Não leve o personagem para as redes sociais

  • Tiago Belotte
  • FOTOGRAFIA: Brett Jordan | Unsplash

Estudos mostram que a maioria das pessoas responsabiliza as redes sociais por sintomas como tristeza, ansiedade ou depressão.

Recentemente no meu perfil do Instagram fiz um questionamento que acabou gerando uma boa discussão. Perguntei o sentimento das pessoas em relação a uma outra rede social, o LinkedIn. E olha, a maioria das pessoas disse que detesta. Claro, não há nenhum peso estatístico nessa pesquisa, mas tenho notado um número crescente de reclamações sobre o conteúdo por lá.

Lições de moral marteladas a muito custo em histórias que parecem inventadas. Fórmulas prontas no estilo “toda vez que alguém me pergunta X eu mostro esse vídeo”, quando sabemos que não mostra, né? Ou então só brilho e sucesso, no emprego dos sonhos em posts arrematados com jargões motivacionais no melhor estilo “se eu posso, você pode”.

Por outro lado, não é uma exclusividade do LinkedIn esse tipo de reclamação. Já ouvi o mesmo do Instagram e anos atrás do Facebook. Será que o problema está no lugar ou na forma como o ocupamos? Rede social virou uma vitrine, seja para o trabalho ou para a vida pessoal. Vemos e somos vistos. E queremos mostrar a nossa melhor versão. Aquela bem-sucedida, a feliz, a que sempre tem coisas boas pra mostrar e dizer.

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Crédito: Souvik Banerjee | Unsplash

Não julgo e não vejo mal nisso. Temos o direito de editar nossa história e mostrar apenas aquilo que quisermos aos outros. Todavia, podemos nos perguntar: até que ponto? E se passamos a acreditar no personagem e ainda começamos a vendê-lo como real para os outros, continua sendo saudável?

Pode acabar sendo fatal

Desde o título, estou inspirado pela música do Lulu Santos, porque tenho a sensação de que daria uma boa trilha sonora desse modo de enxergar o universo digital. Levar o personagem a sério pode ser trágico. Literalmente. A chamada “vida de Instagram” é uma das maiores causas de problemas de saúde mental associados à presença na rede social. Depressão, ansiedade e baixa autoestima são consequências do uso irrefletido do aplicativo, de acordo com pesquisas.

De acordo com um estudo realizado pela entidade de saúde pública do Reino Unido, a maioria das pessoas apontou a rede social visual dos stories e reels como a que mais influencia no sentimento de ansiedade e solidão. De forma idêntica, em terras brasileiras, a Fundação Getúlio Vargas publicou estudo em 2019 mostrando que 41% dos jovens brasileiros responsabilizam as redes sociais por sintomas como tristeza, ansiedade ou depressão.

Nos comparamos com os outros e sofremos. Queremos ter a vida de Instagram, o emprego de LinkedIn e a casa de Pinterest, no entanto, nenhum é real.

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Crédito: Szabo Banerjee | Unsplash

Então, desmonta logo esta máscara

Dessa forma, continuo com o Lulu e acredito que a pandemia tem nos ajudado a buscar um novo modo de lidar com as redes. Por isso, a saturação e a reclamação crescentes. Se por um lado, ainda temos muita criação de narrativa e necessidade de perfeição. Por um outro, estamos nos conectando mais e nos engajando com o que é autêntico. Quantas pessoas passaram de anônimas a celebridades no digital por serem gente de verdade? Por terem mais a dizer e mostrar do que ostentar? Juliette que o diga. Assim como, médicos e cientistas compartilhando informações úteis sobre o coronavírus também.

Aqui é a vida real

No último ano fomos forçamos a viver intensamente o digital, mais do que gostaríamos. Esse fato pode ter várias consequências negativas, que não cabem neste texto. Mas também tem bons efeitos. Um deles é ter nos feito compreender que isso aqui também é vida real. Sem príncipes e princesas, vivendo felizes para sempre em seus castelos ou no Leblon, com bossa nova tocando ao fundo. É o mundo e é a vida, com toda a sua complexidade, beleza e tristeza, alegria e feiura. Tudo igual. Quem sabe, quando olharmos para esse momento, lá na frente, no futuro, vamos reconhecê-lo como o instante em que nos tornamos mais digitais, mas também mais humanos.


TIAGO BELOTTE é fundador e curador de conhecimento no CoolHow – laboratório de educação corporativa que auxilia pessoas e negócios a se conectarem com as novas habilidades da Nova Economia. É também professor de pesquisa e análise de tendências na PUC Minas  e no Uni-BH. Seu Instagram é @tiago_belotte. Escreve nesta coluna semanalmente, aos sábados.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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