, por isso, muitos tipos de rompimentos. Alguns são fáceis de lidar. Outros precisam do apoio da família, dos amigos, de psicoterapia. Alguns necessitam de medicação. Esperar a ação do tempo? Essa é uma irresponsabilidade perigosa da autoajuda oca: o tempo não cura tudo. Há feridas que quando não tratadas nunca cicatrizam.

Os amigos ajudam até certo ponto, as mães não nos podem salvar sempre. Equacionei o arsenal de medicamentos psiquiátricos — mas tive receio que os efeitos adversos comprometessem a minha capacidade de trabalhar. Então, eu equacionei a psicoterapia. Porém, esses são períodos em que os níveis de otimismo estão muito baixos. Não achei que poderia fazer muita diferença. Freud — talvez também numa fase pessimista como a minha — escreveu que a psicanálise poderia no máximo transformar miséria histérica em infelicidade comum. Então, por inércia, fiquei com a filosofia. Tal como Boécio, em A Consolação da Filosofia, escrita em 524 d.C, vejo a filosofia também como uma fonte de cura.

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Nietzsche nos momentos de tristeza

Olhei para a minha fraqueza e aceitei a mão estendida de Nietzsche. Suas palavras de comando deram-me impulso para emergir e aos poucos Nietzsche sinalizava o caminho de como voltar a respirar.

Talvez, dentre os opções, tenha sido o caminho mais moroso e difícil, mas também de lucidez. Compreendi um lado da vida que eu não alcançava. Tive um consciência maior do sofrimento dos outros. E enxerguei melhor a minha fragilidade. Antes eu tinha uma casca rígida e um interior muito mole. Vivia numa angústia constante, com medo que alguém rapidamente atingissem a parte frágil. Qualquer sinal de perigo, todas as minhas luzes vermelhas eram acionadas. Agora, tenho pelo menos duas camadas rígidas. Como alguém que se sabe protegido, caminho com mais serenidade.

A sensação de que “aconteceu o pior” é muito libertadora. Subi para o nível seguinte. E mais do isso, compreendi melhor o pensamento de Nietzsche. Entendi a pluralidade de forças contrárias que envolvem todas as coisas. Vivi todas as implicações da citação latina “quod me nutrit me destruit” (O que me nutri também me destrói). Essa sentença — sem origem incerta e que atravessa os tempos — traduz essa dualidade da vida que nos fascina, mas também nos aterroriza. A ideia de que aquilo que nos eleva, também comporta o poder de nos destruir. Tudo o que nos faz felizes pode, com a mesma intensidade, nos fazer infelizes. O amor nos torna insanos de alegria, mas a sua perda é uma das piores dores psíquicas. Os filhos são o nosso extremo deleite, mas comportam angustias crônicas.

Atenção sobre o que abraçamos

Nietzsche adotou a “quod me nutrit me destruit” pelo seu avesso “aquilo que não nos mata, nos torna mais forte”. Entretanto, nessa verdade, o filósofo alemão põe em relevo a nossa responsabilidade: nós escolhemos o que nos nutre/destrói.

Cultivamos na nossa vida aquilo que tem o potencial de nos trazer felicidade e nos descuidamos de que a sua perda comporta exatamente o oposto — e com a mesma intensidade. Grandes amores, grandes perdas. Portanto, aconselha Nietzsche, devemos refletir longamente sobre o que abraçamos.

É certo que com o tempo, quanto mais projetos implementados, decisões tomadas e quereres estabelecidos, maiores serão as chances de perdas e do “mundo desabar sobre as nossas cabeças”. É a estatística. Após as quedas, acovardados, a sensação de impotência sobe em flecha e passamos a ter medo de tentar de novo. Perplexos, percebemos que não temos a força que imaginávamos. Mas eis que o filósofo alemão vem ao nosso socorro. Essa covardia pós-queda não deve ser levada a sério. Somos sempre mais fortes nas ações do que nas suas consequências.

Não devemos nos punir em excesso

Muitas vezes, estamos à altura no momento da ação, do ato. Mas depois, quando vem os desdobramentos e as suas consequências, mostramo-nos muito aquém do ato. Não conseguimos suportar o fardo das decisões implementadas ou das consequências dessas ações. Nietzsche nos conforta: Não devemos nos afligir com esse desnível porque essa é uma verdade banal da condição humana. Não devemos nos punir em excesso.

Não importa se estamos alegres ou tristes, em êxtase ou devastados, estamos sempre esquecendo uma verdade fundamental da vida: sabemos muito pouco sobre nós. A tal ponto que, às vezes, só sabemos que precisamos de algo quando o encontramos. E, por essa razão, às vezes, passamos a vida inteira sozinhos e não sentimos solidão, mas, subitamente, enquanto caminhamos pelos nossos dias, descobrimos o outro e, junto com a descoberta do outro, percebemos que estamos sós.

 

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MARGOT CARDOSO é jornalista e pós-graduada em Ética e Mestre em filosofia. Nesta coluna, semanalmente, escreve sobre a arte de viver, sempre à luz dos grandes pensadores.

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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