Não seja produtivo na quarentena

  • Diogo Rodriguez

Como é possível ser produtivo enquanto ronda o espectro da morte? Não seja. Faça o que for possível. E tudo bem. Você tem esse direito

 

Primeiramente, temos que saber que vivemos um momento inédito – pelo menos na história recente: centenas de milhões de pessoas estão em casa, lojas estão fechadas, restaurantes não abrem. Todo mundo que pode trabalhar remotamente o está fazendo. Somos encorajados a evitar aglomerações, a não sair de casa. Ir à rua só para comprar comida e remédios, nada mais.

O consumo de internet tem aumentado pelo mundo, claro. Crianças precisam de entretenimento, adultos precisam de distração – e também mandar arquivos pesados para seus chefes, clientes e subordinados. A rede virou nossa linha de comunicação com o mundo. Rede essa que, como sempre, tem suas bênçãos e suas maldições.

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Sim, é verdade que hoje temos acesso a ferramentas incríveis como as videochamadas, algo antes visto apenas em ficção científica. Pelo celular, podemos acessar informações do mundo todo, conversar com estranhos, conhecidos. As redes sociais nos permite compartilhar o que pensamos, do que gostamos, o que estamos fazendo em tempo real.

Foi justamente nas redes que vi um movimento que, aparentemente, tem boas intenções, mas está causando muitos danos. Explico: vários posts exaltam uma repentina fartura de tempo que nos foi dada. Sim, pois sem ter de ir ao escritório, pegar condução, ficar preso no trânsito, nos vemos de repente frente à possibilidade de cumprir todas aquelas tarefas para as quais sempre estamos muito cansados: arrumar o armário, ler a eterna pilha de livros, fazer faxina, ver séries e filmes incríveis, aprender um novo idioma, um novo instrumento, em suma, nos tornarmos seres melhores.

Calma! Espera aí e vá com calma

Postei um vídeo falando sobre isso no meu Instagram e muita gente me agradeceu: estavam se sentindo pressionados a fazer da quarentena uma experiência “transformadora”. Peraí!

Por mais que tenha bastante gente, influenciadores principalmente, tentando nos vender a ideia de que estamos numa espécie de retiro espiritual ou em algum tipo bizarro de férias, encaremos a realidade dos fatos com frieza. O mundo está no meio de uma pandemia, a mais grave desde a Gripe Espanhola. Forçar milhões de pessoas a ficar em casa, comércios a fechar suas portas, parando a economia, não é uma medida agradável. É uma tentativa de evitar que milhões morram acometidos pela síndrome respiratória que o novo coronavírus causa.

Sistemas de saúde de países exemplares, como a Itália, estão entrando em colapso, pessoas morrem cada dia mais, caixões se empilham. O Brasil parece estar bastante longe do seu pior momento na pandemia e os governadores fazem o que podem para preservar seus estados. Mas, há muito em risco para todos e todas.

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Muitas pessoas não têm direito a ficar em casa. Outros tantos não podem lavar as mãos em casa por falta de água, o que dirá ter acesso a álcool gel? Quantas famílias se veem com crianças em casa por conta do fechamento de escolas sem ter como entretê-las ou até alimentá-las? Quantos pais e mães não estão sobrecarregados tentando dar conta de cuidar da casa, da vida, de ganhar dinheiro? Quantos empregos serão perdidos? E quantos brasileiros ficarão sem dinheiro?

Não crie a expectativa do desempenho

Quando vejo fotos e textos de gente fora da realidade, falando da quarentena como se fosse mais uma moda a ser seguida, percebo como vivemos em um mundo desigual. Ficar de quarentena não é bom. É horrível. O país está parando, o mundo está parando. Pessoas estão morrendo, outras respiram com a ajuda de aparelhos. Acho salutar procurar maneiras de aliviar o sofrimento, de distrair a mente da enorme crise em que vivemos.

Mas vamos colocar as coisas no seu devido lugar: a quarentena não deve ser produtiva. É uma medida extrema para tentar frear um vírus mortal. Se alguns conseguem aproveitar o tempo livre estudando, fazendo ioga, escrevendo, pintando, criando um blog, ótimo! O problema é criar, mais uma vez, a expectativa do desempenho. “O que você fez na sua quarentena?”.

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E, vejam bem, não se trata de algo inofensivo. Pessoas com problemas de saúde mental, como eu, tendem a ficar mais ansiosas em momentos como este. Especialmente com todas as restrições, as notícias sem fim, e o fato de que dependemos da tecnologia para nos comunicar. Não sou médico nem psicólogo, mas prevejo uma piora significativa na saúde emocional de todos os que são obrigados a se submeter a essa experiência desagradável.

Faça o que for possível. E tudo bem

Fazer tudo de casa, do trabalho à diversão, não é saudável. Precisamos mudar de ambiente de vez em quando, ter a liberdade de vagar por aí, de encontrar as pessoas, de andar pela rua. Agora estamos temporariamente privados destes privilégios, obrigados a fazer o melhor que pudermos diante da situação. Como é possível ser produtivo enquanto ronda o espectro da morte? Não seja. Faça o que for possível. E tudo bem. Você tem esse direito. Estamos com medo, sem saber como será o dia de amanhã. Devemos aceitar que estamos vivendo tempos horrorosos e nenhum curso ou aula de ioga vai melhorar isso. Dê tempo a si mesmo, se dê uma colher de chá.

E não se esqueça de lavar as mãos.

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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