Não se pode mais voltar para casa

  • Reinaldo Polito
  • FOTOGRAFIA: Clem Onojeghuo (Unsplash)

Você vive na cidade ou bairro onde nasceu, ou passou a viver em outro local? Se já fez alguma mudança, depois de alguns anos, sentiu vontade de voltar às origens, rever os antigos amigos e os lugares que costumava frequentar?

De maneira geral, quando pensamos no passado, por mais difícil que tenha sido a vida, nos enchemos de lembranças maravilhosas. Não é raro ouvir: aquela sim foi uma época extraordinária. Como gostaria de reviver aqueles tempos tão felizes. E alguns tentam voltar. E, quase sempre, se decepcionam. A realidade dos novos tempos não tem quase nada a ver com as agradáveis recordações. Muitos amigos já não moram naquele local. E os que continuam já não são mais as mesmas pessoas. Envelheceram, mudaram o jeito de ser, têm gostos e aspirações que se transformaram com o tempo.

Tudo mudado

O campinho de futebol onde costumava jogar peladas com os amiguinhos deixou de existir. Casas e prédios foram construídos naquele lugar. A sorveteria, o armazém deram lugar a outros estabelecimentos comerciais. A escola está desfigurada. Construíram novas salas de aula no espaço antes reservado à quadra de esportes. A entrada principal já não é mais na mesma rua, os alunos entram e saem por outra porta. Enfim, nada mais é como antes.

O romance escrito por Thomaz Wolfe talvez ajude explicar um pouco esse fenômeno. Na sua obra “You can’t go home again” (Não se pode voltar de novo para casa) o famoso romancista conta uma história muito curiosa. Um escritor publica um livro de muito sucesso. Ele narra como era a vida daqueles com os quais conviveu na juventude. Envolvido pelas lembranças tão agradáveis daquela época resolveu retornar para rever seus conterrâneos.

Seu retorno foi decepcionante. Ele mesmo se sentiu um estranho naquele ambiente, pois tudo estava mudado. Aquela expectativa de reencontrar as pessoas como elas eram antes foi frustrante. Viu ali muito pouco do que ainda estava em sua mente.

Um filme impactante

Há um filme que mostra de forma impactante essa realidade “As confissões de Schmidt”, com a magistral interpretação de Jack Nicholson. É a história de um executivo, vivido por Nicholson, que se aposentou com pouco mais de 65 anos. Longe do ambiente de trabalho ele se sentiu perdido, sem saber o que fazer.

voltar às origens

Nathan Rogers (Unsplash)

Algumas empresas oferecem aos seus colaboradores assistência psicológica para essas situações. Antes que deixem a vida corporativa, mostram como a realidade será outra, e sugerem algumas alternativas para que possam suportar bem o momento da separação. A maioria tenta manter algum tipo de ligação com a empresa onde trabalhavam, mas se frustram porque descobrem que essa convivência se torna praticamente impossível.

Foi o caso de Schmidt. Imaginando que seria muito bem recebido naquele ambiente onde passara a maior parte da sua vida, chegou perguntando se poderia ser útil de alguma maneira. O novo ocupante do cargo que havia sido seu o atendeu apressadamente como se estivesse incomodado com a sua presença. Decepcionado com a recepção fria e indiferente, percebeu que aquele não era mesmo mais o seu lugar.

Nessa mesma época a sua esposa morreu. Sozinho, sem ninguém com quem conviver, caiu na estrada e começou a visitar os locais que marcaram o seu passado. Descobriu que a casa onde havia morado na infância já não existia mais. No seu lugar montaram uma revendedora de pneus.

Ao sair dali resolveu fazer uma visita à escola onde estudou. Também encontrou tudo mudado. A única lembrança que descobriu foi uma foto da sua turma de formandos. Sua situação era quase desesperadora, pois não possuía mais passado e estava tentando construir o seu novo presente.

Eu estava equivocado

Eu precisei me esforçar muito para acertar as lentes do meu passado. Depois de muito tempo, resolvi retornar a minha cidade natal. Procurei os antigos amigos de infância. A maioria já havia se mudado do interior, quase todos para a Capital. Os poucos que ainda estavam por lá, já não eram mais os mesmos.

velhos amigos

Marianne Bos (Unsplash)

A conversa era tão diferente que pareciam pessoas estranhas. Pela forma como me olhavam, senti que eu era ainda mais estranho para eles. Tentei repetir as histórias que costumávamos contar uns para os outros. Não deu certo. Eles abaixavam a cabeça, como se quisessem se lembrar, mas era nítido que haviam se esquecido. O que fora muito marcante para mim, para eles não tivera tanto sentido.

Depois do susto, daqueles instantes de quase perplexidade, eu me recolhi por um tempo tentando entender o que estava acontecendo. Cheguei à conclusão de que a grande mudança ocorrera comigo. Eu me transformara em outra pessoa, e, ingenuamente, imaginava que os outros pudessem compreender essa minha nova face. Lógico que não.

Eu precisei mudar

Com calma, boa vontade, humildade e até muita obstinação iniciei um processo de aprendizado. Tentei me colocar no lugar deles. Se eu estivesse ali, como receberia essa nova pessoa? O que me atrairia numa conversa? Que tipo de comportamento julgaria interessante? E foi assim que consegui resgatar boa parte daquelas amizades. Aprendi que não poderia desejar que eles se adaptassem a mim. Essas pessoas continuavam em seus ambientes. A maioria não passara por grandes experiencias. Na verdade, haviam mudado muito pouco.

Valeu a pena insistir

O resultado foi excepcional. Hoje volto àquele local sendo um deles. As conversas rolam soltas, livres, agradáveis. Percebo que o mesmo prazer que sinto nesses encontros, eles também sentem. Não nos cansamos. Rimos e nos divertimos da mesma forma como fazíamos no tempo de infância. Conseguimos resgatar o sentimento que nos unia, embora sendo hoje pessoas muito distintas.

Como quase todos nós temos a sensação de que os tempos passados foram melhores que os que estamos vivendo no presente, precisamos tomar cuidado com esse reencontro. Temos de estar preparados para encontrarmos uma outra realidade, diferente da que imaginamos.

Por outro lado, se desejarmos mesmo experimentar os verdadeiros sentimentos que nos deram tanta alegria e satisfação, devemos nos esforçar para entender como deveríamos nos comportar para não sermos estranhos para os outros e para nós mesmos.


Reinaldo Polito é mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor nos cursos de pós-graduação em Marketing Político e Gestão Corporativa na ECA-USP e autor de 34 livros que já venderam 1,5 milhão de exemplares em 39 países. Sua obra mais recente éOs Segredos da Boa Comunicação no Mundo Corporativo. @polito

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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