Não seja escravo da positividade

  • Diogo Rodriguez

A ideia aqui não é assustar ninguém, mas propor uma reflexão: qual é o objetivo do auto aperfeiçoamento? Somos levados a “evoluir” porque temos de fato um objetivo para além de nós mesmos ou nossa motivação está no campo individual?

 

O filósofo Byung-Chul Han ficou conhecido no Brasil, principalmente, por conta do livro “Sociedade do cansaço” (2010). Já falei deste livro aqui. Trata-se de um ensaio muito interessante a respeito da exigência de desempenho esperada pela sociedade contemporânea. E, de maneira indireta, um chamado ao resgate da contemplação. Não por acaso, Han também tem um livro chamado “Filosofia do zen budismo” (2020).

Menos conhecido é “Psicopolítica: O neoliberalismo e as novas técnicas de poder”, livro de Han publicado em 2000. Nele, o filósofo faz uma crítica visionária a respeito das formas de disciplinamento dos indivíduos na lógica de produção do mundo atual. Embora tenha sido publicado há 20 anos, o livro é um retrato preciso dos tempos em que vivemos.

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Vamos pensar, por exemplo, no isolamento social e quarentena que muitos de nós vivemos. Com mais “tempo livre” nas mãos, os privilegiados que estão em casa podem fazer cursos, ler dezenas de livros, ficar em forma, aprender a cozinhar, meditar, fazer aulas de ioga, reconectar-se com a família, evoluir, tornar-se um ser humano melhor. É claro que estou sendo sarcástico. No texto “Não seja produtivo na pandemia”, elenco uma série de motivos pelas quais não devemos esperar que um período tão difícil nos traga resultados.

Seres humanos melhores

Foi exatamente por isso que “Psicopolítica” me interessou. Byung-Chul Han diz que “hoje, acreditamos que não somos sujeitos submissos, mas projetos livres, que se esboçam e se reinventam incessantemente”. Temos, de acordo com o senso comum identificado pelo autor, a liberdade de nos aperfeiçoar constantemente de acordo com nossas metas concretas, subjetivas ou espirituais. “O ‘eu’ como projeto, que acreditava ter se libertado das coerções externas e das restrições impostas por outros, submete-se agora a coações internas, na forma de obrigações de desempenho e otimização”, continua Han. Ele define esta condição como “positividade”, um estado de espírito que não permite que o que é negativo, especialmente em termos emocionais, tome controle de nossas vidas.

Simplificando: a exigência incessante para que nos tornemos “seres humanos melhores” pode parecer uma ideia libertadora, mas, na verdade, ela faz parte de uma estrutura social que nos torna chefes de nós mesmos. Ser chefe, nesse contexto, não significa que estejamos no controle; apenas que a cobrança por desempenho, por produtividade, por aperfeiçoamento, que antes vinha de fora, agora vem de nós mesmos.

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Não estou falando apenas do trabalho em si, mas também da nossa mente. Vejo por aí sugestões para que “aproveitemos” a crise, para enxergar o lado bom da tragédia em que vivemos, das restrições às quais somos obrigados a aderir para preservar vidas. Soa quase como se não tivéssemos direito ao sofrimento. E por quê?

Porque o auto aperfeiçoamento, na visão de Han, é uma ideia individualista. A verdadeira realização do ser humano se dá em comunidade, a partir de um senso de missão comum e o compartilhamento do destino. “Ser livre, portanto, não significa nada mais do que se realizar conjuntamente. Liberdade é sinônimo de comunidade bem-sucedida.” Ou seja: a liberdade de cobrar de nós mesmos é uma falsa sensação de liberdade.

Como o fracasso age

Para exemplificar seu raciocínio, Han define como age o “fracassado” em nossa sociedade. Este, diz, “em vez de questionar a sociedade ou o sistema, considera a si mesmo como responsável e se envergonha por isso”. A raiva e o ressentimento gerados por tal situação “não transforma os explorados em revolucionários, mas sim em depressivos”. Soa familiar?

Se já vivíamos uma crise de saúde mental antes da pandemia de covid-19, estamos criando agora uma verdadeira panela de pressão. A economia entra em colapso, a saúde pública desmorona enquanto milhões são obrigados a se arriscar para trabalhar, e outros tantos estão em home office, disponíveis e conectados ininterruptamente. Não há mais divisão entre casa e trabalho, expediente e tempo de convivência com a família. A cereja no bolo é o tal “tempo livre” em nossas mãos e a expectativa social de que façamos coisas incríveis com ele.

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Isso explicaria, de acordo com Han, o aumento nos casos de transtornos de saúde mental. Antes, explica, a sociedade tinha como base o trabalho, simbolizado pela fábrica. “Hoje”, diz o filósofo, “explora-se a psique”. “Por isso, esta nova era é acompanhada de doenças mentais, como a depressão e o burnout. (…) A otimização pessoal permanente, que coincide em sua totalidade com a otimização do sistema, é destrutiva. Ela conduz ao colapso mental.”

Resumindo: internalizamos as cobranças de produtividade que antes estavam no terreno da administração e da engenharia. E essa produtividade não mede apenas o quanto trabalho de fato somos capazes de aguentar, mas também reclama nossa mente para si, forçando-nos sempre ao movimento, nunca permitindo à nossa mente que reflita. Não é coincidência, para Han, que a palavra “empreendedorismo” seja o termo da vez. “O sujeito contemporâneo é um empreendedor de si mesmo que se auto explora. Ao mesmo tempo, é o fiscalizador de si próprio. O sujeito auto explorador traz consigo um campo de trabalhos forçados, no qual é ao mesmo tempo carrasco e vítima.”

Qual o objetivo em se aperfeiçoar?

A ideia aqui não é assustar ninguém, mas propor uma reflexão: qual é o objetivo do auto aperfeiçoamento? Somos levados a “evoluir” porque temos de fato um objetivo para além de nós mesmos ou nossa motivação está no campo individual? Não há nada de errado em querer ser uma pessoa melhor, que fique claro. Grande parte da produção intelectual da humanidade está calcada neste objetivo. O problema aparece quando a suposta evolução é uma casca vazia, que não alimenta nenhuma perspectiva maior, social, comunitária, coletiva.

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O excesso de positividade pode nos cegar para os problemas e dilemas do mundo. Isolados, olhando para nossos umbigos, não conseguimos mais olhar para fora e perceber que há muito mais além de nós mesmos. Por que sofremos tanto? Por que trabalhamos tanto? E por que espera-se de nós que sejamos “melhores”? Essas são, na minha opinião, as perguntas que deveríamos estar nos fazendo.

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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