Nossas memórias determinam nosso futuro

  • Tiago Belotte
  • FOTOGRAFIA: Laura Fuhrman (Unsplash)

Resgatar histórias negligenciadas ou marginalizadas e dar espaço a elas na nossa memória, mais do que homenagem, é inspiração para o presente e para o que ainda estar por vir.

Esta semana abri o Google para a pesquisa nossa de cada dia e me deparei com a imagem da atriz Ruth de Souza, em celebração ao centenário do seu nascimento. A forma do buscador de fazer essa homenagem é alterando temporariamente o seu logotipo. Isso acontece sempre na comemoração de eventos, conquistas, feriados e de figuras históricas notáveis. Parece algo pequeno, mas se considerarmos as 40 mil pesquisas feitas por segundo no buscador, o alcance de tal celebração é extraordinário.

São milhares de pessoas, pelo menos, que passam a saber quem é Ruth de Souza. Primeira artista negra a fazer sucesso no Brasil e a primeira atriz brasileira indicada a uma premiação internacional. Nascida no Rio, com parte da infância vivida em Minas Gerais, se apaixonou por espetáculos teatrais e sonhava com os palcos. No entanto, era desestimulada por muitos que diziam ser impossível uma jovem negra se tornar atriz de teatro.

Ruth de Souza

Aos 17 anos, Ruth percebeu que não ia ganhar um espaço e resolveu criá-lo, para provar que as pessoas negras também podiam atuar. Junto com pessoas como Abdias Nascimento e Aguinaldo Ramos fundou o Teatro Experimental Negro (TEN). Em maio de 1945, estreou sua primeira peça no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Dois anos depois ganhou seu primeiro prêmio. E, no início dos anos 1950, foi para os EUA ­—­ com uma bolsa de estudos da Fundação Rockefeller — estudar artes cênicas em grandes escolas, incluindo Harvard. De volta ao Brasil, Ruth ganhou projeção internacional em sua atuação no filme Sinhá Moça.

memórias

Raj Rana (Unsplash)

Foi fugindo de papéis bobos e buscando personagens que realmente tinham algo a dizer que Ruth fez 46 participações na TV (entre novelas e séries), 37 filmes e 19 peças de teatro. Reverenciar essa mulher no seu centenário e resgatar sua história é o mínimo que podemos fazer frente a sua grandeza e importância. Com sua trajetória, ela recriou o próprio futuro e o futuro de milhões de mulheres negras para quem ela foi inspiração e abriu caminhos.

Lembrar pioneiras

Recentemente dei de presente para minha filha um jogo da memória que em suas cartas homenageia 15 mulheres brasileiras. Resultado do trabalho de uma historiadora e uma designer, Memorelas faz um resgate histórico fundamental para crianças e adultos. Quem são as mulheres brasileiras que merecem ser lembradas por suas conquistas e obras? Digo-te que não há para mim melhor sensação do que ver minha filha, com seus quatro anos, reconhecer as imagens, saber os nomes e conhecer as histórias de mulheres como Carolina de Jesus, Bertha Lutz, Niède Guidon, Virginia Bicudo, dentre outras.

Parece algo simples e pueril, assim como a homenagem à Ruth Souza feita pela Google na página do seu buscador. Entretanto, independente do tamanho, o impacto é inestimável. Olhar para o passado criticamente, resgatar histórias negligenciadas ou marginalizadas e dar a elas espaço nas nossas memórias, é tê-las como inspiração para nossas ideias, escolhas e decisões; que por menores que sejam modificam o presente e recriam o futuro. Um futuro descolonizado, que abre espaço para a riqueza e a potência de visões de mundo antes desprezadas.

Os desafios do presente e do futuro exigem e exigirão de nós a capacidade de criar soluções novas rapidamente. Ainda não inventamos melhor forma de fazer isso do que nos juntando. Estão aí as vacinas e tratamentos para a COVID-19 como prova. Gente de todas as partes do planeta tendo seus saberes e repertórios valorizados. Do cientista europeu à enfermeira brasileira, boas contribuições surgem quando tem espaço e voz. Por isso, não tenho dúvidas de que, se unirmos a capacidade criativa de pessoas diversas — independentemente de raça, etnia, credo, gênero, idade e orientação sexual — seremos maiores e melhores do somos.


TIAGO BELOTE é fundador e curador de conhecimento no CoolHow – laboratório de educação corporativa que auxilia pessoas e negócios a se conectarem com as novas habilidades da Nova Economia. É também professor de pesquisa e análise de tendências na PUC Minas  e no Uni-BH. Seu Instagram é @tiago_belotte. Escreve nesta coluna semanalmente, aos sábados.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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