O despertar de nossas casas para uma nova era

  • Clô Azevedo

Aprendemos a olhar de forma diferente para nossas casas transformando os espaços que vivemos em superfícies táteis que acolham nossos sentidos

Para começar a escrever esta matéria, parei pra reler algumas anotações que fiz sobre minhas percepções em relação a tudo o que passamos ficando em casa durante esse ano. A princípio, um conjunto de ideias soltas que me deram suporte para colocar na escrita o que estou sentindo, porém agora amadurecidas, tomaram corpo para serem compartilhadas neste momento com vocês.

Se por muito tempo me debrucei em inspirar pessoas a olharem para dentro de si buscando conexão com seus ambientes, agora mais do que nunca, surpreendentemente consigo vê-las sentindo isso na pele. Resgatar nossas histórias e trazer pra dentro dos espaços que moramos, seja por qual propósito for, sempre vai fazer com que possamos chegar mais perto de quem a gente é de verdade. Um caminho de resgate que muito me alegra observar tanta gente colocando em prática atualmente com o propósito de descobrir de onde vieram e para onde querem ir através de seus ambientes.

Casas são nosso templo, nosso ninho de aconchego e refúgio, entretanto nossos espaços mudaram tanto de um ano para cá, que começamos a formar novos hábitos sem entender direito para onde direcioná-los, porém a necessidade de observar o porque de toda essa mudança hoje em dia, está muito além da pandemia. Sem dúvida estamos em um momento de novas descobertas que estão pulsando dentro da gente querendo pular para fora. Não apenas podemos ser o que queremos com muito mais clareza e maturidade, como descobrimos que também podemos trazer essas sensações para dentro dos nossos lares.

Descobrimos nossa força e um novo modo de viver e de morar, moldando nossos ambientes para o despertar de nossas emoções e sentidos preguiçosos camuflados pela vida que levávamos a tanto tempo. Enxergamos novos caminhos para comunicar o momento em que nos encontramos, e finalmente escolhemos ter uma casa tátil com cor, som, textura, cheiro, sabor e com coisas vivas crescendo ao nosso redor, uma casa que atenda tanto nossas necessidades quanto nossas sensações. Uma casa mais naturalista, mais minimalista, como um santuário construído cada vez mais com a nossa energia. Um lugar feito por nós mesmos, com respeito por quem fomos, e com esperança e otimismo de onde queremos chegar.

Sendo assim, transformamos nossos espaços. Ambientes que serviam apenas para uma finalidade começaram a abrigar múltiplas funções, pintamos paredes que receberam cores para comunicar o que sentimos, escolhemos tons que nos conectassem com nossa alimentação e nossa espiritualidade, móveis foram reciclados para diferentes finalidades, plantas se acomodaram por todos os lados tentando trazer um pouquinho mais da natureza pra perto da gente. Tudo feito por nós mesmos, despertados para uma nova era de autocuidado, carinho e aconchego, valorizando o tempo de nossas naturezas, de querer ficar perto de quem a gente ama e das coisas que nos fazem bem. Um caminho que está sendo moldado com nossas mãos e coração, nossa visão, percepção, olfato, audição, tá tudo trabalhando junto nos acompanhando nesta jornada, nos acolhendo e nos conectando uns aos outros.

Perceba que manter esse refúgio para o espírito exige que possamos enxergar nossos lares e a nós mesmos com tanta nitidez quanto possível. Dar conforto a nós mesmos é um tributo a alma, cria um local de contentamento que nos sustentará hoje e por todos os anos que virão. Cria um lar. E não há conforto maior do que isso.

Um feliz despertar pra vocês.


Clô Azevedo é arquiteta e acredita que a casa é uma extensão das vidas que a habitam. Desenvolve projetos de design de interiores afetivos para conectar pessoas com suas histórias, inspirando a reinventar seu próprio espaço, morar bem e viver melhor. Seu site é designafetivo.com.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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