O caminho para educar uma criança passa pela reeducação do adulto

  • Thais Basile
  • FOTOGRAFIA: Bruno Nascimento / Unsplash

No processo de educar uma criança, todos nós estamos aprendendo a desconstruir nossas crenças de criação conectadas à violência.

 

De toda dificuldade em educar uma criança, no caso da minha pequena “ser humaninha”, a maior delas foi conseguir considerá-la uma pessoa.

Sim, pode parecer cruel ou indiferente, mas olhando em retrospecto, foi exatamente esta a questão.

Aprendi, por vivência própria, e também através de um reforço social enorme que:

  • … criança nem gente é.
  • … não é preciso esforço para tratá-las bem, porque se a tratamos mal, “ela esquece”.
  • … criança “não tem querer”, não pode ter dia ruim, não precisa ter seu corpo e sua dignidade respeitados.

E aprendi que isso tudo é chamado, ainda hoje, de “disciplina e educação”. Também, pudera: se dessem o nome certo (vocês podem imaginar), seria mais difícil que acreditassem na eficácia.

PARA LER DEPOIS: Um olhar de compaixão para a educação menos perfeita

Desfazendo conceitos ao educar uma criança

Tudo que aprendemos sobre educação é invertido: bater, em qualquer tipo de pessoa ou grupo social, é considerado violência. Entretanto, quando é com criança é “para o próprio bem”.

A violência psicológica, que mal sabemos conceituar, foi tipificada somente em agosto de 2021, tão recente que é a percepção das pessoas sobre a violência sem pancada física. Isso porque ela é completamente naturalizada em muitas relações que vivemos, mas sabemos que ela pode doer de forma invisível, tanto quanto.

Tentando justificar nossos erros

Se eu gritava, era porque minha filha tinha “me tirado do sério”, não porque eu não sabia lidar com a sobrecarga, com o medo da responsabilidade de criar um ser humano, com o medo de ela não ser íntegra e empática, de ela não ser amada.

Por não saber lidar com essa cachoeira de medos, deslocava a angústia para a violência verbal. A culpa era dela pelo meu destempero, igual ao marido que agride verbalmente e diz que a culpa foi da saia curta ou do batom vermelho. Injusto, mas completamente naturalizado.

A mudança de paradigma veio por conta da vergonha que eu sentia das violências que praticava. Hoje vejo que eu tive coragem de não deixar a culpa me paralisar.

Reconhecendo nossos traumas

Fui aos poucos aprendendo a olhar para todas as micro e macro violências a que fui eu mesma submetida na infância, porque acho que não conseguiria ter empatia pela criança de fora (a filha) sem ter pela criança de dentro: a que ainda carrego comigo no coração, na mente e no corpo.

Essa tomada de consciência precisou passar primeiro pela minha própria vivência, e esse processo não foi rápido, nem linear.

Todos nós que estamos num caminho de fazer contraponto ao que a sociedade nos diz que é o certo em relação às nossas crianças – bater, criticar, isolar – iremos passar por idas e vindas. Vamos dar voltas e mais voltas num processo que não tem fim, mas é bonito demais, porque dá significado ao ser mãe, ser pai, ser cuidador.

Nesse caminho, continuamos a crescer, só que agora junto com a criança. Na melhor das hipóteses, a gente se reeduca enquanto educa.

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THAIS BASILE é mãe da Lorena, palestrante e consultora em inteligência emocional e educação parental, eterna estudante. Apaixonada por relações humanas e por tudo que a infância tem a ensinar. Compartilha um saber para uma educação mais respeitosa no @educacaoparaapaz.


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