O dia em que Nietzsche me libertou da tristeza

  • Margot Cardoso

Entendi a pluralidade de forças contrárias que envolvem todas as coisas. Nietzsche destaca que somos nós que escolhemos o que nos nutre e o que nos destrói.

 

O meu gráfico de tristezas mostra alguns picos abruptos. Um deles — muito elevado, mas de curta duração — foi quando o meu filho nasceu. Havia lido vários livros sobre a maternidade, recém-nascidos e os cuidados necessários, mas a prática revelou-se aterradora. Num país que não era o meu e sem a minha família (minha mãe só chegaria um mês depois para me salvar), sentia-me insegura e perdida, incapaz de cuidar do meu filho. Na minha mais profunda psique, sempre procurei alguém para cuidar de mim. Não só não tinha encontrado, como agora eu é que tinha alguém para cuidar.

Vivia numa gangorra emocional. De um momento para outro, alternava a felicidade extrema de ter o meu filho nos braços e o medo de não ter a competência necessária para cuidar dele. Passava os dias às lágrimas e se saia para uma breve caminhada era para chorar mais à vontade. É claro que nesse cenário, o cansaço, a falta de sono, os hormônios e o fenômeno baby blues tiveram a sua contribuição.

Aqueles que romantizam a maternidade podem considerar esse quadro uma patologia. Esse é um lado da questão. Mas visto de outro ângulo, talvez seja uma contribuição da natureza para nos alertar dos desafios desse novo papel. Pois foi exatamente esse estado que revelou a real dimensão da minha responsabilidade como mãe. Uma consciência que mantenho viva até hoje.

As perdas

Mais recentemente, o meu gráfico registrou um outro pico. Íngreme, imponente e muito mais duradouro. Uma tristeza sem nome me trespassou. A alegria e o otimismo que eu carregava desde sempre colapsaram. A mente racional que até então esteve a altura dos desafios que surgiam, adoeceu. E atingiu o corpo. Não me reconhecia mais. A razão dessa queda foi um rompimento.

O motivo da minha tristeza não foi a separação em si, a ausência do outro. Foi a compreensão de que aquele que eu julgava muito próximo, numa ligação fundante, era outra pessoa. Aquele que estava no primeiro e no último pensamento de todos os dias, revelou-se um estranho, indiferente a tudo o que me dizia respeito. Descobri que aquela pessoa amorosa era uma ilusão. O passado perdeu o sentido e como eu não sabia onde estava, também não conseguia vislumbrar o amanhã. Com passado, presente e futuro comprometidos, caminhei por um mundo sem sentido.

Esses meus dois estados não são únicos. E, apesar de dolorosos, são experiências humanas banais. A forma com que lidamos com elas é que são diferentes. Há muitos tipos de relações e, por isso, muitos tipos de rompimentos. Alguns são fáceis de lidar. Outros precisam do apoio da família, dos amigos, da psicoterapia. Alguns necessitam de antidepressivos.

Esperar a ação do tempo? Essa é uma irresponsabilidade perigosa da autoajuda oca: o tempo não cura tudo. Há feridas que quando não tratadas nunca cicatrizam.

Os amigos ajudam até certo ponto, as mães não nos podem salvar sempre. Então, eu equacionei a psicoterapia. Porém, esses são períodos em que os níveis de otimismo estão muito baixos. Não achei que poderia fazer muita diferença. Freud — talvez também numa fase pessimista — escreveu que a psicanálise pode no máximo transformar miséria histérica em infelicidade comum.

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Nietzsche nos momentos de tristeza

Por inércia, fiquei com a filosofia. Enfrentei a minha dor com a capa do pensamento de Nietzsche. Talvez tenha sido o caminho mais moroso e difícil, mas também o mais rico. Compreendi um lado da vida que eu não alcançava. Antes, eu tinha uma casca rígida e um interior muito mole. Vivia numa angústia constante, com medo que alguém rapidamente atingisse a parte frágil. Qualquer sinal de perigo, todas as minhas luzes vermelhas eram acionadas. Agora, tenho pelo menos duas camadas rígidas. Caminho com mais serenidade.

A sensação de que “aconteceu o pior” é muito libertadora. Subi o nível seguinte da lucidez. E mais do isso, compreendi com mais acuidade certos aforismos de Nietzsche. Entendi a pluralidade de forças contrárias que envolvem todas as coisas. Vivi todas as implicações da citação latina “quod me nutrit me destruit” (“O que me nutri também me destrói”, em tradução livre). Essa sentença — sem origem incerta e que atravessa os tempos — traduz essa dualidade da vida que nos fascina, mas também nos horroriza.

A ideia de que aquilo que nos eleva, também comporta o poder de nos destruir. Tudo o que nos faz felizes pode, com a mesma intensidade, nos fazer infelizes.

O amor nos torna insanos de alegria, mas a sua perda é uma das piores dores psíquicas. Os filhos são o nosso extremo deleite, mas comportam angustias crônicas.

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“Não sou ou não tenho a força que eu imaginava”

Nietzsche adotou essa máxima pelo seu avesso “aquilo que não nos mata, nos torna mais forte”. Entretanto, o filósofo alemão põe em relevo que somos nós que escolhemos o que nos nutre/destrói. Cultivamos na nossa vida aquilo que tem o potencial de nos trazer felicidade e nos descuidamos de que a sua perda comporta exatamente o oposto — e com a mesma intensidade. Grandes amores, grandes perdas. Portanto, aconselha Nietzsche, devemos refletir longamente sobre o que queremos.

É certo que com o tempo, quanto mais projetos implementados, decisões tomadas e quereres estabelecidos, maiores serão as chances de perdas e do “mundo desabar sobre as nossas cabeças”. É a estatística. Após as quedas, acovardados, a sensação de impotência sobe em flecha e passamos a ter medo de tentar de novo.
Mas eis que o filósofo alemão vem ao nosso socorro. Essa covardia pós-queda não deve ser levada a sério. Somos sempre mais fortes nas ações do que nas suas consequências.

Muitas vezes, estamos à altura no momento da ruptura, do ato. Mas, depois, quando vem os desdobramentos e as suas consequências, nos mostramos muito aquém do ato. Não conseguimos suportar o fardo das decisões implementadas ou das ações na prática. Não devemos nos afligir com esse desnível porque essa é uma verdade banal da condição humana, diz Nietzsche.

Não devemos nos punir em excesso

Não importa se estamos alegres ou tristes, em êxtase ou devastados, estamos sempre esquecendo essa verdade fundamental da vida: sabemos muito pouco sobre nós. A tal ponto que, às vezes, só sabemos que precisamos de algo quando o encontramos.

É por essa razão que, às vezes, passamos a vida inteira sozinhos e não sentimos solidão, mas, subitamente, enquanto caminhamos pelos nossos dias, descobrimos o amor e junto com o amor descobrimos que estamos sós.

 

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MARGOT CARDOSO é jornalista e pós-graduada em Ética e Mestre em filosofia. Nesta coluna, semanalmente, escreve sobre a arte de viver, sempre à luz dos grandes pensadores.

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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