Na Natureza Selvagem, de Sean Penn

  • Suzana Vidigal
  • FOTOGRAFIA: Divulgação

A ideia de sugerir esse filme foi para levantar o assunto do isolamento, suas implicações, angústias, trunfos e tudo mais que pode vir junto desse estranho pacote

 

Tenho pensado sobre o efeito desse isolamento nas nossas vidas e como o cinema tem sido ferramenta interessante. Curioso que nestes tempos de reclusão, estamos recolhidos não só fisicamente, como consequência do isolamento social, mas estamos mais reservados sentimentalmente falando. As emoções acontecem dentro da gente. Mas não tem bate-e-volta, não tem devolutiva da vida do dia a dia – o que, muitas vezes, em condições normais de temperatura e pressão, são devolutivas rasas e fugazes que pouco nos acrescentam. Agora, elas voltam pra gente, ficam represadas no nosso íntimo e não nos resta mais opção que olhar pra elas.

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Olhar e falar sobre elas. Foi assim que uma jovem estudante de psicologia me procurou semana passada pra que eu sugerisse um filme. A ideia era levantar o assunto do isolamento, suas implicações, angústias, trunfos e tudo mais que pode vir junto desse estranho pacote. Alguns filmes eram bastante óbvios, mas imediatamente sinalizei que o exercício era achar o isolamento em outro lugar que não fossem filmes sobre doença, pandemias, apocalipse, futuros distópicos e afins.

Tínhamos que encontrar um conteúdo que pudesse me conduzir para outro lugar além do já conhecido, que trouxesse algo de qualidade nos quesitos tema, forma, fotografia, narrativa, trilha sonora. Isso fez minha cabeça voar longe. Parênteses: cinema tem essa habilidade de nos conduzir facilmente por narrativas diversas, associando conhecimento e experiências pessoais, lembranças. Quando me vi, estava resgatando, na memória cinematográfica e afetiva, o filme que mais me impressionou pela força do isolamento não só físico, mas também daquele que causa o não-pertencimento.

Vamos abrir um espaço interno

Foi assim para Chris McCandless. Ele é um jovem rico com futuro promissor, que larga tudo, doa suas economias, joga seu futuro brilhante pra cima e parte numa road trip até o Alasca na tentativa de se isolar e se conhecer. A jornada de Chris é retratada no belíssimo filme “Na Natureza Selvagem”. O título diz respeito não só à paisagem em si (espetacular fotografia), mas à natureza humana, revirada do avesso, decupada e revisitada mil vezes pelo jovem que precisava saber quem ele era naquele contexto em que ele não se encaixava.

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Independentemente do que acontece com o personagem e das consequências da sua decisão, a aventura interior e exterior de Chris, dirigida por Sean Penn, me fez olhar para esse isolamento que estamos vivendo com olhos de quem precisa aprender a se suportar. Ao fim e ao cabo, nós só temos a nós mesmo. Dificilmente abrimos mão de tudo pra fazer o que Chris fez, mesmo porque isso não resolve os problemas. Mas nos privar de contatos estreitos no dia a dia, que nos distraem, porém nos ocupam, nos divertem, porém nos consomem, abre espaço interno para ouvirmos o que vem lá de dentro. Para dar espaço para os sentimentos aflorarem. Para nos entendermos melhor.

O porquê da escolha

Na Natureza Selvagem foi o filme sugerido para a reflexão conduzida pela jovem estudante e foi tiro certeiro. Pensar um tema através de uma realidade diferente. Mas que é intimamente associada a ela, é trabalhar nesse entrelaçamento que o cinema proporciona, juntando narrativas, resignificando histórias de vida.

 

Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir. 


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